Capítulo 12

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Gotemburgo, 20 junho 1998

Querida Júlia,

Engraçado será dizer que me escreveste precisamente no dia nacional da Suécia. Fiquei contente, tenho a dizer-te.

Ando cada vez mais ocupado, tu sabes disso. Não tenho vontade de fazer nada e estou para aqui largado como um farrapo velho. Sinto-me só. Oh.. Júlia, quem diria que eu, algum dia iria aclamar por companhia. Sempre me achei muito dono de mim e talvez tenha menosprezado a solidão. Sinto-me vazio. E das poucos horas que tenho em minha casa para me sentar relaxado a pensar, prefiro ocupar a minha cabeça, nem que seja com um livro velho ou mesmo trabalho. Pensar destrói-me. E ficar a pensar faz me sentir fracassado, faz-me sentir coisas que em dia algum consegui encontrar descrito nos livros e temo que isso seja demasiado mau. Um dia eu li uma frase que, por mais forte e impactante que fosse, não me despertou a curiosidade como Agora. 'Nós somos os nossos piores inimigos'. Isso tudo porque, cada monstro que é criado nas nossas cabeças desde pequenos começam pela primeira vez a fazer sentido. Agora sim, a gente apercebe-se o porquê desses monstros. Eles trazem a ansiedade, o medo, a frustração. E dessas coisas nós passámos a vida a tentar fugir.

Espero que estejas bem Júlia. Cada dia me lembro mais de ti. Tens tanta sorte em estar debaixo desse sol e por cima dessa terra. O que eu dava para estar aí de momento.
Gotemburgo parece ficar mais escura a cada dia que passa e o barulho que lhe ecoa pelas ruas não é esse da alegria de Lisboa. Contudo, têm havido por toda a cidade alguns festejos. Vejo tanta gente feliz e penso se eles também fingem como eu.

Cheguei à poucas horas do trabalho e estou, por muito estranho que pareça, a fumar um cigarro na varanda. O que é feito de mim nesta altura?

Amanha é domingo e não tenho mais nada com que me ocupar para além dos deambulos da minha cabeça. Sinto falta de chama na minha vida e de me ocupar com coisas que realmente me fazem feliz. Uma das únicas coisas que tenho vindo a cultivar para bem da minha própria felicidade são as cartas. Oh, belas cartas!... 

Agora que me debruço levemente pela varanda, olho o reboliço e a agitação das ruelas empoeiradas da grande cidade. Como eu fui feliz aqui. Como eu achava este lugar o melhor do mundo e como agora me sinto como um pássaro dentro de uma gaiola. 

Sinto falta dos domingos activos com o meu pai. Quando saímos cedinho de casa para realizar uma serie de actividades que ele mentalmente idealizava. Eu adorava a maneira aventureira como ele via cada dia e como fazia parecer extremamente interessante e produtivo a mais miserável coisa. Que saudades. Trago sempre na carteira uma foto de nós os dois, quando fomos visitar o abisko national park e vimos a aurora boreal. Foi um dos melhores momentos de toda a minha vida. São poucas as chances que temos nesta vida de fazer grandes e sólidas memorias. Elas surgem naturalmente mas devem ser preservadas com o carinho e amor necessário. Disse isto um dia o meu pai.

Agora que falo nisto, talvez amanha vá passar algum tempo de qualidade no Trädgårdsföreningen. É um dos melhores lugares de Gotemburgo. Um dia, irei levar-te lá Júlia. Tenho que te levar lá. Prometo. 

Deverias arranjar também tempo para ti. Não te sintas tão triste por ficares sem os alunos nas férias que se aproximam. A vida é assim, uns vêm e outros vão. Mas pensa que foi perto de ti que cresceram, pouco ou muito tempo viveram consoante as tuas palavras e mesmo não admitindo, tu tiveste com certeza muito impacto nas suas vidas. Sei que por esta altura deves andar bastante atarefada com o final do ano lectivo. Deverias pensar em ir passar algum tempo com a tua irmã a Coimbra sendo assim. Acho que fazia bem tanto a ti, como a ela.

Nem sei mais o que escrever na carta, deve ser a primeira vez que me acontece. Tenho sono, estranho. São duas da manha e a única coisa em que consigo pensar para além do quão bem se está cá fora é neste café maravilhoso que estou a tomar. Amargo, sem açúcar e forte, bem cheio. Dissemos isto os dois à 14 anos atrás no Rossio, continuo a recordar-me desse momento em qualquer gesto do meu dia-a-dia.

A melhor coisa que tu tens Júlia é que, mesmo longe, mesmo com imenso tempo passado entre toda esta encantadora história que nós vivênciamos e mesmo depois de imensos acontecimentos posteriores eu, pela mais banal coisa como um café amargo e uma madrugada fresca ao relento, consigo me sentir tão perto de ti. Por isso mesmo é que eu te amo tanto.

Do teu amoroso nórdico,

Hans Andersen

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