XVIII

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O monte erguia-se como uma sombra imponente contra o céu prateado, coberto pelo véu diáfano da lua cheia que reinava soberana naquela noite. A floresta, densa e úmida, parecia conter a respiração, como se cada árvore, cada raiz escondida sob o musgo, aguardasse silenciosa pelo desfecho de um encontro selado pelo destino. Taehyung corria sem se deter, os pés descalços quase não tocando o solo coberto de folhas mortas. O frio da noite arranhava-lhe a pele, mas nada o desviava de seu intento. O som dos uivos do lobo negro soava cada vez mais próximo, reverberando pelas colinas como um chamado profundo, primitivo, impossível de ignorar.

Quando atingiu o cume do monte, o espetáculo desenhou-se diante de seus olhos: o enorme lobo, de pelagem tão escura que parecia absorver a luz da lua, voltou-se lentamente para ele. Os olhos do animal, brilhantes e selvagens, fitaram-no com intensidade. O coração de Taehyung acelerou de maneira quase dolorosa, o ar falhando-lhe nos pulmões.

— Jeongguk... — murmurou ele, a voz embargada, como se aquele nome fosse uma oração proibida.

O lobo aproximou-se com passo firme, e Taehyung, vencendo o próprio temor, ergueu as mãos delicadas e embrenhou os dedos na pelagem negra. O contato fez estremecer-lhe a alma: havia calor, havia vida, mas também algo desajustado, uma vibração dissonante que o fazia inquietar-se. O instinto sussurrava que havia perigo.

De súbito, o corpo da criatura contorceu-se em meio a um estalo lúgubre de ossos e músculos. A metamorfose decorreu diante dele com brutal intensidade, até que, arfante, Jeongguk tombou aos seus pés em forma humana, despido, vulnerável, o corpo banhado de suor. Taehyung abaixou-se rapidamente, a mão trêmula repousando sobre a testa do alfa. O choque percorreu-lhe a espinha: Jeongguk ardia em febre.

— Por todos os deuses, Jeon, que desgraça te aflige? — exclamou em voz baixa, cobrindo-o apressadamente com o manto que sempre trazia consigo.

Os lábios entreabertos do alfa moveram-se num sussurro débil:
— Kim... não me deixes...

As palavras frágeis obrigaram Taehyung a inclinar-se ainda mais, até que seus rostos quase se tocassem.
— Aqui estou, Jeon. Não hei de abandonar-te. — tentou acalmá-lo, embora fosse claro que o outro delirava.

Sabia que não podia conduzi-lo ao castelo — as línguas afiadas dos cortesãos descobririam o segredo, e pior, a rainha jamais perdoaria tamanha ousadia. Restava-lhe apenas a cabana solitária de Jeongguk, erguida não muito longe dali, oculta no seio da mata. Com esforço desmedido, sustentou o corpo do alfa contra o seu. Jeongguk jazia quase inconsciente, a pele pálida sob a fraca luz da lua, coberto apenas pelo manto de Taehyung. O caminho foi longo e tortuoso; raízes traiçoeiras e pedras escorregadias testavam-lhe a determinação. A cada pausa, Taehyung inclinava-se sobre ele, verificando-lhe a respiração, tocando-lhe a fronte abrasadora.

Após intermináveis instantes, alcançou a cabana. Deitou Jeongguk na rude cama de madeira, correu ao exterior e recolheu água fresca do poço. De volta, banhou-lhe o rosto e o peito, limpando o suor que escorria incessante, murmurando palavras de conforto como se sua voz pudesse dissipar a febre. Depois, deitou-se ao seu lado, oferecendo-lhe o calor de seu próprio corpo. Os dedos do ômega perderam-se nos fios negros do alfa, acariciando-os com suavidade. Pouco a pouco, o respirar aflito de Jeongguk se aquietou, e ambos, exaustos, cederam ao sono.

Quando a aurora tingiu o céu com matizes dourados e pálidos, Taehyung foi o primeiro a despertar. Encontrou-se enlaçado pelos braços firmes do alfa, o rosto de Jeongguk repousando contra seu pescoço, como se buscasse nele refúgio. Com cuidado, tentou erguer-se. Ajustou a máscara sobre o rosto, pronto para desaparecer como sempre fazia, quando uma mão quente agarrou-lhe o pulso.

