Liberty riu-se a plenos pulmões, sentada no banco de trás do veículo. Por muito terrível que fosse a sua situação, ela começava a perceber que era impossível permanecer eternamente de cara trancada na presença daqueles dois homens tão distintos um do outro. O mais alto guiava a viatura, mas o seu companheiro criticava cada pequeno gesto do primeiro. Se andava depressa era porque andava depressa, se andava devagar era porque andava devagar.
− A garota vai dizer mal de nós ao príncipe, se você continuar a guiar assim – gritou para o condutor. A jovem conseguiu ver o seu rosto redondo a moldar-se a um receio, claramente exagerado. – Coloca em piloto automático – ordenou com as grandes bochechas quase roxas.
− Você sabe que eu gosto da adrenalina da condução – respondeu-lhe de forma descontraída. Afundou um pouco mais o pé no acelerador para reforçar as suas palavras. O conta quilómetros registou o seu máximo daquele dia. O homem delgado sorriu satisfeito para os 60 km/h que viu desenhados. – E é mais provável que a garota se queixe dessa sua má-disposição.
O pendura cruzou os braços e fechou os finos lábios em desagrado. As suas sobrancelhas grossas quase se uniram numa só.
− Está a apreciar a viagem? – o condutor falou pela primeira vez para a jovem que se limitava a observá-los com atenção. Os seus olhos negros presos nos olhos hipnóticos de Liberty refletidos no retrovisor.
Libby anuiu timidamente.
− Eu sabia – o tom do homem era vigorante. – Isto é que é uma viagem e tanto! A sua aldeia é a mais longínqua da mansão real – informou como se a jovem já não soubesse desse facto quase desde que nascera. – Duas almas gémeas a viver nos extremos opostos da província. Isso é tão romântico!
− Lumière, por favor – o companheiro amparou o rosto roborizado entre as mãos. – Você até acha o encontro entre a chave e a fechadura algo romântico.
− E, não é? – retrucou sem perceber onde o outro queria chegar. – Big Ben, você não esteja com ciúmes. Eu continuo a achar o encontro que você tem com cada refeição o mais romântico que há de toda a mansão. Qui ça, de toda Villeneuve!
Os três gargalharam. Cada um há sua forma, mas ainda assim gargalharam. Lumière tinha um riso sedutor, cada nota balançava no ar e juntava-se ao seu par ideal numa dança única e irrepetível. Big Ben, cujo nome de batismo já nem ele próprio sabia, respirava de forma pesada entre cada som estridente que emanava do seu corpo avantajado. E Liberty, apesar de inquieta com o que o condutor insinuara sobre ela e o príncipe, tinha uma leveza no riso que fazia lembrar a água corrente que enchia a seu tempo a banheira para uma imersão relaxante.
Os dois homens continuaram a discussão incessante, talvez para preencher o vazio ou, simplesmente, porque gostavam de o fazer. Porém, Libby já não prestava atenção ao que os dois diziam, os seus olhos vagueavam pela paisagem emoldurada no vidro da sua janela. Procuravam por algo que nunca tivessem visto antes, mas essa missão já estava condenada logo à partida. As casas brancas por que passavam eram as mesmas que ela via na sua aldeia, mesmo que as pessoas que lá habitavam fossem diferentes. E daí talvez não fossem tão diferentes assim, pensou ao ver uma pequena criança a tentar chamar a atenção de um homem adulto, que se limitava a engraxar uns sapados já impecavelmente polidos.
A moça virou então o rosto para o céu, como fazia tantas vezes durante as noites vazias e silenciosas de sua casa. Em lugar da lua, o sol derramava a sua luz intensa e ardente e, ao contrário da primeira, não permitia que ninguém o analisasse durante mais do que alguns minutos. Talvez ele temesse que se as pessoas o fizessem, descobririam que não é tão belo quanto aparentava à primeira vista. Ou talvez fosse simplesmente invejoso e quisesse guardar a sua beleza só para si. Era por isso que Liberty gostava mais da lua, que apesar de não ter luz própria, mostrava sempre novas formas e novas crateras.
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A Bela Redoma
Science Fiction🏆 Obra vencedora do prêmio Wattys 2020 🏆 Cem anos depois da última grande guerra, que tornou a vida na Terra insustentável, uma redoma foi construída numa província de França para proteger a humanidade restante dos perigos da atmosfera contaminada...
