Capítulo III

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Chorei por minutos, ou por horas – eu não saberia dizer.

Chorei por minha família que, possivelmente, não veria nunca mais.

Chorei por William, pois nosso último momento juntos foi selado com uma briga.

Chorei por meus amigos – companheiros de longa data, que estiveram comigo nos momentos altos e baixos.

Chorei por não ter direito de concluir minha faculdade e conseguir meu tão sonhado diploma em medicina.

Chorei até não ter mais forças de derramar lágrimas.

Chorei até meu corpo chegar à exaustão.

E então, após não ter mais o que me lamentar, veio à raiva.

Por que eu? O que fiz para merecer isso? Será castigo Divino? Não fui uma boa filha, amiga, namorada? Não contribui positivamente em nada para ninguém ou para algo?

Ou – Deus tenha misericórdia – será que eu provoquei-o?

Sim! Certamente foi isso. Então, a culpa é toda minha.

Se não usasse roupas tão curtas e ajustadas perfeitamente em meu corpo...

Se não sorrisse tanto...

Se não ficasse até tarde da noite na rua...

Se tivesse dado ouvido aos conselhos dos meus pais e optado por cursar a faculdade durante o dia, talvez isso pudesse ser evitado.

Então é isso. Tudo não passou de um mal entendido. Ele acha que sou um tipo de pessoa – passei uma má imagem a ele. Tudo o que tenho a fazer, é desfazer essa impressão.

Sim!

Amanhã, quando ele voltar, estarei bem convidativa. Obedecerei suas ordens e me comportarei – assim como me foi ordenado.

Ele verá que sou uma pessoa completamente diferente da qual ele tinha em mente e me libertará.

Com esse pensamento, adormeci sorrindo.

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Acordei sobressaltada quando a porta abriu de repente.

Estou completamente molhada de suor – não há janelas aqui.

Olhei para a porta, e meu sequestrador estava encostado nela, me olhando, sem demonstrar nenhuma emoção.

Sorri. – se eu deveria demonstrar que era uma boa menina, tinha que começar logo!

— Bom dia, querida.

— Bom dia.

— Parece que acordou mais mansa hoje, não é mesmo?

Novamente, dei um leve sorriso.

— Bom, já que está mais suscetível hoje, vamos deixar mais alguns pontos claros para você.

Veio andando em minha direção e sentou-se em uma cadeira – essa cadeira esteve aí todo esse tempo?!

— Bom, docinho, acho que não preciso repetir os três itens que foram discutidos ontem, não é mesmo? – algum item foi discutido? Engraçado, só me lembro dele ordenando.

Sem esperar qualquer confirmação minha, deu continuidade ao seu discurso unilateral:

— Irei visitá-la duas vezes ao dia, em dias alternados. A primeira visita será para trazer-lhe uma garrafa de água e uma fruta; a segunda visita será destinada ao nosso prazer.

O que? Eu entendi bem? Ele só me trará uma garrafa de água e uma fruta dia sim, dia não? E o que ele espera que eu faça nos dias em que ele não vier?

E como assim "visita destinada ao nosso prazer"?

Será que ele... não!

— (...) possamos alterar a ordem das visitas se você desejar.

— O que você quis dizer com "visita destinada ao nosso prazer"? – interrompi seu discurso.

Ele pendeu a cabeça para um lado e fitou-me com certo interesse e divertimento:

— O que você acha que eu quero dizer com prazer? – diz ele, com um sorriso de lado.

— Eu não vou transar com você. Está louco? – gritei com ele – O que pensa que eu sou? Uma de suas vadias? O que te faz pensar que eu aceitaria isso?

— É exatamente isso que penso que você é: minha vadia. E não preciso do seu consenso. Acha mesmo que está em posição de exigir alguma coisa aqui? Escute bem, – levantou-se, e andou até mim – fará o que eu mandar. Se eu disser "abra as pernas, cadela", é isso que fará. Se eu disser "lamba o chão", você lamberá. E, digo mais, fará sorrindo e dizendo "sim, senhor". Será que fui claro?

Não consegui responder. Acho que perdi a capacidade de falar.

Então é isso que ele quer de mim? Isso é o que ele espera que eu faça? Que me submeta incondicionalmente a ele?

Ele, impaciente, prensou-me na parede:

— Vamos esclarecer outra coisa: quando eu fizer uma pergunta, quero uma resposta. Fui claro?

Novamente, não consegui emitir nenhum som.

Só consegui registrar o que tinha acontecido quando minha cabeça pendeu para o lado e senti a ardência no rosto.

Ele me deu um tapa!

— Eu perguntei se fui claro.

Meu Deus, ele tinha fúria nos olhos.

Finalmente, encontrei minha voz:

— Claro como água.

Afastou-se e andou até a porta.

— Ótimo. Graças a essa sua gracinha, ficará sem água e comida hoje. Amanhã voltarei, e inverterei a ordem da visita. Para o seu bem, acho melhor que esteja mansinha.

E com isso, fechou a porta atrás de si.

Bem me quer, mal me quer.Onde histórias criam vida. Descubra agora