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O quarto estava silencioso, exceto pelo som repetitivo do alarme que já havia tocado quatro vezes. Simone continuava imóvel, afundada no colchão, enquanto Soraya, virada de lado, observava o rosto sereno da esposa dormindo. Estavam deitadas juntas, mas não abraçadas — havia um espaço entre elas, como uma linha invisível que representava tudo o que ainda estava mal resolvido.

Soraya suspirou e se aproximou um pouco, tocando de leve no ombro de Simone.

— Sisa, amorzinho… acorda — sussurrou com carinho.

Simone se remexeu, murmurando com a voz rouca de sono:

— Me deixa dormir...

Soraya riu baixinho. A forma como ela respondeu a fez lembrar dos tempos antigos, quando tudo entre elas era leve.

— Amor, você tá atrasada. Já são 11h30 — disse um pouco mais alto.

Os olhos de Simone se abriram de repente, arregalados de susto.

— Meu Deus! Soraya, por que não me acordou antes? A Janja deve estar me esperando faz um tempão!

Ao ouvir o nome de Janja, o semblante de Soraya mudou. O sorriso sumiu, dando lugar a um olhar magoado. Sentou-se lentamente na cama, puxando a coberta até o colo, enquanto Simone já se levantava apressada, pegando o celular e correndo até o banheiro.

— Que ótimo — murmurou Soraya, emburrada. — Eu aqui me preocupando, e você ansiosa pra ver ela.

Simone voltou correndo, tentando ajeitar o cabelo.

— Soraya, não começa. Eu combinei com ela de ir à praia hoje. Você sabia que eu tava com ela esses dias…

— Claro que sabia. Mas, sinceramente, depois da noite que a gente teve, achei que você fosse mudar de ideia.

— A gente se entendeu, só isso… não quer dizer que tudo voltou ao normal — respondeu Simone, já trocando de roupa.

Soraya ficou em silêncio, os braços cruzados. Simone suspirou.

— Soraya, não faz essa cara. Eu te escuto, eu tô tentando… mas também preciso de espaço.

Sem responder, Soraya deitou de novo, virando o rosto pro lado contrário.


A praia estava cheia, o sol forte refletia na água com brilho intenso. Simone e Janja caminhavam à beira-mar, com os pés tocando a espuma branca. Janja não sorria — parecia inquieta.

— Você demorou — disse, sem rodeios.

— Eu dormi demais. Soraya me acordou… - Simone parou de andar ao perceber o olhar de Janja se estreitando.

— Espera… Soraya? Você dormiu com ela?

— Eu dormi em casa, e ela estava lá. A gente conversou, foi intensa a noite… ela chorou, pediu perdão. Só isso.

Janja cruzou os braços, respirando fundo.

— Simone, você não enxerga mesmo, né? Ela tá manipulando você.

— Não fala assim…

— Eu vou falar sim! Ela sabe que você é sensível, sabe da sua memória, do seu coração… e usa isso. Soraya faz você de brinquedo, e você cai de novo, toda vez.

— Você não entende, Janja. Eu vivi muita coisa com ela.

— E vai continuar vivendo mágoa! Ela só quer garantir que, mesmo te machucando, você nunca vá embora de verdade. E agora? Você vai largar tudo que construiu comigo esses dias por causa de uma lágrima dela?

Simone ficou em silêncio. Janja bufou e saiu andando na frente.

O resto do dia, mesmo com o mar e o céu azul, foi nublado para Simone. As palavras de Janja ecoavam em sua mente como ondas fortes quebrando nas pedras. Será que Soraya ainda a amava de verdade… ou será que estava mesmo sendo manipulada?

Ela não sabia. Mas sabia que o coração começava a pesar de novo.





A janja está na luta ainda né

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