III

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Naquela noite, o jovem ômega não logrou adormecer, pois os rubros e incandescentes olhos do Rei Jeon Jeongguk, entrelaçados à lembrança do seu iminente noivado, mantinham-lhe o espírito em constante agitação. Cada sombra que dançava nas paredes de pedra de seu aposento parecia sussurrar segredos antigos e perigosos, e cada sopro de vento que adentrava pelas frestas da janela agitava-lhe a alma, lembrando-o do ardor inescapável do soberano.

- Acalmai-vos, Taetae - murmurou Kim Namjoon, o beta, com voz firme porém carregada de ternura, ao colocar sua mão sobre os cabelos dourados do jovem, cujo toque parecia macio como veludo antigo. - Vossa inquietação não perturba apenas vosso espírito, mas também meu lobo interior, e sei que não desejais tal perturbação.

- Hyung... que farei eu? - choramingou Taehyung, sentando-se na cama, os ombros curvados sob o peso do temor e da dúvida. - O rei é soberbo e impiedoso demais para consentir que servos ômegas não compareçam a tal baile. É mesquinho o bastante para jamais conceder-me paz!

Namjoon suspirou, inclinando-se levemente, o semblante sério, mas sereno.

- Escutai-me com atenção, Taetae - disse, a voz profunda e grave, carregada de autoridade e carinho -. Conheceis quão cruel e caprichoso nosso rei pode ser. Comparecereis ao baile, sim, mas mantende-vos recatado e vigilante. Fiqueis sempre junto de vosso alfa e, em hipótese alguma, vos expais só. Mais ainda, Taehyung-ssi, cessai vossas idas ao rio. Sabei que Jeon não deixará de vir enquanto vos lá estiverdes. Eu protegerei-vos, sim, mas também necessito de vossa colaboração.

Taehyung suspirou, sentindo o calor do afago nos fios dourados, os olhos marejados fechando-se por fim.

- Posso cumprir, hyung... Obrigado. - Fechou os olhos e permitiu-se adormecer, embora a inquietação persista como brasas que não se apagam.

No dia seguinte, o castelo e seus arredores estavam tomados por ansiedade e júbilo. Não é qualquer dia em que Jeon Jeongguk, soberano de Seul, dá um baile. Ômegas de toda região, de vilas e cidades distantes, preparavam-se com pompa: vestes de seda e veludo, adornadas com fitas e bordados de ouro; cabelos cuidadosamente penteados e ornados de flores ou joias; maquiagem aplicada de forma a enaltecer a beleza natural ou a ostentar extravagância, conforme a moda vigente. Como Namjoon previra, a rainha fora desobedecida: Jeon, com a altivez e o orgulho próprios de sua nobreza, ordenara que todos, sem exceção, comparecessem à festividade, ignorando súplicas e pedidos.

Já passava das sete horas da noite quando Taehyung decidiu preparar-se. Seu noivo, Park, estaria presente, e o jovem ômega optara por vestes suaves: calças alvas de seda fina e uma camisa igualmente leve, com mangas folgadas, permitindo liberdade de movimentos. Um perfume sutil, trazido por Namjoon, ocultava-lhe o odor natural, garantindo discrição e segurança.

- Estais verdadeiramente belo, Taetae - disse Jimin, aproximando-se com galanteria -. Creio que meu noivo seja o ômega mais formoso de toda Seul. Devo-me preocupar?

- Não há motivo para tal inquietação - replicou Taehyung, sorrindo largo e abraçando o alfa com delicadeza -. Meus olhos pertencem somente a vós, e a ninguém mais.

O baile iniciou-se com esplendor indescritível: o salão principal, de pedra alta, ornado de tapeçarias antigas que contavam feitos de ancestrais, iluminava-se com candelabros e lustres de cristal, refletindo chamas que tremulavam sobre a riqueza e opulência do local. Risos e música de alaúdes, flautas e liras enchiam o ar, e Jeon, erguido em seu trono, observava cada ômega com olhos penetrantes e predatórios, faiscando a cada passo, a cada gesto, a cada cor que cruzava sua visão. Nada se comparava à lembrança daquele pequeno ser, que se ocultava sob a proteção do seu noivo, despertando nele desejo sombrio e indomável.

