Megan&Beatrice&Bicicletas

28 5 2
                                    

- Não acho boa ideia visitar parques de novo. Principalmente com bicicletas.

Megan reclamava com certa razão. As memórias da última visita não eram agradáveis e além disso, tinha uma longa história com aquele objeto de duas rodas que pedalavam.

Quando criança, Megan teve um acidente horrível. Desceu uma ladeira em uma bicicleta com apenas quatro anos e colidiu com um muro repleto de vidros. Precisou de alguns pontos no rosto e traumatizou a família. Desde então, fora proibida de andar de bicicleta, até os quinze anos, em que foi praticamente obrigada por Beatrice a aprender novamente. Algo que nunca conseguiu fazer com maestria.

A amiga ria ao lembrar disso. Não do tombo, pois não se conheciam, mas do desespero de Megan. Por mais durona que pudesse parecer, tinha inseguranças dignas de uma criança. Por isso, se dispunha a ajudá-la a vencer aquele medo.

As duas pedalavam pelo Parque de Collserola, no conhecido Caminho das Águas. De lá, tinham uma bela vista da cidade, além de tranquilidade para passear sem medo. O Sol era aprazível e se divertiam rindo da falta de habilidade de Megan ou das canções de Beatrice, que insistia em utilizar toda sua voz em tons quase impossíveis. A da vez era Mariah Carey.

- Se ousar cantar mais um "I can't live" eu pego essa bike e acerto você, Beatrice. Eu juro pela minha mãe! - ameaçou Megan, saltando da bicicleta e caminhando com as pernas entreabertas. Detestava o assento do transporte. Beatrice estava prestes a chorar de rir.

- O que eu posso fazer se ouvi a vizinha de quarto cantando isso hoje? Não sai da cabeça! - respondeu, limpando as lágrimas que tentavam escapulir dos olhos. Não se lembrava há quanto tempo não havia rido com tanta vontade. Por mais que a visita ao Labirinto d' Horta a tivesse deixado aflita, tinha que admitir que seus sentimentos mudavam. As vezes se sentia em uma montanha russa de emoções, mas era melhor assim do que totalmente por baixo. Naquele instante conseguia se divertir ao lado da amiga e deixar as mágoas e recordações para trás. Onde deveriam ficar.

- Vou correr de você, quem sabe assim não me livro! - disse Megan, montando novamente na bike e passando a frente da amiga. Beatrice riu, aceitando o desafio e pedalando com toda força. As duas gritavam e gargalhavam como duas crianças, fazendo desvios e passando por obstáculos do caminho.

Até que uma ladeira apareceu.

- Megan, freia! - gritou Beatrice, esperando que a amiga a ouvisse.

Tarde demais.

Megan nunca teve muita coordenação. Tentou diminuir a velocidade, mas tirou os pés dos pedais, colocando-os no chão. Acabou descendo a ladeira sem poder frear, com as pernas abertas e tentando controlar o guidão. O grito atrapalhado e o barulho do impacto puderam ser ouvidos por Beatrice do alto.

- MEGAN! Meu Deus... Vamos, eu te ajudo. - disse Beatrice, assustada ao ver a amiga completamente largada no chão, enrolada com a bicicleta que mais parecia um número oito, de tão torta. Como sempre, o rosto sangrava e teve medo que o ferimento fosse grave. Megan deu alguns gemidos, tentando se movimentar.

- Eu te disse... sou boa com patins. - foram as últimas palavras da garota antes de fechar os olhos, completamente vencida pela ladeira. Mais uma vez.

A saída do Hospital foi um alívio. Megan conseguiu até rir, mesmo com o curativo na maçã do rosto, joelhos, cotovelos, braços e pernas. Felizmente não havia conseguido nenhuma fratura, mas ainda se sentia dolorida. Tinha mais roxos no corpo do que podia contar e o olho ficaria assim por no mínimo uma semana. Beatrice, agora mais calma, ria ao lembrar do tombo. Pegaram um táxi em direção ao Hotel, onde dentro do quarto finalmente puderam cantar juntas Mariah Carey.

Megan&BeatriceOnde histórias criam vida. Descubra agora