🏆 Obra vencedora do prêmio Wattys 2020 🏆
Cem anos depois da última grande guerra, que tornou a vida na Terra insustentável, uma redoma foi construída numa província de França para proteger a humanidade restante dos perigos da atmosfera contaminada...
Sentada aos pés da cama, Liberty analisava as luvas quase brancas que lhe cobriam os golpes recentes nos nós dos dedos. O material imitava na perfeição o seu tom de pele e a sua existência era facilmente colocada em causa até pela própria. Tinha sido Nicollete Armoire a elaborá-las propositadamente para ela ao descobrir o estado em que as mãos da jovem se encontravam. Libby não poderia aparecer de jeito nenhum com aquelas mãos na primeira entrevista à família real depois da seleção.
Quando a criada lhe contara sobre o evento daquele dia, a garota mal podia acreditar. Madame Armoire até lhe havia costurado um lindo vestido negro, para o caso da jovem se recusar novamente a vestir algo de um tom que não fosse esse. Assim, não lhe restaram grandes opções de fuga. Ela não tinha como se esquivar. E bem que passou a tarde inteira daquele dia a tentar engendrar planos mirabolantes que até na sua cabeça fracassavam.
− Você só pode estar de brincadeira! – bramou o príncipe depois de entrar no quarto. A jovem levantou-se num reflexo assustado e o vestido moldou-se à sua silhueta fina na perfeição.
Os olhos azuis acinzentados de Elroy demoraram-se na figura de beleza inenarrável à sua frente. A parte superior do corpo delgado da sua futura esposa estava coberta de uma renda do mesmo tom das luvas que usava e o que impedia a moça de parecer desnuda eram umas flores negras tecidas que até os ombros ocultavam. A flora negra deixava apenas pequenos espaços vazios entre ela e salientava um decote em forma de v. Uma longa saia negra de várias camadas sobrepostas, de um tecido pouco opaco, cobria-lhe as longas pernas sem deixar sequer antever os sapatos que lhe amparavam os pés. Os seus cabelos penteados só para um lado destacavam o seu estreito e longo pescoço que terminava num rosto de maçãs e lábios tentadoramente rosados.
− Troca de vestido agora mesmo – gritou o príncipe num tom de voz muito pouco convicto. Dentro de si travava-se uma batalha da qual ele queria livrar-se o mais rapidamente possível.
− Esta sou eu, quer queira, quer não – a sua pequena mão enluvada instalou-se de palma aberta sobre o decote. – Pode tentar, mas não me vai conseguir mudar nunca.
A fúria exalou por todos os poros daquele homem e um grito, ainda que contido pela sua boca cerrada, propagou-se no ar com a vibração de suas cordas vocais. As duas mãos fincaram-se com força nos cabelos negros cuidadosamente penteados para trás. E os fios, de boa vontade, recuperaram o seu estado caótico. Os olhos arregalaram-se de tal forma que pareciam dispostos a engolir tudo aquilo em que pousassem. Isso não deixou outra alternativa à jovem, se não encolher-se no seu lugar. Talvez assim ele se esquecesse de quem o havia provocado e descontasse a raiva num objeto do quarto e não na sua pessoa.
− Eu nunca seria capaz de bater em você, se é esse o seu receio – defendeu-se Elroy ao vê-la dobrada sobre o seu próprio corpo. A voz dele saiu estranhamente contida.
Liberty endireitou-se ainda a medo, não sabia se podia confiar nas palavras daquele homem. Para príncipe ele parecia tão pouco civilizado, que a imagem de uma fera era a única que ocupava o pensamento da rapariga ao fitar aqueles olhos enublados.
− E o que pensa fazer então?
− Você irá descer sem mim. Mantenha todos distraídos o tempo suficiente para eu tentar melhorar esta situação ridícula em que você nos colocou – retrocou antes de fechar com força a porta atrás de si. Libby sentiu o som abafado da porta a repercutir nas suas faces coradas.
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