O quarto ainda guardava o calor dos corpos entrelaçados. A respiração de Soraya, suave, soprava no pescoço de Simone, que a envolvia com o braço num abraço protetor. Lençóis revirados, pele colada, silêncios preenchidos por batimentos acelerados. Após os desejos terem sido consumidos, restava agora apenas o conforto da presença uma da outra. A madrugada avançava em silêncio, e ambas adormeceram agarradinhas, como se ali nada pudesse tocá-las.
Mas a paz foi curta.
Simone começou a se remexer na cama. Sua testa se franzia, os lábios se moviam em murmúrios confusos. Uma angústia tomava conta do seu corpo. O sonho era nítido, cruel e aterrador.
Ela estava em um cômodo escuro, as luzes piscando como em um filme de terror. O chão estava molhado. Um som de choro ecoava ao fundo. Quando se aproximou, viu Janja caída, ensanguentada. Soraya estava ali, trêmula, com uma faca na mão. Os olhos dela — tão doces na realidade — agora estavam tomados por uma fúria descontrolada. A boca dela se contorcia num grito embargado pela dor.
— Ela nunca te deixou em paz! Eu... eu só queria você pra mim! — dizia Soraya no sonho, embriagada, o cheiro de álcool e desespero escapando de cada palavra.
A faca caía no chão com um ruído metálico. Janja não respirava mais. Simone gritava. Queria correr, mas as pernas não obedeciam. Tudo girava.
— NÃO! — Simone gritou, despertando de súbito.
O peito arfava. Suor escorria pelas têmporas. O coração disparado como se fosse explodir.
Soraya, assustada com o grito, ergueu o tronco num salto.
— Simone! O que foi? Tá tudo bem?! — perguntou, com a voz embargada de preocupação, os olhos arregalados tentando entender o que havia acabado de acontecer.
Simone levou a mão ao rosto, tentando se orientar. O quarto agora parecia frio, estranho. Ainda podia ver o sangue, ouvir o grito. Ela se encolheu, ofegante.
— Um sonho... um pesadelo — murmurou.
— Ei, calma... — Soraya se aproximou, tentando envolvê-la de volta nos braços. — Foi só um sonho, meu amor. Tô aqui... tô com você.
Simone recuou um pouco, sem perceber. Ainda via o reflexo da faca nos olhos da mulher que agora lhe acariciava os cabelos. O contraste entre a Soraya do sonho e a Soraya real a deixava confusa.
— Eu... eu sonhei que você... que você matou a Janja — confessou, ainda trêmula.
Soraya parou por um segundo. Seu rosto se contraiu, como se não soubesse se ria do absurdo ou se ficava magoada.
— O quê? — sussurrou.
— Você estava bêbada. Tinha ciúmes... você... esfaqueou ela. Eu vi tudo, o sangue... — Simone passou as mãos pelos braços, tentando afastar o frio que subia da espinha.
Soraya se afastou um pouco, sentando na beirada da cama. Pegou o copo d'água no criado-mudo e estendeu para Simone.
— Bebe, amor. Vai te ajudar a acalmar.
Simone bebeu em silêncio, os olhos fixos em um ponto qualquer do quarto. O silêncio entre as duas pesava. A noite, antes envolta em paixão, agora parecia estar mergulhada em algo sombrio.
— Eu nunca faria isso... — disse Soraya, quase num sussurro, com a voz baixa, como se tivesse medo da própria sombra do sonho. — Eu jamais machucaria alguém, principalmente por ciúmes. E mesmo se eu odiasse a Janja — ela encarou Simone — eu jamais faria mal a ela.
Simone assentiu, mas não conseguia se convencer. O sonho havia sido tão real... tão visceral. E embora soubesse que Soraya era uma mulher doce, carinhosa, o medo plantado ali, no fundo da mente, ainda pulsava.
— Eu sei que foi só um pesadelo... mas foi horrível. A sua voz, o seu rosto... parecia mesmo você.
Soraya engoliu em seco.
— Você tem medo de mim? — perguntou, quase sem voz.
Simone hesitou. Olhou para ela e, naquele momento, viu apenas a garota que dormia abraçada a ela minutos antes. Mas o coração ainda batia descompassado.
— Não... só... só não consigo voltar a dormir agora.
Soraya se aproximou novamente, devagar, respeitando o espaço.
— Eu fico acordada com você. A gente pode conversar, ou só ficar aqui em silêncio. Mas eu tô aqui. Sempre estarei.
Simone olhou nos olhos dela. A sombra do pesadelo ainda pairava, mas havia uma luz na voz de Soraya que a ancorava na realidade. Mesmo assim, o sono não voltaria tão cedo.
Naquele silêncio partilhado, um nó invisível se formava entre as duas — algo novo, frágil, que o sonho macabro havia deixado ali como marca. E agora, mesmo de mãos dadas, havia um abismo tênue que precisaria ser atravessado com cuidado.
Será que Simone está tendo sonhos avisando algo? Brincadeira essa parte desculpa pela demora eu estava em semana de provas é trabalhos pra entregar deixe estrelas que eu volto divas!
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Amnésia
FanfictionSimone sofre um acidente voltando do trabalho e perde a memória. Soraya, frustrada e cansada, tem que lidar com a amnésia da esposa e os conflitos não resolvidos do casamento.
