Jeon sentia a dor rasgar-lhe o peito noite após noite. Era uma dor dilacerante, que não lhe permitia respirar em paz, como se mil lâminas invisíveis se enterrassem em sua carne e em sua alma. Desde o desaparecimento de Taehyung, cada instante tornara-se tormento. O alfa chorara em silêncio todos os dias e todas as noites, não como rei, mas como homem ferido. Os soluços sufocados ecoavam em sua câmara vazia, abafados pelo peso do orgulho, escondidos de seus servos, mas gritantes dentro de si.
Movido pelo desespero, tentara de todas as formas obrigar Lisa a confessar-lhe o paradeiro do omega. Suas palavras, antes doces, tornaram-se ordens carregadas de fúria. Suas mãos, antes gentis, batiam sobre as mesas de carvalho, quebravam copos e arremessavam objetos ao chão. Mas nada. Lalisa permanecia firme, entre lágrimas, jurando não saber para onde o haviam levado.
Seus homens, leais guerreiros, cruzavam todos os caminhos conhecidos. De norte a sul, em todos os reinos, percorriam vilas, fortalezas, portos e até mesmo mosteiros, mas em lugar algum encontravam qualquer vestígio do omega. Nenhum sopro de notícia, nenhum viajante, nenhum mensageiro lhes trazia alívio. O nome de Taehyung parecia ter-se apagado dos lábios dos povos, como se o mundo inteiro houvesse conspirado para arrancá-lo da vida de Jeon.
A cada dia, a dor tornava-se mais insuportável. O rei mal se alimentava. Os pratos fartos que lhe eram servidos voltavam intocados.
— Precisa comer, marido… — dizia-lhe Lalisa, a voz carregada de preocupação e ternura, colocando diante dele uma tigela de sopa ainda fumegante.
— Preciso que saia daqui. Que desapareça de minha vista. — A voz do alfa era seca, e seus olhos vermelhos faiscavam como brasas prestes a incendiar.
A cada súplica de Lisa, a cada gesto de seus criados, Jeon respondia com frieza e violência. Não havia mais paciência em seu peito. O rei tornara-se uma fera à solta em sua própria corte. Servos eram açoitados por erros ínfimos. Conselheiros saíam da sala do trono com o rosto pálido, sem ousar contradizê-lo. Lisa chorava em silêncio, tentando suportar a brutalidade que crescera em seu marido desde a perda de Taehyung.
O lobo dentro dele, enlouquecido, gritava sem cessar. Já haviam passado seis longos meses desde que o omega desaparecera, e o medo começava a corroer-lhe por inteiro. E se Taehyung houvesse sido morto? E se o tivessem levado para além dos mares, para terras desconhecidas, onde nunca mais o encontraria? O simples pensamento lançava Jeon em desespero febril.
Seu cio aproximava-se, e isso apenas piorava seu estado. A cada lua, o lobo rugia mais alto dentro de seu peito, exigindo o toque, o cheiro, a presença de seu verdadeiro par. Lisa tentava acalmá-lo. Tocava-lhe o ombro, trazia-lhe ervas calmantes, enviava músicos e até mesmo rezava em silêncio, mas nada surtia efeito. O rei ardia em desespero e seu corpo em fogo.
Na ânsia de salvar o marido, Lalisa teve uma ideia desesperada. Ordenou que trouxessem ao castelo todos os omegas que possuíssem cheiro vagamente semelhante ao de Taehyung. Meninos e meninas foram reunidos, vestidos e perfumados para tentar enganar os sentidos do rei. Mas quando o cio o atingiu com violência, Jeon não se deixou iludir. Quebrou portas, rasgou cortinas, arremessou objetos contra as paredes e ameaçou matar a todos que ousassem aproximar-se.
O cio daquele alfa fora doloroso como nunca. Cada omega que se deitava diante dele era rejeitado. Alguns possuíam feições semelhantes, outros tinham olhos que lembravam o brilho do desaparecido, mas nenhum possuía o cheiro verdadeiro, a essência única que o completava. Uns apenas o enjoavam; outros, em sua fraqueza, o faziam chorar de ódio por não serem Taehyung.
— Eu quero o meu omega! — rugia Jeon, rasgando o ar com a voz rouca, a cada novo rosto que ousava cruzar os portões de seus aposentos.
O desespero prolongou-se por meses, até que seu conselheiro, homem frio e calculista, sugeriu-lhe uma saída cruel:
— Majestade… se Vossa Alteza não deseja sucumbir à loucura, criai um harém. Usai os omegas apenas em vossos cios. Não deveis buscá-los com o coração, mas com o corpo.
