"Você precisa mesmo ir?" Lucca resmunga ainda dormindo, eu dou um sorriso e levanto da cama "Preciso sim meu amor, é confortável lá" "Mais confortável do que a cama com o seu namorado?" "Nem tanto" digo rindo.
O trabalho já retoma um ar diferente, as pessoas estão mais sérias, com copos de café em uma mão e papéis em outro. Black toma conta de tudo, Martín ainda trabalha como delegado na minha cidade, mas por pouco tempo segundo minha chefe.
Novamente um chocochip em cima da minha mesa.
Ele não vai descansar.
"Bom dia Sereny" Philip me diz animado, "Não era eu que precisava ser profissional P?" seu sorriso é folgado, ele balança a cabeça "Se você ainda me chama de P. eu ainda posso te chamar de Sereny" reviro os olhos, percebendo a força do hábito em chama-lo assim, não respondo e ele ri, pelo o que eu conheço desse homem, certamente ele acha que "ganhou" a discussão, e que está cada vez mais perto de mim. Talvez eu não deva deixa-lo perder, é engraçado ver sua expressão sorridente.
"Bom dia duplinha" Matt passa por nós, sua feição é de completo desânimo. Mal sento em minha cadeira e sigo ao seu encontro, sei que ele precisa de alguém agora, Enzo deve estar envolvido.
"Problemas com o amor?" digo solidária encostando e sentando na ponta de sua mesa, "Não é só você que tem problemas nessa área querida" ele diz colocando o suéter na cadeira e se jogando em cima dela. "Não tenho problemas no amor Ma" digo debochando de seu comentário, mas meu deboche sai forçado e ele ri, ambos encaramos a mesa de frente a minha, onde Philip nos encara descaradamente. Ele ri novamente, "Não tem não. Ele morre de ciúmes de você e mal sabe que sou gay" "Ele não precisa saber" "Ah não precisa? Então você gosta de me usar pra fazer ciúmes?" "Menos Matt, conte-me sobre Enzo..." "NÃOOO" ele suplica me fazendo rir, "Qual o problema? Achei que gays fossem felizes 100% do tempo" "E somos... BEM mais legais que héteros. O problema é que Enzo quer adotar uma criança" fico feliz demais por eles dois, mesmo não conhecendo seu marido. "Uma criança é sempre bom, em qualquer circunstância" "S, minha família mal engole Enzo, imagina um filho" penso em Black "Mas e sua tia?" ele abre um sorriso carinhoso "Ah, ela é a única que me aceita" faço que sim com a cabeça, "Sua família tem que amar você e sua felicidade. Se seu marido é sinônimo de felicidade, então é dever deles aceitarem vocês dois" ele pousa a mão em cima da minha, me olha nos olhos "Obrigada S" sorrio e volto para meu posto de trabalho, esse emprego me trouxe inúmeros benefícios que eu mal contava com.
Olho para frente e percebo que Philip ri encarando o computador, "O que foi?" "Como Lucca reagiria sabendo que você troca carícias com um funcionário da Mack?" eu sou obrigada a rir, muito alto. Fico envergonhada, olho para o lado e Matt força o olhar, não consigo parar de dar risada, mas tento me controlar. "O que tem de tão engraçado?" Philip me olhar sem entender, eu até tentaria explicar a ele que Matteus nunca cogitaria ficar comigo, nem eu com ele. Porém é melhor ver os desconforto de P.
Black encosta em nossa mesa, eu ainda sorrio e rio, ela parece satisfeita com a interação de seus funcionários, mal sabe que a graça é por Philip fazer papel de ridículo. "O primeiro problema para vocês dois" nossa chefe joga um bocado de papéis em cima de nossas mesas, encaramos o que será nossa primeira missão aqui dentro.
"Fazer um divórcio?" Philip chacota do tema, "Não teria mais fácil?" ele completa, chuto sua perna por debaixo da mesa. "Quero que comecem com o básico" ela responde secamente, "Seus clientes os esperam na sala de atendimento, eles são amigos meus e de Martín de longa data, os tratem bem" ela indica uma porta branca ao fundo do salão, são guichês com números enormes na porta, pelo visto cada advogado possui sua sala de atendimento. E para Philip e eu não é diferente, "O número de vocês é 7, boa sorte" "Obrigada Black" sorrio e ela sorri de volta.
