Sua hora chegou - Lorenzo

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Bebo o último gole do meu conhaque. Deixando meu copo vazio em cima da mesa, tão vazio quanto meu peito.

Talvez não tão vazio pelo queimar do líquido me percorrendo por dentro.

Sem parar de andar, pego meu paletó do gancho de parede no meio do caminho e o visto, ajeitando minha gravata logo em seguida.

- Onde está? - indago para Mike ao chegar no fim a escada do hall. Ele faz um sinal para Élioth, que pega um embrulho de papel kraft e me entrega.

Desembalo e pego a arma que está lá dentro. A arma que mandei fazer especialmente para esse dia; para o sacrifício de Sofia. Tão perfeita e letal quando a própria. O revólver é grande e de calibre grosso, completamente prateado e reluzente, cano virgem, e para completar, mandei trazer balas de ouro para usar com a elegante arma.

- Obrigado, menino Élioth - coloco a arma no coudre e sigo para a porta -. Vou sozinho - Digo por fim e fecho a porta atrás de mim, caminhando até o meu carro.

***

D

esço do veículo e ando vagarosamente até a porta simples de madeira da casa simples de Sofia. Meus passos ecoam pelo caminho de estrada de terra que parece nunca ter fim.

Bato à porta e aguardo. Ajeito a gravata outra vez. E suspiro fundo.

Então a porta é aberta sem pressa, e a vejo surgir por ela. Usando seu vestido de seda cor creme e de alcinhas que vai até os joelhos.

Sua expressão ao me ver não revela exatamente surpresa, está mais um certo desconforto. Ela me encara e espera que eu dia algo. Mas seus olhos me dizem que já sabe do que se trata.

Sua hora havia chegado.

- Três meses? Só conseguiu três meses? - ela indaga, com tristeza.

Engulo o nó em minha garganta e a olho. Me sinto como se eu fosse explodir a qualquer segundo.

- Sinto muito. Eles só me deram até à meia noite.

- Bom, então ainda tenho algumas horas - ela sorri levemente. Com esperança. E se afasta para o lado para eu entrar.

- À meia noite de ontem.

E seu sorriso morre.

- Me dê só mais um minuto - assinto, e ela se vira e vai para dentro de casa outra vez.

Após pouco tempo de espera, Sofia sai vestindo um suéter rosa claro de crochê; ele é comprido e fica bonito com o vestido que está a usar.

- Dei um beijo em meu pai e no Gian - enquanto ela fala, só consigo observar seus olhos azuis sem vida. Sem esperança -. Disse à papai que você vem com um advogado amanhã para decidirem a guarda do nosso filho.

Ela pensou em tudo. Se preparou para isso. Diferente de mim. Que só soube beber até cair pelo cantos da casa.

Abaixo a cabeça. Nunca foi tão difícil dar um tiro em alguém em toda a minha vida.

Sofia pega em meu rosto, acariciando-o e me dá um beijo. Não um beijo faminto e voraz. Mas um beijo carinhoso e pleno.

Um beijo de despedida.

- Vem - ela pega a minha mão e me puxa estrada acima.

Caminhamos até uma relva, onde se encontrava um montinho de pedra, todas elas pareciam ser selecionadas e colocadas calculadamente em seu devido lugar.

- Minha mãe foi enterrada aqui. Quero ser enterrada aqui também. Ao lado dela. Tudo bem? - pede.

Assinto. Mesmo não estando nada bem. Mas posso fazer isso por ela. A única coisa que ela me pediu em todo esse tempo foi que a enterrasse ao lado da mãe... E eu posso fazer isso por ela.

Eu faria qualquer coisa por ela.

- Vamos - seguro a sua mão, era a minha vez que guiá-la.

***


Os joelhos de Sofia se chocam contra o chão de terra, levantando poeira pelo impacto. Então abaixa a cabeça e põe as mão para trás.

Como um cordeiro em um holocausto.

Tiro minha arma do coudre e aponto para cabeça da minha amada.

Começo a puxar o gatilho, mas algo me impede. É como se meu dedo não respondesse ao meu cérebro. Talvez, se ela estiver olhando para mim – com meus olhos nos olhos dela – eu consiga tirar forças para matá-la.

- Sofia, olhe para mim - mas quando ela levanta o rosto, única coisa que eu consigo ver é um lindo brilho.

Eu vejo amor nos olhos dela, um carinho, uma paz e conforto. Eu sei que não vou conseguir matar ela.

- Droga, Sofia – abaixo e me viro de costas para ela.

- O que foi? - pergunta confusa.

- Eu.. eu... droga! Eu não consigo atirar em você.

- Por que? - ela pergunta com uma estranha calma.

- Porque a única coisa que eu consigo ver quando olho para você é o meu coração. Quando eu aponto essa arma para você eu me sinto como se tivesse tirando a minha própria vida. Sei que se eu puxar esse gatilho... acabou. Eu não verei mais você. Não terei mais seu carinho, seu afeto... Mas eu não posso ter você, Sofia. Eu não posso.

Ela se levanta e anda calmamente em minha direção. Me coloco de frente para ela outra vez, observando-a caminhar com os joelhos empoeirados. Aponto a arma para ela outra vez, na intenção de fazê-la parar. Contado físico não me ajudará em nada agora.

Ela dá um pequeno sorriso com os seus lábios rosados e continua andando calmamente em minha direção, parando a poucos centímetros de mim. Sofia toca meu braço com calma, olhando profundamente em meus olhos. Desliza sua mão sedosa até a minha e pega a arma da minha mão, jogando-a para longe de nós. Então ela simplesmente me abraça. Sinto como se meu coração fosse sair pela boca. Ainda com a mesma calma, ela beija-me nos lábios. Sinto algo dentro de mim se romper diante dessa demonstração de carinho. Essa mulher é uma pessoa fantástica. Ela desperta o melhor em mim.

- Eu amo você, Sofia - ela acaricia minha bochecha e encosta as nossas testas.

- E eu amo você, Enzo. Vamos fazer isso juntos, ok?

Faço um sinal de positivo com a cabeça, deixando a lágrima solitária, que insistia em querer sair, rolar pelo meu rosto.

Após abaixar e pegar a pistola do chão, ela coloca o objeto em minhas mãos. Põe meu dedo no gatilho, apondando para o peito dela.

- No três - ela manda.

Fecha seus olhos com força e segura a minha mão com mais firmeza.

- Um... Dois...

Então o som alto de um tiro é ouvido.

Mas não é o tiro da minha arma.

Olho adiante, na direção de onde veio o som. Sofia, assustada, se vira também para olhar. Ela espreme os olhos na tentativa de reconhecer a figura ilustre a caminhar em nossa direção segurando uma arma apontada para o céu.

E os arregala em surpresa ao reconhecer quem é.

- Natanael?

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Maldito MafiosoHistórias para pegar e não largar. Descubra agora