Quinze (2/3)

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Ao soar dos sinos os alunos foram brevemente dispensados para o recreio. Leo e seus amigos desceram as escadas para o pátio, esperando a multidão faminta andar mais rápido. O grupo dos seis continuava nas escadas lotadas depois de um curto tempo, então, quando chegaram no primeiro andar do prédio, apenas dois lances de escada faltando para o fim, Sarah parou e fez com que os outros também parassem.

Leo, igualmente a Marcus, demorou um pouco para perceber o motivo daquilo, mas guiado pelo olhar fixo que Sarah mantinha, ele pôde perceber que através do vidro de recepção da supervisão, lá no fundo havia um sofá encostado na parede e deitado no acolchoamento azul-marinho, estava Edmundo. Pela distância e pela proteção das grossas paredes, nenhum dos seis presentes conseguiam escutar o que ele falava, mas todos podiam ver que ele conversava com a assistente da supervisora, a qual estava sentada em uma cadeira que tinha posicionado próximo ao sofá. O garoto deitado de vez em quando abria seus olhos e focava no teto, ou olhava para a mulher simpática, bela e jovem, no começo de seus vinte e poucos anos.

- E aí cara – Yago, que tinha acabado de descer a escada, chamou a atenção de Leo com um leve toque em seu ombro – basquete, hoje, agora!

- O que? – Leo virou-se ao garoto recém chegado – e quinta? Nós jogamos dia de quinta – protestou brevemente, mas já sabia que com Yago seria impossível discutir.

- Nós temos que treinar, vamos – respondeu o garoto, apertando o ombro de Leo com a mão que tinha deixado lá.

- Ok, eu vou, mas – Leo começou, mas Yago já tentava o empurrar para começar a andar, colocando até seu sua outra mão sobre o braço bem desenvolvido de Leo, mas não tinha tanta força para movê-lo – mas... – Leo voltou a falar, tentando não ser interrompido por Yago novamente – vou comprar meu lanche primeiro. Vá na frente.

- Esteja logo lá, então – Yago tomou-se por vencido e retornou a descer as escadas, deixando para os outros cinco um olhar não muito agradável.

O grupo que antes observava Edmundo retornou a andar logo, mas não sabiam o que realmente queriam comentar sobre a conversa de E com a secretária, então, duvidosos, cada um decidiu ficar calado sobre aquilo e logo retornaram a andar, tentando seguir normalmente com o recreio.

Correndo e carregando um suco de laranja na mão direita, ao qual ocasionalmente Leo levava à sua boca, o garoto fazia seu caminho em direção da pequena e discreta quadra de basquete; praticamente dentro do segundo ginásio. O pequeno espaço que normalmente Leo jogava às quintas era um antigo depósito de bolas, redes e traves que costumava suprir um ginásio do colégio, agora reformado, o espaço tinha se tornado um canto bastante íntimo da escola, com certeza um dos vários pontos cegos dali, onde câmeras não alcançavam e raramente era visitado por algum aluno.

Tomando os últimos goles de seu suco, Leo deixou a garrafa vazia perto do pequeno portão azul da quadra, e ao entrar deparou-se com ninguém além de Yago carregando uma bola laranja em suas mãos.  Leo conseguiu observar rapidamente a blusa da farda de Yago que estava a esse ponto já muito amassada e propositalmente dobrada na sua barra, revelando uma linha discreta de sua cueca e expondo um pouco de sua pele à cima.

- Cadê todos? – Leo perguntou tomando um passo hesitante dentro da quadra.

- Ah, não vão jogar hoje. Nós, eu e você, temos que treinar – disse, fazendo a bola quicar no chão e logo voltar à sua mão – Não podemos passar vergonha e perder pra terceira turma.

- Mas nós, eu e você, não passamos vergonha – Leo sorriu entrando na brincadeira de Yago, provocá-lo, como o garoto sempre fazia com o mesmo.

- Não foi o que eu vi semana passada – Yago rebateu jogando a bola para Leo num lance rápido e inesperado – Vamos Leo, jogue!

Então os dois começaram a correr, Leo no começo com controle e total posse da bola, brevemente confuso sobre qual cesta teria que defender e como tudo aquilo iria funcionar. Leo logo decidiu tudo quando, com alguns passos, correu e sacou a bola na cesta no fundo da quadra, pontuando primeiro, fazendo seu ego aumentar e até zombar brevemente de Yago, o qual se mostrou motivado pela desvantagem.

