Capítulo 15 - Amendoins valiosos

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A mistura de cores vibrantes do exterior era rapidamente sugada pelo ambiente caótico do bar naquele final de tarde. Emanuelle não reparava na magnificência daquele céu que chegava pelas frestas das persianas das duas janelas daquele edifício, que parecia apenas mais uma de muitas das habitações que lhe cercavam. A garçonete rodopiava pelas mesas redondas apinhadas maioritariamente de homens, como já era costume. Mesmo sem ver, a jovem sentia os olhos demorados nas suas curvas marcadas pelos trajes negros justos ao corpo. A bandeja de metal, que segurava apenas com uma mão, nem estremecia com os piropos que recebia aqui e ali. Aquilo fazia-lhe bem à alma, mas ela não se deixava enganar, ela já tinha em vista um muito melhor partido do que qualquer um daquele bando de falhados.

− Aumenta o som, Elle, a entrevista vai começar – gritou um dos homens que se sentara de costas para o balcão.

A jovem suspirou exasperada, nem um simples "por favor" ela recebia. Quem pensavam que ela era? Ela poderia servir os clientes do bar, mas não era criada deles. Emanuelle abaixou-se para retirar o controlo remoto de uma das prateleiras internas do balcão, o objeto estava entalado entre dois enormes potes de amendoins, aquele era o único sítio de toda a província onde se poderia comer tal alimento. Os clientes não sabiam, mas a reserva daquela raridade estava prestes a chegar ao fim. Sem isso, e com apenas algumas garrafas de álcool na sala anexa que servia de armazém, o bar acabaria por deixar de existir.

Inicialmente, aquele espaço tinha sido criado como casa de convívio, um local onde os habitantes da província se poderiam reunir para confraternizar uns com os outros, partilhando as angústias e felicidades que lhes preenchiam a vida. Claro que não demorou muito para que Fritz, um alemão inteligente que fazia parte do lote inicial de habitantes de Villeneuve, visse naquele espaço a oportunidade de negócio que pretendia instalar de forma revolucionária debaixo de uma redoma desenxabida. Ninguém sabe muito bem como, mas o homem conseguiu trazer consigo uma reserva impressionante de álcool e amendoins. Há quem diga que ele poderia ter sido um dos amigos mais chegados de Antoine Morfrant, o cientista responsável pela existência da redoma e primeiro rei de Villeneuve. De qualquer forma, foi Fritz que deu vida aquele bar, que oficialmente continuava a ser uma simples casa de convívio. Ninguém denunciava o que se fazia por detrás daquelas simples paredes à família real, porque ninguém queria que aquele espaço, que era o único que servia álcool e amendoins, deixasse de existir. Claro que para os produtos durarem tanto tempo tiveram de lhes ser injetados um inovador conservante natural que garantia aos amendoins e à cerveja uma durabilidade praticamente eterna.

Emanuelle carregou no botão para aumentar o volume de áudio e os clientes urraram feitos animais selvagens quando a música ridícula da abertura do programa lhes estalou nos tímpanos. Todos estavam expectantes para ver a nova futura integrante da família real. Todos, menos Emanuelle, que continuava a acreditar que a sua vizinha seria eventualmente expulsa da mansão.

O controlo remoto caiu-lhe das mãos ao ver Liberty e o príncipe agarrados um ao outro com simples trajes negros. A jovem não sabia se aquilo era bom ou mau sinal. Se haveria de rir ou de chorar. E ainda que Liberty estivesse vestida com as cores do povo, a sua figura esbelta não deixava de brilhar, o que incomodou profundamente Emanuelle.

No resto do bar, as reações oscilavam entre descrença e curiosidade. Os homens que juravam vir a perder o interesse ao fim de alguns míseros segundos de entrevista, pregavam os olhos no televisor colado à parede, sem pestanejar. Já as poucas mulheres, todas jovens e cheias de vida, que coloriam o espaço com os seus cabelos avolumados e sem brilho, sentiram uma inveja instantânea pela moça que Elroy agarrava tão firmemente. Mas a inveja era aquele sentimento estranho que não lhes permitia desviar os olhos pela espera angustiante de uma qualquer falha que lhes mostrasse que elas ainda poderiam ser melhores do que a selecionada.

A Bela RedomaHistórias para pegar e não largar. Descubra agora