Simone acordou com o coração disparado, o corpo coberto de suor frio. O quarto ainda estava escuro, iluminado apenas pela luz suave que atravessava a cortina entreaberta. Sentou-se na cama, levando a mão à cabeça enquanto tentava acalmar a respiração. O sonho ainda estava fresco em sua mente — vívido, assustador demais para ser apenas um fruto do subconsciente.
Soraya... com as mãos cobertas de sangue.
Janja... caída no chão, sem vida, irreconhecível depois de tantas facadas.
Simone engoliu em seco. Era só um pesadelo... ou não? Algo naquela imagem parecia mais real do que ela gostaria de admitir. O cheiro de sangue, o som abafado dos gritos, a expressão vazia nos olhos de Soraya enquanto ela encarava o corpo... tudo aquilo ainda pulsava dentro dela.
Tentou deitar novamente, ignorar, esquecer. Mas ao fechar os olhos, um novo sonho a assaltou: sua mãe, pálida, surgindo em meio a uma névoa espessa, olhando-a com uma seriedade gélida.
"Simone... cuidado com a Janja. Ela vai tentar tirar de você o que é mais precioso."
Simone despertou de novo com um sobressalto, os olhos marejados. Ficou alguns segundos olhando para o teto, sentindo o coração pesar. O que tudo aquilo significava? Seriam apenas delírios causados pelo estresse, ou os sonhos estavam tentando lhe dizer algo?
Olhou para o lado. Soraya dormia profundamente, deitada de lado, os cabelos bagunçados espalhados pelo travesseiro. Apesar do caos nos sonhos, Soraya parecia tão serena dormindo... tão sua. Simone suspirou e se levantou devagar, decidindo preparar o café da manhã. O dela mesmo — já que, convenhamos, o de Soraya era amargo demais para o seu gosto.
Estava distraída com os pensamentos, mexendo o açúcar na xícara, quando ouviu a voz familiar e suave atrás de si.
— Bom dia, amor — disse Soraya, com a voz ainda rouca de sono.
Simone virou-se e forçou um sorriso.
— Bom dia, princesa.
Soraya sorriu ao ouvir o apelido, aproximando-se para um beijo suave. Simone retribuiu, mas sua mente ainda ecoava as imagens perturbadoras da noite.
Tomaram café em silêncio, como se ambas sentissem algo pairando no ar. Soraya notou o olhar distante de Simone, mas não comentou. Apenas segurou sua mão por baixo da mesa, buscando conforto.
Depois do café, decidiram sair. Um dia bonito como aquele merecia ser aproveitado. Tomaram banho juntas, a água morna caindo sobre seus corpos como um alívio temporário. O toque de Soraya era carinhoso, os beijos suaves, mas Simone permanecia inquieta. Por dentro, a confusão só crescia.
Sentia-se dividida.
No caminho para a praça, observava Soraya andando ao seu lado, sorridente, despreocupada... E se ela realmente fosse capaz daquilo? E se os sonhos não fossem apenas sonhos?
Simone apertou a mão de Soraya, tentando calar a mente. Mas algo dentro dela continuava gritando. A paz daquele dia de sol escondia sombras que ela ainda não sabia como enfrentar.
As duas caminhavam de mãos dadas, ainda sentindo o cheiro do algodão-doce que compraram na praça. O céu já se tingia de laranja, anunciando o fim da tarde, e a brisa morna acariciava os cabelos soltos de Soraya.
— Soraya... — Simone chamou, olhando o chão como quem ponderava algo há tempos.
— Sim? — respondeu Soraya, apertando de leve a mão de Simone.
— Eu estava pensando em conhecer algum lugar novo.
Soraya sorriu, curiosa.
— Você quer viajar, amorzinho?
— Sim, tipo isso... Um lugar com praias, culturas diferentes, sabe? Algo que tire a gente dessa rotina.
— Claro, amor. Vamos pro Nordeste! Lá é lindo, tem praias maravilhosas, comida boa e um povo acolhedor.
Simone sorriu, animada com a ideia.
— Isso, amor! Uma ótima ideia. Porém... eu queria uma cidade cheia de histórias, sabe? Onde a gente possa passear e aprender, que dê vontade de fotografar cada cantinho.
Soraya levou um dedo ao queixo, pensativa.
— Amor, a gente pesquisa. Que tal? — disse, prática, mas sem esconder o entusiasmo.
— Você não tem nem uma cidade em mente? — Simone arqueou uma sobrancelha, provocando.
— Não... Só pensei no Nordeste mesmo. — riu Soraya, sincera.
— Tá bem. — suspirou Simone, fingindo decepção. — Mas vamos ter que levar a mamãe, eu acho...
— Não, amor! Vamos só nós duas! Vai ser mais divertido, mais leve... nossa viagem, entende? — respondeu Soraya, dando um beijo rápido na bochecha de Simone.
Simone mordeu o lábio, pensativa, mas não respondeu logo. Apenas sorriu de canto.
Já estavam próximas de casa, quando passaram por uma banca de revistas. Simone parou um instante, pegou um panfleto de viagens e guardou na bolsa, quase em silêncio. Soraya percebeu, mas preferiu não comentar. Sabia que quando Simone queria falar, ela falava — e com o coração.
— Amor... — Soraya quebrou o silêncio. — Vai ser incrível. Eu prometo que vou achar o lugar perfeito. A gente vai rir, comer coisa gostosa, se bronzear... e dormir agarradinha ouvindo o barulho do mar.
Simone olhou para ela, os olhos suavemente iluminados pelo pôr do sol.
— Com você... até acampar no mato seria divertido.
Soraya riu alto, abraçando Simone de lado enquanto continuavam andando.
— Mas vamos ficar com o Nordeste mesmo, tá? — brincou.
— Tá... mas nada de inseto, hein!
As duas riram e seguiram o caminho, ainda com cheiro de mar nos pensamentos e uma vontade crescente de se perderem, juntas, em alguma cidade que ninguém mais conhecesse delas — apenas elas duas e os segredos que carregavam.
Essa viagem, será pra onde vão?
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Amnésia
FanfictionSimone sofre um acidente voltando do trabalho e perde a memória. Soraya, frustrada e cansada, tem que lidar com a amnésia da esposa e os conflitos não resolvidos do casamento.
