Invisible String

34K 1.8K 456
                                        

As luzes brancas do hospital se misturam em um borrão diante dos meus olhos cansados. Apoio as mãos no balcão da recepção da emergência, sentindo o plástico frio contra minhas palmas suadas, e permito que meu corpo se curve ligeiramente para frente em uma tentativa desesperada de encontrar algum conforto. O zumbido constante das máquinas se funde com os passos apressados dos enfermeiros que cruzam o corredor em todas as direções, formando uma trilha sonora peculiar que, depois de tantos anos, aprendi a reconhecer como minha segunda natureza. É como se o hospital tivesse sua própria respiração, um ritmo frenético que nunca desacelera, que nunca pede licença, que nunca se importa se você está exausto ou se seus olhos ardem como se tivessem areia sob as pálpebras. Eu me acostumei com isso, ou pelo menos finjo que me acostumei, porque a alternativa seria enlouquecer.

Fecho os olhos por um instante e deixo escapar um suspiro pesado que parece carregar todo o peso das últimas trinta horas. Ainda tenho a imagem da pequena Amelie gravada na mente, uma garotinha de quatro anos com bochechas rechonchudas que, há algumas horas, estavam marcadas por lágrimas grossas escorrendo pelo rosto rosado. Lembro das suas mãozinhas minúsculas agarradas à camisa da mãe enquanto eu aplicava os pontos no corte na testa, lembrando o quanto uma queda durante uma brincadeira inocente pode ser assustadora para uma criança e aterrorizante para qualquer mãe. Nada grave, felizmente, apenas alguns pontos e um susto que passaria em poucos dias, mas o olhar de pânico da mãe enquanto eu trabalhava era algo que eu conhecia bem demais. Quantas vezes eu vi aquele mesmo olhar refletido nos rostos de pais que entravam pela emergência?

Abro os olhos e encaro a movimentação constante ao meu redor. Enfermeiros correndo de um lado para o outro com pranchetas e bandejas, telefones tocando sem parar no balcão da recepção, um residente novato tentando encontrar o caminho para a sala de sutura com um mapa desdobrado nas mãos. O ritmo frenético que nunca desacelera, que nunca pede desculpas pela sua existência. Mas, por um breve momento, me permito saborear o silêncio relativo enquanto folheio uma revista qualquer abandonada no balcão, provavelmente deixada por algum paciente ou familiar, deixando que as imagens coloridas de receitas e dicas de decoração passem diante dos meus olhos sem realmente enxergá-las.

— Doutora, aqui está o prontuário que a senhora pediu. — Cindy, uma das internas, aparece com um sorriso largo demais para quem está no meio do caos hospitalar. Seu cabelo loiro está preso em um rabo de cavalo desleixado, e há uma mancha de café em seu jaleco branco que ela parece não ter notado. Ela estende uma pasta fina em minha direção com um entusiasmo que me faz questionar se ela realmente entendeu a gravidade do ambiente em que trabalha.

— Qual deles? — pergunto, sem tirar os olhos da revista, levando o copo de água aos lábios. A água está morna e tem um gosto metálico, mas bebo mesmo assim, porque meu corpo está pedindo qualquer tipo de hidratação.

— Como assim qual deles? — Cindy franze a testa, e vejo o brilho de confiança em seus olhos diminuir ligeiramente. — A senhora só pediu um.

Mordo os lábios, lutando contra a vontade de soltar algo que possa soar rude. Não é culpa dela, no fundo, não totalmente. Eu sei que o cansaço está me deixando mais impaciente do que o normal, e que Cindy é jovem, inexperiente, ainda aprendendo os ritmos do hospital. Mas às vezes me pergunto, em momentos de fraqueza, como ela conseguiu se formar. Preciso de paciência com ela, preciso lembrar que um dia também fui uma interna desajeitada que esquecia prontuários e confundia alas. Mas hoje, na trigésima hora do meu plantão, a paciência está em falta no meu estoque pessoal.

— Pedi dois, Cindy. — Coloco a revista de lado e a encaro com o que espero ser um olhar firme, mas não cruel. — O do paciente do quarto andar e o do quinto também. Preciso de ambos para fazer a comparação dos exames antes da reunião da manhã. Você se lembra de eu ter mencionado isso, não é?

Hits Different | jkHistórias para pegar e não largar. Descubra agora