A proposta soara amarga, mas era a única que poderia manter o rei de pé. E assim se fez. O castelo passou a abrigar jovens de toda sorte, escolhidos por sua beleza ou por algum traço que lembrasse, ainda que de longe, a figura de Taehyung.
Mas nenhum deles era. Nenhum jamais seria.
E por dois longos anos, Jeon carregou este tormento. Acostumara-se a não ter mais o omega em sua vida. Cada cio era um suplício: corpos que não lhe diziam nada, aromas que não tocavam sua alma. O prazer físico era vazio, mecânico, um alívio breve que mais se assemelhava à tortura. Quando terminava, sentia-se mais morto do que antes.
E sempre era a mesma cena: um novo omega, deitado em sua cama, ousava perguntar com voz mansa:
— Eu serei vosso escolhido hoje, senhor?
E Jeon apenas cerrava os olhos, afundando-se em silêncio.
Para não enlouquecer de vez, tomou para si a imagem do pai. Já não era o alfa gentil, cheio de vida e afeto. Transformou-se no soberano duro, mandão, que preferia ser temido a ser amado. Seu coração endurecera, sua voz tornara-se lâmina. De dia, era o rei impiedoso, e ninguém ousava desafiá-lo. Mas à noite… quando as cortinas se fechavam e a solidão o abraçava, o rei chorava como uma criança perdida.
As lágrimas escorriam silenciosas, molhando os travesseiros, enquanto lembrava-se do sorriso suave de Taehyung, da forma como seus olhos cintilavam à luz das velas, da voz terna que lhe chamava de “Gukkie”.
Um nome que mais ninguém ousava usar.
Até que, numa dessas noites, durante o cio mais cruel que enfrentara em três anos, o inesperado aconteceu.
Um jovem omega, chamado Yugyeom, tentava agradar-lhe. Oferecia-lhe carícias, gemia ao pronunciar o nome do rei com doçura.
— Gukkie… — murmurou, inocente, buscando capturar-lhe a atenção.
Mas o efeito foi devastador. O sangue de Jeon ferveu. Os olhos vermelhos acenderam-se como brasas vivas. Em um gesto brusco, sua mão tomou a boca do omega, apertando-a com brutalidade, enquanto seus dentes se cerravam com força.
— Não me chames assim… — disse entre dentes, a voz rouca, carregada de ódio e dor.
Yugyeom tremeu sob o peso de seu olhar. O alfa o largou com violência, afastando-se.
— Saia. — Sua ordem foi seca, quase um rosnado.
— Mas, senhor… — tentou o omega, em súplica.
— Apenas saia! — rugiu, virando-lhe as costas.
Cobriu-se com o manto negro que costumava vestir para afugentar olhares, como se quisesse esconder até de si mesmo a fraqueza que o consumia.
— Peça meu jantar. — foi tudo o que disse, e o omega, chorando em silêncio, saiu em direção à cozinha.
Sozinho no aposento, Jeon debruçou-se sobre os joelhos. Os ombros largos estremeceram, e seus olhos arderam em chamas de desespero. Foi então que, entre o silêncio e a dor, um cheiro suave preencheu o ar. O cheiro que tanto buscara. O aroma único, impossível de ser confundido.
O coração do rei disparou, e por um instante o mundo inteiro pareceu cessar. O som dos ventos, o crepitar das velas, o pulsar de sua própria respiração. Tudo silenciou, até que uma voz, aquela voz tão sonhada, ecoou em seus ouvidos:
— Gukkie…
O rei ergueu o rosto, as lágrimas escorrendo-lhe sem controle. Lá estava. O omega que tanto esperara. O único capaz de curar-lhe as feridas.
Mas, tão rápido quanto surgira, a imagem desapareceu. E Jeon, desesperado, estendeu a mão, como quem tenta agarrar um sonho antes que se dissolva na manhã.
Não. Não poderia perdê-lo de novo. Não depois de sofrer tanto, de viver no inferno da ausência, de suportar cada cio vazio e cada noite de solidão.
Não agora.
Não depois de ainda o amar com todo o fogo de sua alma.
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The Masked Slave
Fiksi Penggemar[Reescrevendo] No reino antigo, o Jovem Rei Jeon Jeongguk, embora possuidor de coroa e riqueza, levava vida monótona ao lado de sua esposa, cuja presença lhe era morna e costumeira. Até que, num dia que não se lembra, apareceu em seus domínios um se...
