picina

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O aroma do café fresco invadiu o quarto antes mesmo de Simone abrir os olhos. Ela despertou lentamente, sentindo a cabeça leve, mas o coração ainda inquieto. As lembranças da noite anterior rondavam como fumaça — não exatamente claras, mas intensas.

Soraya tinha ido buscá-la na boate, depois de descobrir que Janja a tinha levado até lá sem avisar. Quando chegou, encontrou as duas juntas no meio da pista, e não pensou duas vezes: foi direto tirar satisfação. A discussão esquentou rápido. Janja dizia que não tinha feito nada demais, Soraya gritava que Simone não era brinquedo de ninguém.

No meio daquilo tudo, Simone sentiu o corpo tremer. E então, como se o impacto das palavras tivessem rompido uma barragem mental, as imagens começaram a voltar. Um clarão. Gritos. Um barulho metálico rasgando o ar. O volante. O sangue. O vazio.

Ela pediu para as duas pararem. Pediu para irem embora. E foi o que fizeram. Soraya a levou para casa, em silêncio. Cuidou dela. E ficou ali, do lado, até Simone finalmente adormecer.

Simone se sentou na cama, respirando fundo. Foi nesse momento que Soraya entrou com uma bandeja nas mãos. Vestia um short leve e uma regata branca, os cabelos soltos, o rosto ainda marcado por preocupação — mas havia também um carinho silencioso em cada gesto.

— Bom dia, dorminhoca — disse ela, com um meio sorriso. — Preparei um café. Você precisa se alimentar.

— Soraya… você sempre cuida de mim — Simone murmurou.

— Porque eu quero. Porque eu me importo — respondeu ela, pousando a bandeja na cama. — E hoje… o dia tá lindo. Achei que depois de tudo, seria bom você se distrair. Aproveitar o sol. A piscina tá uma delícia.

Simone a observou por um instante. Tinha tanto para agradecer, mas nenhuma palavra parecia suficiente.

— Você tem razão. Acho que um dia leve é tudo que eu preciso.

Soraya sorriu mais largo e pegou a toalha com entusiasmo.

— Então vai lá trocar, porque eu não aceito um “não”.

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O sol brilhava alto no céu quando as duas chegaram à piscina. Soraya foi a primeira a mergulhar, seu biquíni vinho colando perfeitamente ao corpo. Simone não conseguiu tirar os olhos.

— Vem logo, mulher! — Soraya chamou, rindo e jogando água.

Simone mergulhou logo atrás, e por alguns minutos nadaram em silêncio, apenas curtindo o momento. A água morna envolvia o corpo como um abraço calmo, e o clima parecia suspenso entre elas.

— Tá melhor? — perguntou Soraya, aproximando-se com um sorriso de canto.

— Muito. Eu ainda tô um pouco... confusa com tudo que tô lembrando. Mas aqui, contigo, é como se o mundo parasse.

— Talvez ele pare mesmo — Soraya respondeu, a voz mais baixa agora, os olhos cravados nos de Simone.

O silêncio entre elas mudou de temperatura. Simone sentiu o coração acelerar, e não soube dizer se era da lembrança ou do desejo. Mas quando viu Soraya se aproximando, os cabelos molhados colando ao pescoço, a boca levemente entreaberta... não resistiu.

Puxou-a pela cintura, colando seus corpos. O beijo veio quente, úmido, urgente. As mãos de Simone deslizavam pelas costas nuas de Soraya, até segurar firme sua cintura. As pernas se enroscaram debaixo d’água, os corpos se encaixavam como se tivessem sido feitos um pro outro.

Soraya soltou um gemido abafado quando Simone a prendeu contra a borda da piscina. Os beijos desceram para o pescoço, os ombros, a clavícula. Cada toque despertava arrepios.

— A gente... não devia — murmurou Soraya, mesmo sem se afastar.

— Mas você quer — Simone respondeu, roçando os lábios na orelha dela.

Soraya não disse nada. Apenas gemeu baixinho quando a mão de Simone mergulhou sob a água, explorando com precisão, até que...

— Chegaaaamos! — gritou uma voz feminina vinda de dentro da casa.

As duas pararam na mesma hora. Soraya arregalou os olhos.

— Merda... Elisiane.

— E Leila junto, com certeza — disse Simone, respirando fundo, tentando se recompor.

— A empregada deve ter deixado elas entrarem — falou Soraya, ajeitando o biquíni às pressas.

Elas saíram da piscina rapidamente. Simone enrolou-se numa toalha, e Soraya prendeu os cabelos como pôde. A tentativa de parecerem “normais” era quase cômica.

— Olhaaa quem tá aqui! — gritou Leila, surgindo na varanda com sacolas nas mãos.

— Interrompemos algo? — perguntou Elisiane, com um sorrisinho desconfiado.

— Que nada — disse Soraya, limpando o rosto com a toalha. — Só tomando um banho de piscina mesmo.

— Aham, sei — respondeu Leila, abrindo uma garrafa de vinho. — Bora aproveitar esse dia também, que a gente trouxe tudo!

Com música baixinha tocando e o sol ainda brilhando, as amigas se espalharam pelo jardim. Taças se encheram, petiscos foram servidos, e as risadas logo tomaram o lugar da tensão.

Mas, mesmo no meio da conversa, dos brindes e da dança improvisada, os olhos de Simone e Soraya se encontravam de vez em quando — e nenhum vinho do mundo apagava aquele desejo adiado.

A noite prometia.

E a pausa... era só um intervalo.

AmnésiaOnde histórias criam vida. Descubra agora