boate

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O som da música preenchia cada canto da boate como um mar em fúria. As luzes piscavam em tons de azul e lilás, refletindo nas paredes de espelho e nos olhos cintilantes de Simone. Ela girava no meio da pista, rindo de forma descompassada, com um copo na mão e a mente leve demais para lembrar o que deveria esquecer.

Janja estava ao lado, com os cabelos soltos e um sorriso vitorioso nos lábios. Eram como duas estrelas dançando num céu escuro, mas Simone já começava a ofuscar. Cada gole a deixava mais solta, mais entregue, mais longe de si. Mesmo assim, ela sorria — não de felicidade verdadeira, mas da sensação fugaz de escapar da dor.

— Vamos tirar uma foto — disse Janja, colando o rosto ao de Simone. — Assim você não esquece dessa noite.

Elas posaram, os olhos brilhando, os corpos próximos. Simone postou sem pensar, sem medir consequências, como se o agora fosse tudo o que importasse.

Enquanto isso, em casa, Soraya olhava para o celular com o coração parando por um segundo. A notificação dos stories acendeu a tela. Quando abriu, seu peito se apertou. Lá estava Simone — a mulher que todas as manhãs dizia não lembrar dela — sorrindo nos braços de Janja, como se nada mais existisse.

A dor deu lugar à raiva. Pegou a jaqueta, saiu pela porta e pegou um carro direto até o endereço da boate que um conhecido já tinha lhe falado. As mãos tremiam. Não de insegurança, mas de medo. Medo de perder Simone, de novo.

A entrada da boate era abafada, o cheiro de álcool e fumaça forte. Soraya passou pelos seguranças e entrou, o coração martelando no peito. Não demorou para encontrá-las.

Simone dançava no centro da pista, cabelos desgrenhados, as bochechas coradas demais, o olhar distante. Janja estava colada nela, os dedos nas costas nuas, o sorriso satisfeito.

Soraya atravessou a multidão com passos decididos.

— SIMONE! — gritou, e a música pareceu diminuir por um instante.

Simone virou devagar, cambaleando, os olhos semicerrados pela bebida.

— Soraya? — murmurou, como se visse um fantasma.

— O que você está fazendo aqui? — Janja perguntou, forçando uma expressão de surpresa.

Soraya a ignorou. Pegou Simone pelos braços com firmeza.

— Você sabe que não pode beber assim, Simone! Está tomando remédios. Isso pode te fazer mal, muito mal!

Simone piscou várias vezes, tentando focar no rosto da mulher diante dela.

— Eu só… queria dançar… me sentir viva. Janja disse que… que tudo bem.

— Tudo bem? — Soraya virou-se para Janja, os olhos faiscando. — Você sabia! Sabia dos remédios, da confusão, da vulnerabilidade dela. E mesmo assim trouxe ela pra isso aqui?

Janja deu um passo à frente.

— Eu não obriguei ninguém. Ela quis vir. Ela precisa sentir que é mais do que a esposa perdida que você trata como um bibelô frágil.

— Frágil? Ela é a minha esposa! E eu cuido dela porque a amo, não porque a quero presa. — Soraya quase gritava, mas sua voz saiu embargada. — Você está se aproveitando do fato de ela não lembrar. Você sempre fez isso, Janja. Até antes do acidente.

Simone estremeceu. A palavra "acidente" soou como um eco longínquo dentro da mente. Fechou os olhos e flashes atravessaram sua consciência — uma estrada, um som de freada, gritos, escuridão.

— Parem… — disse, colocando a mão na cabeça. — Eu… eu não lembro…

Soraya a segurou com mais carinho agora, vendo o desespero surgir no rosto de Simone.

— Shh, tá tudo bem. Vamos pra casa. Você precisa descansar. Isso aqui só tá te machucando.

— Você vai mesmo levá-la embora como se fosse sua propriedade? — provocou Janja. — Ela está feliz aqui. Ela riu comigo, Soraya. Coisa que não faz com você.

Soraya virou-se, agora calma, mas firme.

— A diferença, Janja, é que você quer que ela continue confusa. Eu quero que ela se encontre. Mesmo que isso doa pra mim.

Simone encostou o rosto no peito de Soraya, os olhos marejados.

— Me leva pra casa… por favor.

Soraya a envolveu com o casaco e a guiou para fora. No caminho até o carro, Simone olhava para o céu, tentando encontrar estrelas entre as luzes da cidade.

— Eu te decepcionei? — perguntou, com a voz trêmula.

— Não. Você só está perdida. E eu estou aqui… pra te ajudar a voltar.

Dentro da boate, Janja pegou o copo que Simone deixou para trás. Bebeu o resto de uma vez só e encarou o vazio da pista. Pela primeira vez em muito tempo, sentiu que talvez estivesse perdendo.











Ai,aí,aí essa janja emm

AmnésiaOnde histórias criam vida. Descubra agora