"Vamos?" digo a Philip quando levanto, "Você quer minha companhia agora?" "Por favor, não me faça perder a paciência" "Vamos" ele diz, desfrutando da minha irritação.
A sala é pequena, toda branca assim como o salão em que trabalhamos. É possível ver duas portas, as que os clientes entram, e a de serviço, onde entramos. Possivelmente há outro salão através da porta de vidro em que o casal entrou, mas nós ainda não o conhecemos. Há uma mulher e um homem, aparentam ter 50 anos, não mais do que isso. "Tem como vocês agilizarem isso?" a senhora reclama, revirando os olhos e visivelmente desconfortável apenas por estar no mesmo lugar que seu futuro ex-marido.
"É claro!" digo rapidamente remexendo nos papéis a procura das informações. "Não" Philip me detém colocando suas mãos nas minhas, "Vamos conversar" ele diz seriamente encarando os dois. "Quantos anos vocês dois têm de casado?" ele pergunta com uma doçura na voz que eu nunca havia visto, deixo ele falar, quero ver até onde isso vai.
"30" a senhora responde acoada, "Mais uns 7 de namoro. Você sempre esquece de contar os de namoro" o marido diz, se referindo á esposa. "Certo" Philip assente, demonstrando confiança no que faz. " E o que os trouxe aqui?" pergunto, tentando traçar a mesma estratégia que ele. A mulher olha para as mãos, as encarando. Percebo que ambos ainda usam as alianças. "Tirem as alianças e as coloquem aqui" P. sinaliza para os papéis, "Em troca das alianças daremos a caneta para assinarem o divórcio" digo, completando o que ele acabara de dizer. O casal se olha, a mulher indica a retirada do anel, e o marido arregala os olhos. "Depois de tanto tempo juntos, vocês realmente acham que não há nada um no outro que não conheçam e saibam no que ajudar?" eles encaram Philip como se fossem crianças carentes. "Com o dinheiro do divórcio vocês poderiam fazer uma viagem, uma segunda lua de mel" a mulher ri "Acho que não viajamos desde de as crianças" "E quantos anos as "crianças" têm?" eu pergunto, "A mais nova tem 20" o senhor diz, emocionado. "O que acham de irem para casa cotar viagens. Se forem mais caras do que pagariam aqui, vocês podem voltar próxima semana que nós providenciaremos a papelada. Caso contrário, mandem fotos das paisagens" Philip diz animado.
O casal não tem dúvidas, eles levantam e apertam as mãos de P. como se ele acabasse de salvar o mundo. Talvez ele tenha salvo o mundo deles. A porta se fecha.
"O que foi isso?" pergunto, ainda sem saber se estou brava ou apenas simplesmente perplexa pelo o que eu acabara de ver. Eu poderia ter terminado a faculdade, e nada daquilo me prepararia para o que fizemos aqui. Ainda não sei se foi o certo.
"Eu passei a mesma coisa com meus pais. Casais assim não pensam. Eles ficam o dia todo em casa, remoendo a dor da relação que não deu certo, mas mal sabem que a única coisa que os ainda mantém de pé é a companhia um do outro. Assim que renovarem o chato cotidiano, fazendo uma viagem, visitando os filhos, ou até indo trabalhar, tudo se encaixará. Eu queria ter feito isso pelos meus pais" tenho que segurar a boca para não abrir, tento fechar a cara para não demonstrar a surpresa que ver ele falando assim me traz. "Legal, pena que eu sempre pensei que seus pais moravam em Santa Bárbara, quando na verdade eles estavam separados. Então não adianta fazer esse discurso pra mim" ele abaixa a cabeça, lembrando das mentiras já contadas para mim. "Mas tudo bem Philip, amanhã é o último dia do ano, quem sabe você não repara isso para a próxima pessoa que tentar entrar na sua vida" digo cinicamente e saio da sala abrindo o melhor sorriso que possuo. Talvez eu deveria falar isso pra mim mesma.
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Finalmente
Mystery / Thriller"Encaro novamente o ínicio da nova viagem, seguro na mão ao meu lado, aparentemente a minha própria, sorrio para mim mesma, me abraço e tomo cuidado do meu corpo."
