Quando a porta do quarto de Elroy se voltou a abrir, Liberty escondeu o livro que estava a ler atrás das costas. Sabia que era algo proibido em toda a redoma, mas o livro desafiara-a a pegar nele. Estava ali, pousado na mesa por detrás da poltrona em que se sentara, como se fosse apenas mais um objeto do quarto. Tão inocente, quanto tentador. E do pouco que tinha lido, já se sentia completamente fascinada pela obra.
Um homem de meia idade entrou no espaço com uma maleta na mão. A simpatia que emanava não escapou à jovem atenta que o analisava do outro lado do quarto. O senhor apresentou-se como sendo o médico responsável pela saúde da família real e a forma como se movimentava com naturalidade entre aquelas quatro paredes levou Liberty a concluir que não tinham sido poucas as visitas que este homem havia feito a Elroy.
O médico abriu a maleta aos pés da cama e tirou de lá um dispositivo pequeno que cabia na sua mão fechada. Aproximou-se, posteriormente, do rosto adormecido do príncipe e forçou as pálpebras a abrirem-se, uma de cada vez, para estudar os seus sinais vitais. Concluída essa análise, foi pegar na coberta, mas hesitou e olhou para Liberty.
− Não é nada que eu já não tenha visto – confessou a jovem com a voz embargada. Ainda tinha a imagem da pele deformada do príncipe demasiado vívida na sua cabeça. Não lhe agradava a ideia de a ter de avivar ainda mais, mas, de certo, não seria tão impactante como da primeira vez.
Assentindo, o médico puxou para trás a coberta com um só gesto. O príncipe encontrava-se despido apenas da cintura para cima e todas as cicatrizes e pregas ainda envolviam o seu tronco musculado. Liberty desviou o olhar apenas uma vez, o cenário era demasiado aterrador, por muito forte que ela quisesse mostrar-se, mas depois de inspirar profundamente voltou a fixar-se no homem adormecido sobre a cama. Enquanto via o seu peito subir e descer cadenciadamente, Libby começou a dar-se conta de que não sentia repulsa, mas antes dó por aquele ser tão gravemente ferido. Ninguém nascia com a pele naquele estado, pelo menos, era nisso que ela acreditava. E se assim fosse, como é que ele chegara àquele ponto de extrema deformação?
O braço de Elroy foi levantado no ar pelo médico, que encostou o pequeno dispositivo sobre uma grossa pulseira negra que envolvia o pulso do príncipe. Liberty não havia reparado antes, mas já naquela noite em que o homem lhe entrara no quarto adentro a pulseira repousava no seu pulso direito.
Uma breve luz verde foi projetada no ar pelo dispositivo e o médico pareceu satisfeito com isso.
− Ele vai recuperar – anunciou o médico, permitindo que Liberty voltasse a respirar normalmente. O corpo de Elroy voltou a ser encoberto. – Já há bastante tempo que ele não tinha uma crise tão forte. Da última vez, ele era ainda uma criança.
− O que é que acha que a despoletou desta vez? – indagou a rapariga curiosa com o rumo da conversa.
− Certamente que o facto de ter desobedecido ao código de vestuário da realeza.
Liberty segurou a vontade de rir ao ver o rosto sério do médico enquanto voltava a colocar o dispositivo na mala. Aquilo não havia sido uma piada, constatou a moça ainda mais intrigada com toda aquela situação.
− E o que ele disse durante a entrevista não ajudou – acrescentou a jovem compactuando com uma história que ainda não decifrara. Porém, ela era inteligente o suficiente para perceber que a culpa poderia ser aquilo que movia a doença do príncipe. Se se limitasse a ficar calada, nunca ficaria a saber a verdade. Ela tinha que entrar na conversa para fazer o médico dizer aquilo que ela queria desesperadamente ouvir.
− Sim, ele arriscou muito desta vez. A ver se fica de olho no seu homem, que ele é demasiado precioso para toda uma nação − aconselhou o médico ao pegar na maleta pela alça. Liberty assentiu sorridente, torcendo para que ele dissesse mais alguma coisa antes de sair. – A bracelete não perdoa e, enquanto ele não for coroado, terá que viver com o julgamento implacável dos seus recetores. Ele já está farto de saber que os neurotransmissores são ativados sempre que ele se sente culpado.
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A Bela Redoma
Science Fiction🏆 Obra vencedora do prêmio Wattys 2020 🏆 Cem anos depois da última grande guerra, que tornou a vida na Terra insustentável, uma redoma foi construída numa província de França para proteger a humanidade restante dos perigos da atmosfera contaminada...
