🏆 Obra vencedora do prêmio Wattys 2020 🏆
Cem anos depois da última grande guerra, que tornou a vida na Terra insustentável, uma redoma foi construída numa província de França para proteger a humanidade restante dos perigos da atmosfera contaminada...
Ao subir o terceiro degrau das enormes escadas, Liberty foi empurrada para o lado por um peso morto. Felizmente, o corrimão amparou a sua queda, quase certa, e os seus braços em torno do corpo do príncipe trouxeram-no com ela. A compressão contra os seus órgãos internos dificultava a respiração da moça, e as suas costelas pareciam esmigalhar-se contra a dureza da madeira do corrimão.
− Não me faça uma coisa destas – sussurrou a selecionada, entre fôlegos pesados. – Não me deixe viúva antes mesmo de casarmos – a piada de mau gosto saiu-lhe ao sentir a fraca respiração do príncipe contra os seus cabelos. Só havia proferido semelhante barbaridade por achar ambos os cenários altamente improváveis. Elroy parecia-lhe demasiado jovem e saudável para morrer e ela era demasiado teimosa para vir um dia a assentir um casamento por pura conveniência.
O corpo inerte do príncipe começou a escorregar-lhe. Os braços trémulos de Libby estavam a perder a força. Ela não iria conseguir aguentar muito mais tempo naquela posição, com o homem de quase 20 kg a mais que ela a apertá-la contra o corrimão.
− Mas o que vem a ser isto? – questionou Big Ben estupefacto com o que os seus olhos avistavam.
Liberty reconheceu a voz do mordomo e percebeu o mal-entendido que aquela situação poderia facilmente despoletar. Afinal de contas, o príncipe estava literalmente sobre a jovem.
− Ele. Não. Está. Consciente – pronunciou as palavras uma-a-uma, investindo as poucas forças que ainda detinha.
Big Ben arregalou ainda mais os olhos com as palavras da selecionada. Julgara que o atacante era o seu patrão, nunca a bela donzela que se parecia debater debaixo do seu corpo pesado.
− Mon Dieu! – afligiu-se Lumière ao entrar no corredor. O criado correu imediatamente na direção das escadas. – Big Ben, do que você está esperando? Venha ajudar! – gritou para trás. O seu fiel companheiro, que parecia paralisado, demorou alguns segundos a reagir ao comando.
Os dois criados pegaram em força nos braços de Elroy, um de cada lado, e colocaram-nos sobre os seus pescoços. Liberty sentiu todos os músculos relaxarem com a ausência da pressão sobre o seu corpo.
− No que é que eu posso ajudar? – a rapariga apressou-se a questionar ao ver os dois homens a começarem a subir as escadas com Elroy entalado entre os dois. Os pés do príncipe arrastavam-se contra os degraus, por Big Ben ser mais baixo que os outros dois.
− Ele está bem entregue agora, mademoiselle – disse Lumière por cima do ombro. – Vá ter com madame Potts à cozinha e diga-lhe para preparar a infusão.
− A infusão? Que infusão? – interrogou confusa. Ela nem sabia onde ficava a cozinha, quanto mais do que se tratava essa tal de infusão.
− Madame Potts sabe o que é – respondeu simplesmente. A sua voz notoriamente em esforço pelo peso excessivo que o homem se via obrigado a carregar. Mentalmente, recriminou-se por ter recusado fazer todos os exercícios fatigantes em que o seu mestre o convidara a participar, juntamente com ele.
Liberty abriu a boca para falar algo, mas logo se arrependeu. Os dois criados pareciam demasiado assoberbados pela tarefa árdua que tinham literalmente entre as mãos. Também não deveria ser assim tão difícil de encontrar a cozinha, pensou ela ao endireitar as costelas, que ainda latejavam.
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