Logo o jogo mano-a-mano prosseguiu e Leo mantinha sua vantagem de três pontos ao correr pela pequena quadra. Yago, mesmo querendo tomar vantagem no placar, fazia questão de quando Leo tinha suas mão na bola, manter um excessivo contato físico ao marcar seu oponente, até às vezes tentando o impedir ao agarrá-lo pela cintura, mas sempre Leo gritava: “Olha, falta!” e sem demora recebia uma resposta: “Quem liga? Cadê o juiz?” o que fazia os dois rirem.

Mas foi apenas quando Yago tinha recentemente tomado posse da bola e agora corria para pontuar sendo marcado por um Leo suado e ofegante graças ao exercício. Com seu caminho bloqueado e tão próximo da cesta, Yago tentou driblar Leo, mas assim que ia passando pelo menino, fez com que suas costas batessem no peitoral do outro, propositalmente fazendo Leo perder o equilíbrio e cair no chão áspero.

Jogando sua bola para longe, fazendo-a bater na parede próxima, Yago se jogou se joelhos no chão, ao lado de Leo, e muito cuidadosamente fez com seu olhar pensativo com que o garoto golpeado não falasse nada. E Yago, excluindo cada vez mais a distância dos dois ao inclinar-se a Leo e passando sua perna sobre o corpo do garoto, Yago prendeu seu amigo. Os dois garotos respirando cada vez mais pesado tinham um espaço minúsculo entre eles, ocupado inteiramente por Yago que agora aproximava seus lábios de Leo, o menino confuso, com medo daquilo e desconfortável com a situação.

O beijo que estava prestes a acontecer foi totalmente quebrado pelos braços de Leo que jogaram Yago para longe de si e levantaram o corpo confuso de Leo, com a mente perturbada pelo o que acabara de acontecer. Tomou um segundo se recompondo e olhou para Yago, arrependido e no chão, antes de sair correndo.

Leo, ao sair em passos apressados, recolheu a garrafa seca de suco e correu à fora, deixando Yago sozinho na quadra vazia. O menino confuso apenas parou para respirar quando já tinha tomado uma distância segura das cenas passadas, e agora respirava fundo de frente à lixeira, a qual tinha acabado de despejar a garrafa de plástico.

- Oi, ahn, Leo – a voz de Edmundo vinha de trás do menino, assim que o mesmo virou para prosseguir seu caminho.

- Ah, oi E-Edmundo – Leo disse, tomando finalmente sua última respiração profunda e gaguejou logo em seguida por ter quase revelado o apelido secreto do grupo ao menino.

- Sim, eu só vim dizer que assisti àquele filme, Y vezes X, é muito bom – o menino alto disse com um sorriso amigável aberto.

- Ah, claro, que bom,  eu gosto bastante desse filme – Leo respondeu recordando que havia indicado o filme ao menino na semana passada, quando tinham falado brevemente num final de aula.

- Ahn, eu também assisti outro muito bom, Dez Milhões de Anjos Atrás, é com o mesmo ator – comentou em seguida, esforçando-se para puxar assunto.

- Legal, cara, definitivamente vou ver esse – Leo logo disse, olhando para o lado, tentando encurtar o diálogo o quanto mais, ainda muito perturbado por Yago – acho melhor eu já ir, sabe, vai tocar logo.

Edmundo assentiu e sorriu, tomando um passo para trás, um gesto que deixava Leo ir, e sem mais demonstrar algum sentimento ele viu o garoto tomar distância novamente.

Leo já estava processando muito, sentindo que sua cabeça estava uma bagunça, com todas recentes informações espalhadas e sem nexo ou contexto. Obviamente não duvidava sobre aquilo pela parte de Yago, nunca pensou do menino dessa forma e mesmo não considerando seu desejo errado, sabia que ele mesmo não retribuía, pois Leo não gostava de garotos.

Não sabia a quem culpar, não sabia nem se realmente existia um culpado naquilo, ele apenas queria distância por um momento, porque agora todos os olhares geravam dúvidas na cabeça de Leo, e ele apenas tentava processar tudo aquilo da melhor forma.

O Menino Da ÁrvoreOnde histórias criam vida. Descubra agora