Estávamos nos beijando há muito tempo.
Há tempo demais.
Há um tempo muito acima do aceitável.
Nota mental: adicionar, mais tarde, esse beijo à Lista Do Ódio.
Reunindo forças sobre-humanas, consigo espalmar as mãos no seu peito e afastá-lo.
Enquanto eu passava a mão na boca, a fim de limpá-la e livrar-me de qualquer vestígio dele, o ordinário passava a língua – aquela maldita língua – nos lábios – naqueles malditos lábios –, como se estivesse apreciando meu gosto.
— Não adianta fingir, gatinha, você está completamente gamada em mim.
Dando um passo para trás, no intuito de conseguir ainda mais distancia entre nós, eu digo:
— Em primeiro lugar: gamada?! Isso é sério mesmo? Quem você é, o Padre Marcelo Rossi? Em segundo lugar: pode ir baixando a bola, meu querido, porque você não está com essa bola toda. Você me beijou. Aliás, você sempre me ataca. – sussurrei essa última parte.
Juro, sério, eu juro que vi algo mudar no seu olhar diante àquela minha última afirmação, mas aconteceu tão rápido que não pude identificar o que de fato aquilo representava.
Chegando perto de mim, ele sussurrou ao pé do meu ouvido:
— Posso até te atacar, mas sei que você gosta, safada.
O que eu fiz em seguida não poderei explicar nem se eu viver mil anos na terra.
Não sei se foi pelo fato dele ter falado daquele jeito: baixinho, ao pé do ouvido.
Não sei se se deve ao fato dele estar com as duas mãos fortemente agarradas à minha cintura.
Também não sei se foi porque, poucos minutos atrás, ele relatou as supostas traições de Will e o fato dele ter proferido que me acha boa demais para esse mundo.
Ou se não foi por nenhum desses motivos; se foram todos eles juntos.
A única coisa que sei é que, sem nenhuma razão aparente, enlacei meus dedos nos cabelos de sua nuca e enfiei minha língua em sua boca.
Foi forte, duro e totalmente intenso.
Não sei como aconteceu, mas, quando dei por mim, já estava com as pernas ao redor do seu quadril e encostada na parede. Seu corpo cobria o meu e suas mãos passeavam livremente pelo meu corpo.
Oh. Meu. Deus. Morda-me se este não é o melhor beijo que eu já recebi.
Estávamos famintos e só tínhamos um ao outro para saciar essa fome.
Porém, tinha uma pergunta que estava acabando com meu psicológico e que me enlouqueceria se eu não descobrisse a resposta logo. Por isso, e somente por isso, afastei nossas bocas, fitei seus olhos e soltei a pergunta:
— Qual é o seu nome?
Sabe como passamos por determinados momentos na vida em que o tempo parece passar em câmera lenta?
Você jura de pé junto que tudo aconteceu lentamente e que pôde saborear cada pequeno detalhe como se estivesse assistindo a um filme e resolveu pausá-lo e passar a cena novamente no modo slow motion.
Foi exatamente por um desses momentos que acabei de passar.
Pude ver perfeitamente ele piscando lentamente, o brilho que ostentava no olhar, a pretensão estampada naquele rosto lindo e o sorriso sacana que brincava nos seus lábios desaparecerem lentamente. Cada pequeno detalhe que deixava muito claro que ele estava, tanto quanto eu, morrendo de tesão, desapareceram.
O brilho foi diminuindo, o rosto formando uma carranca e o sorriso se transformando em uma linha fina e tensa.
Ele parar as mãos que corriam pelo meu corpo e me colocar de volta no chão também aconteceu em câmera lenta.
Em uma câmera estupidamente lenta.
Afastando-se vários passos de mim, ele diz:
— Por que você quer saber meu nome?
Foi tudo o que ele disse.
Curto. E grosso. E direto. E frio.
Longe de ser o mesmo homem que estava à alguns segundos me devorando com mãos e boca.
Mas o que porra aconteceu aqui?
Esse homem é completamente louco.
Não. Bipolar. É isso o que ele é: um maldito bipolar.
Que diferença faz se eu souber o nome dele?
— Que diferença irá fazer se você souber o meu nome?
Tudo bom, querido?
— Exatamente. Que diferença irá fazer? Você sabe o meu nome, meu sobrenome e, pelo o que eu entendi, sabe tanto o nome do meu namorado quanto detalhes de sua vida.
— Gatinha, você está mesmo pondo-se no mesmo patamar que eu? Você entende qual a nossa situação, não entende? Eu sou o sequestrador, você é a sequestrada; eu sou o dominante, você é a submissa; eu dou as ordens, você obedece; eu sou o controlador, você é a controlada. Você é minha propriedade e fará tudo o que eu ordenar. Seu papel aqui é servir minhas vontades, apenas isso. Então, não. Eu não posso, não quero e não vou dizer meu nome a você.
Suas palavras me feriram.
Muito.
Sei muito bem qual o meu papel aqui. Até porque ele não me deixa esquecê-lo.
Mas não posso negar que suas palavras me magoaram.
O problema é que eu estava idealizando um homem que, na verdade, não correspondia a realidade.
Ele tem total razão de me colocar no meu devido lugar.
Não devo esquecer que estou aqui com um propósito: obedecê-lo e agradá-lo.
— Sim, eu sei. Desculpe-me. Isso não vai mais se repetir, eu prometo. Sei muito bem o que eu represento aqui.
— Ótimo. Acho bom que saiba mesmo e que não torne a esquecê-lo.
— Não se preocupe. Eu compreendo.
Estreitando os olhos, ele me analisa. Aparentemente tentando encontrar verdade nas minhas palavras.
Quando se deu por satisfeito e percebeu que estava sendo sincera, assentiu e saiu do quarto.
A questão é a seguinte: eu estava sendo totalmente sincera.
Reconheço tudo o que ele fez por mim nessas últimas semanas. Ele não tinha obrigação nenhuma de "melhorar" minha "estadia" aqui. Não precisava me dar um colchão, lençóis e ventilador; não precisava instalar um pequeno frigobar aqui e me dar mais e melhores alimentos, assim como não tinha como obrigação me dar mais água – e diariamente; com certeza ele também não precisava deixar alguns livros aqui, para que – palavras dele – eu tivesse com o que passar o tempo.
Tenho conhecimento de que ele não tinha que compartilhar sua vida pessoal, seus problemas, suas conquistas e seu passado comigo.
Mas o fato é que ele tinha, de fato, feito tudo isso. Não havia como isso ser negado.
O que me leva a seguinte questão: ele é realmente tão mal ou apenas quer que eu acredite nisso?
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Bem me quer, mal me quer.
General FictionKatherine Thompson: - 23 anos; - Filha amada; - Namorada dedicada; - Amiga querida; - Estudante exemplar; - Sequestrada.
