I

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Naquela manhã cálida de verão, o jovem Kim aventurou-se pela mata que lhe era tão familiar, onde o orvalho ainda cintilava sobre as folhas e o vento murmurava segredos antigos entre os galhos, como se sussurrasse histórias esquecidas do mundo. Cada passo era recebido pelo cricrilar dos insetos e pelo rumor distante do Rio Han, cuja água corria límpida e fria, refletindo o céu com tal clareza que parecia portar mundos ocultos sob sua superfície. O ômega encontrava naquele retiro selvagem um sentimento de liberdade que poucos prazeres do palácio poderiam lhe conceder; ali podia mergulhar e sentir a natureza acalentar-lhe todos os músculos, acalmando-lhe a mente inquieta e relaxando-lhe a carne como raramente conseguia em dias de luxo e protocolo.

O palácio, entretanto, fervilhava de tensão. A rainha e sua ama encontravam-se iradas e carregadas de estresse, como nuvens carregadas prestes a desabar em tormenta. Segundo a senhorita Jeon, o Jovem Rei negligenciava suas atenções, e isso tornava-as impacientes, severas e até cruelmente irritadas. O ar dos aposentos reais parecia pesado, impregnado de rancor e expectativa, contrastando com a leveza e liberdade do bosque.

- Somente vós me entendeis - suspirou Taehyung, retirando a manta negra que lhe cobria o corpo. Ela escorregou lentamente, revelando formas delicadas e bem delineadas, cada contorno perfeito à luz filtrada pelo dossel de árvores. O jovem banhava-se nas águas do rio, e seu sorriso largo atraía os peixes que se aproximavam, como se cedessem à magia silenciosa emanada de sua presença. A tez acobreada brilhava à luz do sol, e a água, ao escorrer por seus ombros e costas, parecia acentuar a perfeição de sua forma, tornando-o figura quase sobrenatural, encantamento que desafiava qualquer ordem natural.

E então, a poucos passos, o Rei Jeon o observava, olhos faiscando como brasas que ardem sem se consumirem. O coração do soberano batia desordenadamente, enquanto seu espírito lutava entre a razão e o desejo que o consumia por inteiro.

- Ele precisa ser nosso - murmurou Jeon, a voz baixa e firme, enquanto o lobo que habitava dentro dele rosnava em uníssono com sua própria vontade. Rei e fera haviam se perdido naquele mar de pecado; a arrogância do alfa tornou seu odor mais intenso, espalhando-se pela mata e assustando os animais ao redor, e até o próprio ômega, que, ao sentir o aroma e a presença dominadora, recuou e cobriu-se novamente com a manta, o corpo trêmulo.

- Q-quém está aí? - indagou Taehyung, a voz vacilante e os olhos rubros, misto de medo e alerta.

- Eu vos quero - respondeu Jeon, a palavra carregada de promessas perigosas, densas como o próprio ar da floresta, que parecia silenciar ao redor, como se todos os seres aguardassem sua sentença.

Taehyung recuou, negando com firmeza, o corpo tenso e a mente dilacerada pelo conflito. Não podia trair sua ama; não podia ceder.

- Mantende-vos afastado! Sois alfa casado, e tendes esposa a quem prestar atenção! - advertiu, a respiração curta, os sentidos em alerta, cada fibra do corpo pronta para fugir ou resistir.

- O único a quem desejo dar atenção no momento sois vós - replicou Jeon, firme e provocante, deixando seu odor e presença dominarem o espaço, quase como uma força invisível que prendia o ômega, que se via impotente diante do fascínio e do perigo.

Assustado, Taehyung afastou-se, correndo entre troncos e raízes retorcidas, tentando esconder seu aroma, seu calor, sua essência. Não tardou a alcançar o castelo, refugiando-se em seu aposento, ciente de que o dia não ocorrera conforme planejara, e pior, que a rainha já lhe aguardava, a paciência esgotada e o temperamento tempestuoso.

Horas passaram, e Jeon permanecia inquieto em seu trono, a lembrança das discussões com a esposa pesando sobre sua mente. Esta exigia filhos, embora noites conjuntas fossem raras; pois um rei tomava o que desejava quando desejava, e justamente quem almejava havia fugido de si.

- Dizei à ela, senhor Kim, que não me deitarei com ela esta noite, e que não me perturbe mais - ordenou Jeon, a voz firme, fria e impassível, como lâmina de aço.

- Aviso a Vossa Majestade - inclinou-se o servo, curvando-se antes de retirar-se, enquanto a lembrança da manhã ainda o atormentava, como um fantasma que se recusa a desaparecer.

Adentrou então o aposento de Lalisa, transmitindo a notícia do reclino do rei, desviando-se com cuidado da bandeja de alimentos recém-deixada, o coração acelerado pelo receio do confronto.

- Como ousa? Sou esposa dele! - bradou a rainha, olhos flamejantes de ira e lábios cerrados. - Taehyung, quero que descubras se meu esposo se encontra com outrem; dar-vos-ei tanto ouro quanto desejardes, contanto que me tragais notícias.

- Não quero ouro, minha rainha - respondeu Taehyung - Apenas a permissão para casar-me com o senhor Park. Sabeis que nos amamos.

A rainha, impaciente e fria, deu de ombros, e o ômega retirou-se às pressas, retornando à cozinha, onde ocultou a máscara usada para suas saídas secretas. Caso alguém descobrisse suas escapadas, a morte seria seu destino certo, e ainda assim, algo dentro dele ansiava pelo proibido, pelo encontro, pelo perigo que fazia seu coração bater mais rápido e sua mente se incendiar com imagens de desejo e paixão sombria.

The Masked SlaveOnde histórias criam vida. Descubra agora