Castigo

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Chegamos à mansão de Lorenzo Merluzzo. O motorista dirigiu a noite toda até aqui. De carro de Paris até a Itália é uma viagem muito mais longa...

E Lorenzo não disse uma palavra sequer a viagem inteira.

Deve estar pensando no melhor jeito de me matar.

Não me arrependo momento algum do que fiz. Faria tudo de novo se necessário... E talvez seja por esse tipo de pensamento que Lorenzo irá se vingar de mim.

"Me prometa, minha vida, seja sempre doce, prestativa e amorosa, não jogue​ nada fora sem antes, ao menos, tentar consertar. Me promete?"

As palavras que minha mãe me disse na tarde do dia em que morreu ficaram ecoando na minha cabeça todo o percurso.

"Um dia, você verá que essa lição não se aplica só em bonecas, mas, também, na vida."

Eu não tenho a mínima ideia do que fazer agora. Não sei como consertar Lorenzo. Sinto falta da minha mãe! Ela saberia o que fazer. Ela sempre sabia o que fazer.

Deixo a lágrima rolar. Lágrima de saudade por ela.

- Já está chorando? - Lorenzo quebra o silêncio com a voz cheia de ironia - Nem fizemos nada ainda.

- Não me arrependo do que fiz, Lorenzo - respondo-o com seriedade -. Eu faria tudo novamente. Se vou ser punida por ser eu mesma, vá em frente, aceito as consequências, mas de nada vai adiantar! Logo você que disse ontem mesmo que me conhecia, não está parecendo.

Sinto minha bochecha queimar quando o tapa de Lorenzo a atinge.

- Primeira regra - Lorenzo não esboça emoção -. Não me afronte. Está em minha casa agora.

- Eu não pedi para estar aqui com você!

Ele pega meu rosto com uma das mãos, olhando em meus olhos.

- Não é como eu me lembro, linda.

- Era a mim ou a vida de meu pai. Eu fui obrigada!

- E agora será obrigada a seguir minhas ordens.

Nem percebi quando o carro parou. Lorenzo abre a porta e me arrasta em direção a casa. Na porta da frente, ele me entrega a um de seus homens.

- Prenda ela na sala de cruciação. Vou daqui a pouco - o armário me puxa para os fundos da casa enquanto Lorenzo vai em direção às escadas.

- Sofi! - Jô diz sorridente ao me encontrar pelo corredor -. Voltou mais cedo... - seu sorriso dá lugar a uma expressão de confusa ao finalmente ver o homem me arrastando pelo braço.

- Não devíamos nem ter ído - digo a ela antes de seguir corredor adentro, deixando-a para trás.

***


Estou presa à uma dessas cadeiras para tortura que a gente vê em filmes. A sala está bem iluminada, então posso ver as paredes em verde claro coberta de respingos de sangue seco por todos os lados. O sangue se estende até uma mesa de inox ao meu lado e a uma maca a minha frente. Fico imaginando se foi aqui que estava a pessoa responsável por sujar as mãos de Natanael de sangue aquele dia que trabalhei na cozinha.

Mas algo me tira de meus devaneios.

- Tenha o mínimo de decência, meu jovem - digo ao rapaz que me trouxe até aqui e que está parado ao lado da porta observando a minha calcinha por minhas pernas abertas – que também estão presas a cadeira –. Com esse vestido, impossível não pagar calcinha.

Ele parece se tocar do que está fazendo e desvia o olhar.

- Só isso? - ouço vozes atrás da porta.

- Ela precisa ser castigada pelo o que fez - é a voz de Lorenzo dessa vez -. Mas não quero marcá-la.

Lorenzo entra pela porta de aço e dá uma olhada no rapaz.

- Deveria ficar do lado de fora. Se alguém quisesse entrar aqui você não o veria daqui de dentro - Lorenzo adverte o rapaz, que assente meio sem graça.

Então Lorenzo o examina da cabeça aos pés. Volta o olhar para mim e de rebate para ele, percebendo algo.

- Agora sei porque ficou aqui dentro - sua voz agora está rouca de raiva -. Estava secando a minha mulher!

Olho o homem meio sem entender. Então noto que ele ostenta uma ereção dentro da calça. Fico boquiaberta.

Lorenzo tira a arma da cintura e dá um único tiro na cabeça dele, que cai no chão em seguida. Além do disparo, só se ouve meu grito preencher a sala. Lorenzo o matou a sangue frio! Na minha frente! De um segundo para o outro aquele cara não passou de um mero copo.

Lorenzo abaixa a pistola e se vira para mim, tento recuar com medo, mas sou impedia pela cadeira.

- Não vou atirar em você - ele coloca a arma sobre a mesa de inox e se aproxima de mim devagar.

Sinto lágrimas ferruarem meus olhos. Não quero ele perto de mim.

- Calma, Sofia - ele pede. Então se agacha em minha frente, olhando em meus olhos e enxugando a lágrima solitária que desce pelo meu rosto -. Não queria ter batido em você. Você é tão inofensiva. Fui levado pelo momento - ele engole em seco, percebo o arrependimento em sua voz -. Sofia, eu espero que o que eu faça com você agora seja o suficiente para você aprender. Gostaria mesmo que pudéssemos nos entender apenas com uma conversa, mas isso é a máfia e tenho um protocolo a seguir.

- Deixe-me consertá-lo, Enzo, por favor? - imploro a ele em um soluço.

- Por que consertar algo que não está quebrado? - ele indaga e eu sorrio nervosamente para meu marido.

- Você é a pessoa mais quebrada que eu já conheci.

- Precisa entender, Sofia, que as pessoas não são objetos inanimados que você conserta com cola como a sua boneca. Isso aqui é vida real.

- Não. Não com cola. Na vida real nós curamos as pessoas com amor e compreensão, mas, às vezes, é necessário chamá-las a atenção e mostrar o que está errado. Como fiz ontem.

- Pelo o protocolo, quem está errada aqui é você. Essa é sua vida real agora. Então, te peço, não faça aquilo novamente. Não quero ter que repetir isso.

Lorenzo tira uma seringa do bolso, o conteúdo é um líquido transparente.

- Lorenzo... - volto a chorar.

- Isso vai doer, linda - ele parece tentar não pensar muito no assunto.

Então ele aplica em meu braço preso. A aplicação em si não foi nada além do normal. Mas sinto o líquido quente percorrer a minha veia. Queima muito! Parece que estou derretendo de dentro da fora. Fecho os olhos com força e tranco o maxilar.

Berro quando a dor fica insuportável. Perco todos os meus sentidos. Não ouço nada. Não vejo nada. Não cheiro nada. Só sei que estou viva pela imensa dor em minha carne. Nem mesmo ouço mais os meus gritos em pranto. Nem mesmo sei quanto tempo fiquei assim.

Então a dor começa a dar lugar a uma grande ardência, uma ardência tão insuportável quanto a dor de antes.

Eu não suporto mais.

É a última coisa que tento dizer antes de mergulhar na escuridão.

❤️

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Maldito MafiosoOnde histórias criam vida. Descubra agora