— Voltaste... — a voz rouca de Jeongguk quebrou o silêncio, arrepiando-lhe a pele.

Taehyung voltou-se, o coração em desordem, mas conseguiu esboçar um tênue sorriso.
— Não foi senão por acaso, senhor... apenas passei por aqui. — mentiu, sentando-se à beira da cama. Sua mão foi instintivamente à testa do alfa, ainda em brasa.

— Estás enfermo — disse num sussurro preocupado.

Jeongguk sorriu com fraqueza.
— Não, estou melhor... — embora o tremor em sua voz o traísse. O cheiro do ômega, doce e envolvente, parecia acalmar-lhe a fera interior.

Taehyung franziu o cenho e, com irritação velada, deu-lhe um leve tapa no braço.
— Não mintas. Ainda ardes em febre, Jeon.

O alfa ergueu o olhar, sombrio e vulnerável.
— Minha doença não há de ser curada, Kim. Não pelos remédios dos homens. É teu lobo que me falta... foste tu quem o rejeitou.

Taehyung estremeceu, desviando os olhos. A confissão pesava-lhe como ferro em brasa no coração.
— Perdão... mas sabes tão bem quanto eu que há muito em jogo. Não apenas nossas vidas, mas reinos inteiros dependem de escolhas que não podemos desfazer. — sua voz vacilou, mas a sinceridade tingia cada palavra.

O alfa inclinou-se, aproximando o rosto do dele, como se buscasse ainda mais do escasso carinho.
— Nada disso me importa. O que desejo, o que sempre desejei... és tu.

Taehyung suspirou, vencido pela intensidade daquele olhar. Roçou-lhe a face com a ponta dos dedos e deixou um beijo leve em sua bochecha.
— Mas a mim importa. Há Jimin... não é justo, não é digno.

Os olhos de Jeongguk enevoaram-se de mágoa, e um riso amargo escapou-lhe.
— Sempre ele. Nunca pude competir com o Park.

— Ele foi meu amparo quando tudo se desmoronava — murmurou Taehyung, quase num lamento. — Conheci-o num tempo de trevas, e sua bondade me salvou. Não posso simplesmente apagar o que partilhamos.

O silêncio pesou entre eles, apenas quebrado pelo som distante da floresta que despertava. Então Jeongguk falou, a voz embargada:
— Invejo meu primo. Ele pôde escolher quem amar, pôde formar uma família. Eu, apesar de ter toda a Coréia aos meus pés, não possuo nada. Vivo a cumprir ordens, a sustentar um fardo que não pedi.

— Não sei como é essa prisão, Jeon... — murmurou Taehyung, o peito apertado por compaixão.

— Seria pecado exigir que fiques comigo? — perguntou o alfa, com um sorriso cansado, quase infantil.

Taehyung deu-lhe outro leve tapa, o rosto tingido de um rubor involuntário.
— És atrevido... e por vezes até pareces bondoso demais.

Aos poucos, Jeongguk pediu-lhe histórias, e Taehyung contou sobre sua infância, sobre o encontro com Jimin às margens do rio. Falava em voz baixa, mas o alfa bebia cada palavra como se fosse néctar. E quando admitiu que ainda hoje voltava àquele lugar, esperando alguém que seu coração não sabia nomear, Jeongguk apertou-o contra si com força, um brilho febril nos olhos.

— Não deixarei que te roubem de mim, Kim. — sua voz soou como um juramento sombrio.

O silêncio voltou a cair, pesado, carregado de promessas e interditos. E foi nesse limiar entre desejo e dever, entre febre e segredo, que ambos se perderam no mistério daquela madrugada.

— Hei de adiar teu casamento — murmurou Taehyung de súbito, quase sem se dar conta.

O alfa, tomado por esperança, ergueu os olhos e sorriu.

— Então… continuaremos a nos ver? — sua voz soava como a de um homem à beira do abismo, que de repente vislumbra uma tábua de salvação.

Taehyung, envergonhado, assentiu em silêncio.

The Masked SlaveOnde histórias criam vida. Descubra agora