O som dos passos de Simone ecoou pelo corredor do pequeno prédio onde Janja morava. Uma semana havia se passado desde a briga entre Soraya e Janja. Simone ainda não sabia exatamente o que tinha acontecido, mas sentia no peito que precisava ver Janja — não por amor, mas por respeito. Por história. Por tudo que ainda estava confuso dentro dela.
Bateu na porta com leveza.
Segundos depois, Janja abriu, surpresa. Estava com um curativo no nariz e os olhos fundos de quem não dormia direito.
— Simone?
— Oi... — ela sorriu, um pouco tímida. — Posso entrar?
Janja se afastou, dando espaço.
— Claro. Nossa... achei que depois daquilo tudo você nunca mais ia querer me ver.
Simone entrou, observando o ambiente simples, mas aconchegante. Sentou-se no sofá. Janja fez o mesmo, mantendo uma certa distância.
— Eu pensei muito antes de vir. Mas... eu precisava conversar com você. Olhar nos seus olhos. Esclarecer as coisas.
Janja assentiu devagar.
— Pode falar.
Simone respirou fundo, mexendo nas mãos nervosamente.
— Você tem sido importante nesse processo todo de recuperação. Me ajudou a lembrar de partes de mim que eu achava que estavam perdidas. E eu te agradeço por isso.
— Eu só fiz o que o meu coração mandou — Janja disse, sincera. — Eu ainda te amo, Si.
— Eu sei. — Simone sorriu, triste. — Mas... eu não sinto o mesmo. Eu gosto da nossa amizade. Gosto de lembrar da nossa juventude, dos risos no colégio. Mas não vejo um futuro com você. Não do jeito que você espera.
Janja apertou os olhos, tentando conter a dor.
— Por quê, Simone? Por que ela e não eu? O que a Soraya tem que eu nunca tive?
Simone olhou para o chão por alguns segundos, antes de encarar Janja com honestidade.
— O meu amor. O tempo inteiro, mesmo sem lembrar de tudo, eu sentia que havia algo muito forte entre mim e a Soraya. Algo que me puxava pra ela. Que me fazia querer ficar. Mesmo depois de tudo... ainda é ela quem eu amo. Eu não consigo me imaginar acordando sem ela do meu lado.
Janja desviou o olhar, os olhos marejando.
— Então... tudo isso não significou nada pra você?
— Significou sim. — Simone respondeu firme. — Só que de outro jeito. Você foi parte da minha história, Janja. E sempre vai ser. Mas hoje… meu coração pertence à Soraya.
O silêncio tomou conta do ambiente por alguns segundos. O ar estava denso, pesado. E foi nesse intervalo que Janja agiu por impulso.
Ela se aproximou rapidamente e beijou Simone nos lábios. Foi um toque breve, quase desesperado.
Simone arregalou os olhos, empurrou Janja com as duas mãos e se levantou, ofendida.
— Janja! Não!
Janja ficou imóvel, os olhos cheios de lágrimas.
— Me desculpa… eu só… eu precisava tentar. Não queria perder você de novo.
— Mas você perdeu. Não assim. — Simone disse, firme. — Esse beijo… não devia ter acontecido. Eu confiei que você entendia. Que você me respeitaria.
Janja cobriu o rosto com as mãos, sentindo o desespero tomar conta.
— Eu só queria mais um momento com você. Só um…
Simone balançou a cabeça, os olhos também úmidos, mas determinados.
— A gente não pode viver de momentos que não são reais. Eu te desejo o bem, Janja. Mas eu não posso te dar o que você quer.
Ela se virou e saiu, fechando a porta atrás de si com um clique seco.
Janja permaneceu no sofá, o corpo desmoronando. As lágrimas caíram sem resistência. E, sozinha no silêncio do pequeno apartamento, ela sussurrou para si mesma:
— Eu amei você antes dela... mas nunca fui suficiente.
Te entendo janja, e ruim não ser correspondida
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Amnésia
FanfictionSimone sofre um acidente voltando do trabalho e perde a memória. Soraya, frustrada e cansada, tem que lidar com a amnésia da esposa e os conflitos não resolvidos do casamento.
