Deu certo

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O tempo parecia andar devagar demais.

Soraya encarava o teto do quarto em silêncio. A luz suave do abajur fazia sombras dançarem nas paredes, enquanto os ponteiros do relógio insistiam em lembrar que mais um dia havia passado. Mais um mês de espera. Mais uma tentativa frustrada.

Ela virou-se para o lado e olhou para Simone, que dormia tranquila, com o braço esticado na sua direção. Um aperto se formou no peito de Soraya. Ela não queria demonstrar fraqueza, não queria que Simone carregasse mais peso do que já tinha. Mas, no fundo, estava cansada. Desanimada. Assustada.

Era a quarta tentativa. Inseminação feita, cuidados redobrados, expectativa alta… e, mais uma vez, nada.

Naquela manhã, Soraya se levantou mais cedo que o habitual. Foi até a cozinha em silêncio, fez um café forte e ficou olhando o vapor subir da xícara. Depois de muito pensar, mandou uma mensagem rápida para a médica:

"Quero tentar mais uma vez. Só mais uma. Se não der… eu paro."

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Dois meses depois.

Soraya estava no banheiro, ajoelhada no chão frio, com o rosto colado à tampa do vaso sanitário. Mais uma vez, o enjoo a vencera. Já era a terceira manhã seguida que aquilo acontecia, e agora não podia mais ignorar.

— Tem algo estranho… — murmurou para si mesma, tentando se levantar devagar.

Foi até o armário e pegou o teste de farmácia que tinha guardado ali havia semanas. Só por precaução, dizia a si mesma. Mas, no fundo, esperava que aquele momento chegasse.

Com as mãos trêmulas, fez o teste. O coração batia tão forte que ela mal conseguiu esperar os dois minutos recomendados. Quando finalmente olhou o visor… lá estava. Duas linhas. Claras. Fortes. Positivo.

Soraya levou as mãos à boca, sentindo o ar faltar. As lágrimas vieram antes mesmo do sorriso. Ficou parada ali, olhando para aquele pequeno pedaço de plástico como se fosse o bilhete dourado da vida.

Ela saiu do banheiro com passos cuidadosos, segurando o teste com delicadeza. O coração parecia prestes a explodir no peito. Quando entrou no quarto, encontrou Simone ainda deitada, enrolada no lençol, mexendo no celular.

— Soraya? Tá tudo bem? — Simone sentou-se na cama, preocupada com a expressão da esposa.

Soraya não disse nada. Apenas estendeu o teste para ela.

Simone pegou com cuidado, olhou… e seus olhos se arregalaram.

— Isso é… isso é o que eu tô pensando?

Soraya assentiu, os olhos marejados. Um sorriso contido tremia nos lábios.

— Tá positivo, Si. A gente conseguiu.

Simone cobriu a boca com a mão, os olhos se enchendo d’água.

— Meu Deus… Soraya…

Ela pulou da cama e envolveu Soraya num abraço forte, cheio de emoção. As duas ficaram ali, abraçadas no meio do quarto, deixando as lágrimas caírem livres, molhando os ombros uma da outra.

— Você tá mesmo grávida? — Simone repetiu, como se ainda estivesse tentando acreditar.

— Sim… eu nem consigo explicar o que eu tô sentindo. Medo, alegria, tudo junto… — Soraya riu em meio ao choro. — Eu achei que não ia conseguir. Que o meu corpo tava me dizendo não…

— Mas conseguiu. Conseguiu, amor. Nós conseguimos.

— É real, Simone. A gente vai ser mães.

Simone beijou o rosto de Soraya repetidas vezes, passando as mãos em seu cabelo, em sua nuca, tentando abraçá-la ainda mais forte, como se pudesse protegê-la de tudo no mundo.

— Eu sempre soube que você era forte. Que nosso amor era forte o suficiente pra isso.

— E se eu tiver medo? Se eu não souber o que fazer?

— A gente vai descobrir juntas. Um dia de cada vez. Eu vou estar com você em cada passo. Em cada consulta. Em cada madrugada difícil. — Simone segurou o rosto dela com carinho. — E quando esse bebê nascer, ele vai saber que foi muito amado desde o primeiro segundo.

Soraya fechou os olhos, sentindo as palavras entrarem fundo em seu peito. Era isso. Era real.

— Eu pensei em desistir, Si. De verdade. Aquela última vez… eu só tentei porque algo me dizia que ainda dava tempo. Que era agora ou nunca.

— E ainda bem que você tentou. Ainda bem que não desistiu.

As duas se sentaram na cama, ainda abraçadas, olhando novamente para o teste.

— Já pensou? — Simone sorriu, com os olhos brilhando. — Um bebê com o seu sorriso e o meu gênio?

— Ou o seu sorriso e o meu drama… — Soraya riu.

— Vai ser lindo. Não importa como.

— A gente vai chamar a Faite? Ela vai infartar de alegria.

— Vamos, mas só depois que eu te der mais um abraço. — Simone puxou Soraya para perto novamente. — Porque esse momento é nosso. Só nosso.
















Fim! Mais se vocês quiserem que eu faça uma segunda parte da maternidade das duas vocês é quem sabe, deixem estrela é vão ler minha próxima história

AmnésiaOnde histórias criam vida. Descubra agora