Liberty não conseguiu reprimir a desilusão que sentira ao entrar na sala, mas nenhum dos ocupantes percebeu sequer a sua entrada. Babette estava acocorada atrás de um dos sofás. Uma das alças do vestido rasgada e os seus longos cabelos castanhos, quase negros, soltos, ao contrário do habitual. Ela espreitava a medo o que se passava do outro lado da sala. Se há poucos minutos receara por sua própria vida e integridade física, naquele momento, afligia-a perder o seu mais que tudo. Um medo que era infundado, já que o namorado estava em total controle da situação.
Lumière sorria enquanto apertava o pescoço de um homem que se debatia, mais fora do que dentro da sala, com as pernas a espernear no ar. A janela segurava o invasor e a noite parecia desejosa de o tragar. A luz do espaço permitia ver as cores arroxeadas que seu rosto ia adquirindo.
− Estou apertando com demasiada força? – questionou irónico o criado. – Você quem sabe!
As mãos de Lumière se estenderam no ar e o homem, com o desequilíbrio inesperado, caiu da janela abaixo. Um estrondo, seguido de um queixume alto, irrompeu no ar um segundo depois.
− Pena que não estamos no segundo andar – proferiu o criado olhando para o intruso se levantando a custo. – Quando a mulher diz não, é não, seu porco! – Mirando no alvo, ele cuspiu. A saliva escorreu pelo escasso cabelo do homem lá em baixo.
− Meu herói! – Babette correu para os braços do namorado e o abraçou forte. Percebendo que este se retesava um pouco, ela se afastou e analisou os ferimentos que percorriam todo o lado esquerdo de Lumière. O vidro cortara-o em inúmeros locais diferentes, quando ele e o intruso, agarrados um no outro, embateram na janela, estilhaçando-a por completo. – Pobrezinho! Eu vou cuidar de você.
− Você está bem, meu amor? – O criado olhou fundo nos olhos da garota e esta sorriu enternecida como resposta.
Felizmente, Lumière tinha chegado mesmo a tempo de impedir uma desgraça. O plebeu tinha acabado de se acercar da moça, rasgando-lhe a alça do vestido e puxando-lhe o atilho que prendia o cabelo, no momento em que o criado chegara à sala.
Os dois apaixonados se beijaram, se amparando no conforto um do outro.
Liberty limpou a garganta incomodada por ter de estragar aquele momento, mas não havia outra opção. Aquela cena lhe tinha alimentado a esperança que quase se esvaíra completamente por seus poros.
− Mademoiselle! – Lumière cambaleou na direção de Libby. O ferimento na perna esquerda era fruto da batalha na entrada, não do confronto mais recente para salvar a namorada. Por pouco, ele e Big Ben não escapavam com vida, esmagados pelo aglomerado de invasores. Por estarem vestidos de negro, se camuflaram entre a multidão e isso garantiu-lhes não terem de lutar, mas não os preveniu das mazelas. – Ele corre grande perigo! Eles vieram para o matar! Eu deveria ter ido com ele, mas... − As palavras saíam atropelando-se umas às outras, enquanto o criado avançava morosamente com o peso da culpa dificultando os movimentos. Ou seria dos ferimentos que trazia no corpo? − Eu...
− Tudo bem, Lumière – tranquilizou-o Liberty. As mãos da garota agarraram nas do criado. − Só me diz onde ele está.
− Eu não sei. Nós estávamos indo para a sala... − O criado se calou e a olhou preocupado. O príncipe tinha-lhe contado da grande revelação que resolvera fazer à prometida. Lumière não tinha ficado nada satisfeito com a decisão imprudente. Não lhe parecia o mais correto fazer uma frágil moça passar por isso. No entanto, Liberty era tudo menos frágil e estava ali disposta a enfrentar um exército inteiro de homens furiosos e descontrolados só para salvar Elroy e, eventualmente, toda uma nação.
A garota anuiu e saiu disparada. Aquilo era suficiente para ela saber onde tinha de ir.
− Obrigada, Lumière! – gritou ela, antes de desaparecer no corredor.
VOCÊ ESTÁ LENDO
A Bela Redoma
Science Fiction🏆 Obra vencedora do prêmio Wattys 2020 🏆 Cem anos depois da última grande guerra, que tornou a vida na Terra insustentável, uma redoma foi construída numa província de França para proteger a humanidade restante dos perigos da atmosfera contaminada...