- Achais que ele vos avistará? - sussurrou Lalisa, a rainha, com sarcasmo, próxima ao trono.

- Ele já está presente - murmurou Jeon para si mesmo, erguendo-se lentamente, as sombras de sua capa escura fundindo-se às trevas do salão, uma presença ao mesmo tempo majestosa e ameaçadora.

- Agradeço a todos por vossa presença - declarou o rei, a voz firme e autoritária -. Muitos sabeis o propósito deste baile: "Para que eu escolha um ômega". Todavia, poucos conhecem a verdade: eu, Jeon Jeongguk, filho de Joonhyun, rei de Seul, já tenho meu escolhido. Contudo, se não se revelar de próprio punho, caçá-lo-ei eu mesmo.

Taehyung prendeu a respiração, aferrando-se ao braço de Jimin, enquanto seu coração martelava descompassado. Jeon farejava o ar, em busca do aroma inconfundível do jovem ômega, e cada passo do soberano era calculado, lento, quase como se a própria escuridão se curvasse diante dele.

- Jimin, algo em mim não se sente bem. Permiti-me retornar a meus aposentos - disse Taehyung, murmurando a primeira desculpa que lhe veio à mente. Jimin, compreensivo, conduziu-o de volta, enquanto regressava à festa para não despertar suspeitas.

A lua cheia dominava o céu, espalhando luz prateada sobre o rio que serpenteava o bosque próximo ao castelo. O lobo interior de Taehyung rejubilava-se sob tal claridade. Atendendo ao chamado de seu instinto, o jovem desfêz-se das vestes com discrição, correndo até a água e mergulhando com graça, permitindo que o rio frio acariciasse sua pele, cada movimento refletindo a lua como se fosse magia líquida.

Mas Jeon, ao perceber a ausência de seu alvo, tornou-se raivoso, o semblante sombrio endurecendo e o desejo escurecendo suas intenções.

- Retirar-me-ei - murmurou entre dentes, decidido, e avançou silencioso pelo bosque, sabendo exatamente onde buscar.

Taehyung, sentado à margem, cobria apenas a própria intimidade, a respiração ritmada pela emoção e pelo frio da água. O murmúrio do rio e o vento entre os salgueiros criavam uma atmosfera de encanto e perigo, tornando o cenário ao mesmo tempo belo e ameaçador.

- Eres um ômega difícil... - sussurrou Jeon, surgindo das sombras -, mas sabia que aqui vos encontraria.

- És realmente insensato, ao ponto de abandonar teus convidados... ou mesquinho, por crer que me possuirás algum dia? - respondeu Taehyung, firme, sem desviar o olhar.

Jeon inclinou-se, aproximando-se ao ponto de deslizar o nariz pelo pescoço do jovem, e sua presença era quase sufocante, como se a própria noite se curvasse a ele:

- Sou egoísta o bastante para estar com quem desejo... - murmurou com voz rouca - e neste momento, desejo-vos somente a vós.

Taehyung tremeu, mas respondeu com firmeza:

- Tenho um alfa que amo, e não vos cederei meu coração.

Jeon, impassível e obstinado, aproximou-se ainda mais. Sob a luz da lua, o beijo que deu ao jovem ômega foi profundo e arrebatador. Taehyung permitiu-se ceder ao instante, mas num lampejo de sanidade afastou-se, ofegante e corado.

- Já obtiveste o que desejavas... agora deixai-me - disse, a raiva contida em cada palavra.

- Não vos deixarei, Kim - respondeu Jeon, os olhos faiscando com predatória determinação -. Ainda vos farei meu.

Taehyung arregalou os olhos e fugiu sem olhar para trás, ciente de que a perseguição estava apenas iniciando.

- Kim... logo serei Jeon. Descobrirei quem sois afinal... - murmurou, tocando os próprios lábios, guardando para si o segredo que ambos compartilhavam, enquanto sombras da noite os envolviam, e a lua, alta no céu, testemunhava o jogo de desejo, medo e mistério que se desenrolava.

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The Masked SlaveOnde histórias criam vida. Descubra agora