The Last Time

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Peguei uma carona com Jin e Charlotte de volta para casa assim que terminei o plantão. O cansaço estava gravado em cada músculo do meu corpo, como se o peso de todas as emergências do dia tivesse se ancorado em mim. O trajeto foi preenchido por risadas ocasionais e desabafos sobre pacientes, mas eu não conseguia me desprender totalmente do silêncio inquietante que latejava na minha mente.

Assim que entrei em casa, larguei minha bolsa no chão e me joguei no sofá. O couro frio colou na minha pele, mas antes que eu pudesse sequer fechar os olhos, senti o peso familiar de quatro patas ansiosas escalando meu peito.

— Oi, meu amor — murmurei, acariciando Blue, minha golden retriever, que abanava o rabo freneticamente. Ela lambeu meu rosto com energia, como se tentasse expulsar meu cansaço com amor. — A mamãe estava com tanta saudade de você.

Fiquei ali por alguns minutos, apenas sentindo a leveza que Blue trazia, uma pausa doce em meio à exaustão. Finalmente me levantei, caminhando até meu quarto para deixar minha bolsa. O apartamento estava silencioso, iluminado apenas pela luz suave do entardecer que atravessava as cortinas. Tinha o resto do dia e o dia seguinte de folga — uma raridade que eu pretendia aproveitar.

Depois de colocar comida para Blue, fui direto para a cozinha. Decidi assar um frango com ervas. Enquanto preparava os temperos, mandei uma mensagem para Jin e Charlotte: "Jantar aqui em casa? Frango assado. Tragam apetite."

Enquanto o frango dourava no forno, resolvi ligar para meus pais. Era um hábito diário, uma forma de diminuir a distância entre Los Angeles e Boston. Eles sempre me atendiam, mesmo com a agenda apertada como advogados renomados.

Minha mãe atendeu primeiro. O sorriso caloroso dela iluminou a tela.

— Oi, querida! Como foi o dia no hospital?

Suspirei, encostando-me na bancada da cozinha.

— Longo, mas sobrevivi. E vocês?

— Corrido, como sempre. Seu pai está finalizando um caso complicado, mas manda beijos.

Conversamos sobre coisas triviais — o tempo em Boston, como estava Blue e minha rotina agitada no hospital. Meu pai apareceu brevemente para dar um oi rápido antes de voltar ao trabalho. Quando a chamada terminou, senti aquela pontada familiar de saudade. Morar longe nunca era fácil.

Desliguei o forno e servi o frango. Pouco depois, Jin e Charlotte chegaram, fazendo barulho como sempre, e Blue amava os dois, ficava pulando em cima deles ate Jin pegar a bebezona no colo. O som das risadas deles preencheu o apartamento, trazendo uma energia reconfortante.

— O cheiro está ótimo, e eu estou faminto — Jin anunciou, passando direto para a cozinha.

— Não sei se venho mais por você ou pela comida — Charlotte brincou, arrancando uma risada minha.

— Fiquem à vontade. Se sirvam — disse, cortando o frango e colocando os pratos sobre a mesa.

Nos sentamos juntos, e por um momento, houve apenas o som dos talheres e murmúrios de satisfação. Mas a atmosfera leve logo deu lugar a uma conversa mais cansada.

— Hoje foi difícil — Charlotte disse de repente, sua voz mais baixa. — Fiz três partos... e perdi um deles. O bebê era prematuro.

O silêncio caiu sobre a mesa. Jin pousou o garfo, seu rosto refletindo a compreensão silenciosa de quem também carregava perdas.

— Essa é a pior parte da medicina — ele disse, a voz grave.

— Sinto muito, Lottie — falei suavemente. — Não importa quantas vidas salvemos, as que perdemos sempre deixam cicatrizes.

Hits Different | jkOnde histórias criam vida. Descubra agora