última mensagem

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O relógio marcava 1h45 da madrugada. A casa estava em silêncio. Soraya dormia profundamente, mas Simone encarava o teto, inquieta. O beijo que Janja havia roubado ainda a incomodava. Era como uma ferida pequena, mas que ardia. A confusão, a culpa e a compaixão se misturavam em seu peito. Pegou o celular distraidamente e, sem aviso, a tela se acendeu com uma notificação.

JANJA:
"Me perdoa por tudo, Si. Eu te amei mais do que devia. Mais do que qualquer um. Mas eu tô cansada… Tá doendo demais. Adeus."

Simone sentou-se na cama, o coração acelerado. As mãos trêmulas seguravam o celular como se fosse uma bomba prestes a explodir.

— Que isso, Janja? Que brincadeira é essa? — sussurrou, os olhos arregalados.

Começou a digitar, aflita.

SIMONE:
"Janja… o que é isso? Para com isso, por favor. Eu te perdoo, tá bom? Mas você precisa seguir em frente. Você merece ser feliz, mesmo sem mim."

Ela ficou encarando a tela, esperando o “digitando…” aparecer.

Nada.

Tentou ligar. Chamada recusada.

Tentou de novo. Caixa postal.

— Não, não, não faz isso… — murmurava, andando de um lado para o outro do quarto.

Soraya se mexeu na cama, mas Simone saiu devagar, indo para a sala. O coração apertava a cada segundo.

Passou a madrugada acordada, rezando para que fosse apenas um desabafo. Só uma crise. Só um impulso.

Mas quando o sol começou a nascer, o telefone tocou.

Era o número da irmã de Janja.

Atendeu com a voz rouca e nervosa.

— Alô?

Do outro lado, um silêncio pesado.

— Simone… a Janja… ela… ela se foi. A polícia achou uma carta, e o celular com uma mensagem agendada. Ela… ela se suicidou ontem à noite. Provavelmente pouco depois da 1h30.

Simone deixou o celular cair no chão.

Os sons ficaram distantes, como se o mundo tivesse sido coberto por uma camada de vidro. As palavras da ligação ecoavam como um pesadelo.

Se foi.
Mensagem agendada.
1h30.

1h45. A mensagem.

Ela caiu de joelhos no tapete da sala, o peito apertado como se não houvesse mais ar.

As lágrimas vieram sem pedir licença, pesadas, quentes.

— Não… não, Janja… — soluçou. — Eu respondi… Eu disse que te perdoava! Por que você não esperou? Por quê?

As mãos apertavam os cabelos, os gritos sufocados ecoavam pelo cômodo.

Soraya apareceu correndo, assustada.

— Simone?! O que aconteceu? O que foi?

Simone olhou para ela, os olhos inchados, o rosto tomado pelo desespero.

— Ela morreu, Soraya… a Janja… ela tirou a própria vida!

Soraya ficou em choque, se ajoelhando ao lado dela.

— Meu Deus… meu Deus…

— E a culpa é minha! — Simone gritou, empurrando o peito de Soraya, como se quisesse expulsar a dor. — Eu devia ter feito mais! Eu devia ter insistido! Eu devia ter ido lá!

— Ei, ei… calma… — Soraya tentou abraçá-la, mas Simone resistiu. — Isso não é sua culpa, Simone!

— Como não? Ela mandou a mensagem! Pediu perdão! E eu respondi… mas era tarde demais…

Simone caiu no colo de Soraya, completamente desfeita. O corpo tremia. Os soluços pareciam não ter fim.

— Ela só queria ser amada… — sussurrou, entre lágrimas. — Só queria ser ouvida… e agora… agora é tarde demais.

Soraya a abraçou forte, sem saber o que dizer. Nenhuma palavra poderia desfazer o que havia acontecido. Nada traria Janja de volta.

Do lado de fora, o dia nascia como se nada tivesse acontecido. Mas dentro daquela casa, algo havia morrido junto com Janja — um pedaço da inocência de Simone, um pedaço do passado, e um pedaço da esperança.









Será que ela morreu mesmo?

AmnésiaOnde histórias criam vida. Descubra agora