Sexta-feira, 30 de Agosto de 2013 - Braga, Portugal
"Como consegues estar assim, quando estamos rodeados por casais?" o Francisco sussurrou-me. Eu simplesmente ri-me enquanto que comia mais pipocas. Não me importava que os amigos do Henrique estivessem aqui em casa, gostava da companhia deles, a maior parte das vezes "Devíamos seguir o exemplo deles." ele bateu com o ombro dele no meu. Desde que ele tinha se sentado no sofá, não parava de me mandar indiretas sobre como devíamos estar aos beijos e não atentos ao filme, a cada dez minutos ele era mais explicito, o que eu achava divertido, como ele está desesperado por ter um pouco de companhia feminina mas por outro lado começava a ficar aborrecida por ele não me deixar ver o filme.
"Não estou interessada." disse ainda atenta ao filme.
"Não me faças isto." ele juntou-se mais a mim e eu revirei os olhos.
"Deixa-me ver o filme." sentei-me no chão tentando afastar-me dele, talvez assim ele não falasse mais. Ele já me começava a chatear, eu queria ver o filme, estava na melhor parte, eles estavam quase a descobrir os corpos e eu queria ver o que eles iriam fazer a seguir, mas não me conseguia concentrar se ele estivesse sempre a falar sobre assuntos fúteis ou a tentar persuadir-me a ter algo com ele. "Se te queres divertir vieste falar com a pessoa errada." resmunguei.
Não gostava quando os rapazes eram assim, não percebia porque é que muitos deles tinham que estar sempre a divertir-se com raparigas, sempre a olha-las como objetos, não se importavam em conhece-las, em ser amigos delas, simplesmente queriam se divertir. Mas não eram só eles, eu já tinha observado muitas raparigas a usar os rapazes também, no final de tudo, estamos sempre a usarmo-nos uns aos outros, quer seja para dinheiro, amor, propriedades, etc. Mil e uma desculpas para conquistarmos o que queremos, todos nós usamos alguém para algum fim, todos chegamos a um ponto das nossas vidas em que ficamos cegos com o poder, sem conseguir distinguir o certo do errado, se magoamos as pessoas ou não. Não me queria tornar assim, queria lutar contra esta corrente de maldade, de traição, de egoísmo. Mas eu sei que todos temos os nossos defeitos, todos deixamo-nos manipular ou manipulamos os que nos rodeiam. O ser humano luta tanto para ser perfeito mas no final de contas torna-se em algo surreal, todos somos pequenos monstros a tentar disfarçar o que somos. Queria afastar estes pensamentos, estas minhas teorias, mas não era capaz, estes pensamentos surgiam por eles próprios e nunca mais saiam, as perguntas sem resposta eram o pior, pois atormentavam-me até surgir a resposta escondida bem no fundo da minha alma. Não queria pensar no que me tornaria, queria manter os pés bem assentes no chão, neste presente. Talvez fosse essa a resposta, talvez as pessoas lutam tanto para atingir um futuro promissor que acabam por ganhar asas e nunca aterrar, acabam por voar em direção a algo tentador mas terrível.
"Deixa a minha prima em paz." o Henrique resmungou com o Francisco e eu sorri-lhe, agradecendo silenciosamente.
"Apenas lhe estava a fazer um favor, ela esta sempre sozinha." eu olhei para ele. Eu sabia que podia estar sozinha maior parte das vezes, mas isso era porque preferia o silencio do que ouvir conversas que não me interessavam, estar com pessoas pelas quais não conseguisse fraternizar. Eu gostava de estar sozinha, pensar no que queria, sem receber comentários desnecessários sobre a minha forma de pensar, sobre a minha forma de ser. Não me importava que as pessoas me dissessem o que pensam, agradecia, mas por vezes algumas pessoas apenas conseguem ser preconceituosas ou com mentes fechadas não vendo para alem do que lhes ensinaram, não abrem a sua mente a novas descobertas e novas opiniões.
"Antes só do que mal acompanhada." protestei ainda a olhar para ele.
"Nunca chegaras a lado nenhum sozinha, todos precisamos de alguém."
"Temos que aprender a fazer as coisas por nos próprios , depender dos outros é apenas um estorvo." cruzei os braços, sentia que estava a ficar irritada. O Henrique abanou a cabeça negativamente.
"Estas errada. Se te estiveres a afogar não irias querer a ajuda de alguém? Ou preferirias ficar ali a lutar pela tua vida até que provavelmente morresses." ele beijou a bochecha da Margarida "Todos precisamos de alguém." ela deixou escapar um sorriso.
Pela forma como ele falou, ele estava certo. Talvez, precisemos as vezes de ajuda, mas eu gostava de ser independente, porque sabia que poderia contar sempre comigo mesma, as outras pessoas são imprevisíveis, podem no inicio dizer que estão connosco e a meio do caminho perdemos-lhes o rasto, a vista. Não queria mais traições na minha vida, mais enganos, apenas queria paz de espirito. Suspirei "Desculpa, tens razão, mas não preciso de ninguém amorosamente, eu estou bem assim."
"Não vais estar bem assim quando encontrares alguém especial." A margarida sorriu e o Henrique sussurrou-lhe algo ao ouvido fazendo com que ela sorri-se matreiramente "A não ser que já tenhas encontrado"
"Tens razão eu já encontrei." suspirei pesadamente tentando evitar sorrir quando eles de repente se aproximaram um pouco mais para me ouvir melhor, como se fosse algo interessante "Ele chama-se Max. Adoro quando ele se baba, é uma das melhores visões que se pode ter." eu comecei-me a rir não aguentando mais quando vi as suas caras de espanto e de desilusão. "Posso ver agora o filme?"
"Faz o que quiseres." o Henrique enterrou a sua cabeça por entre os cabelos loiros da Margarida
"Por favor, nada de intimidades a minha beira." apontei-lhes o dedo indicador mas toda a gente se riu
"Estamos a namorar desde que chegamos aqui e só agra é que reclamas?" o Rui sorriu ainda com a Madalena no seu colo. Eu apenas bufei concentrando-me no filme. Não era grande apreciadora de manifestações publicas de afeto, na minha opinião isso era algo de pessoal, ao qual devia ser mantido em privado, não me importava com pequenas caricias mas as vezes alguns casais exageravam e isso deixava-me perturbada e enjoada. Se algum dia eu me apaixona-se não iria me transformar numa sugadora de caras, não podia deixar as pessoas perturbadas como eu ficava as vezes. Não queria me tornar em algo ao qual eu tenho desgosto de ver nas outras pessoas, não queria ter comportamentos que iam contra os meus hábitos e gostos.
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Made of ice
Teen Fiction"Quando era pequena, costumava chorar por tudo e por nada. Hoje, com 17 anos apercebo-me que me estou a tornar numa pessoa fria." "Não és fria, és verdadeira" olhei-o nos olhos " é isso que mais gosto em ti" ele sorriu e foi nesse momento que perce...
