O castelo erguia-se altivo contra o céu carregado, como um gigante de pedra que observava o mundo com severidade. Suas torres tocavam as nuvens, e suas muralhas, pesadas e austeras, guardavam não apenas o reino, mas também segredos que jamais poderiam ser ditos em voz alta. O vento que soprava naquela noite parecia trazer presságios — um murmúrio gelado que fazia as tochas tremular, como se até o fogo temesse o que estava por vir.
Nos aposentos reais, a senhora Jeon caminhava lentamente. O som suave de seus passos ecoava pelo piso de madeira, e em seus olhos havia algo sombrio, como se carregasse nos ombros o fardo de um destino que não era seu, mas que pesava sobre ela tanto quanto. Seus dedos crispavam-se nas pregas de sua saia, como se buscassem ali a força para o que precisava ser dito.
Jeongguk, o pequeno príncipe, estava sentado junto à janela, os joelhos recolhidos contra o peito. O luar entrava pálido pela vidraça, desenhando-lhe o perfil delicado. O vento frio da noite brincava com seus cabelos negros, e ele o deixava fazer, quase como se quisesse que a brisa o levasse para longe dali. Havia uma melancolia em seus olhos que não pertencia a uma criança de sua idade. Ao ouvir a porta abrir, levantou-se de súbito.
— Mamãe! — exclamou, correndo para o criado-mudo, onde repousava uma flor que havia colhido dias antes. Era simples, já levemente murcha, mas para ele era um tesouro. — Vede! Um menino deu-me esta flor, disse que eu devia entregá-la àquele que mais amo no mundo.
Com cuidado, ergueu-se na ponta dos pés e colocou a flor nos cabelos da mãe. A senhora Jeon sorriu, mas seu sorriso era carregado de dor, como o de quem contempla a beleza de algo que está prestes a ser arrancado de suas mãos.
— Obrigada, meu querido. — murmurou, sentando-se diante dele. Sua voz soava mais baixa que o normal, quase solene. — Assenta-te, filho. Há algo que preciso dizer-te.
Jeongguk obedeceu, ainda sorrindo, sem imaginar que o que ouviria mudaria para sempre o rumo de sua vida.
— Meu pequeno — começou ela, a voz trêmula — tu sabes que, sendo da linhagem real, teu destino não é apenas teu. O reino exige de nós mais do que exige de qualquer outro.
Ele franziu o cenho, tentando entender.
— Compreendo, mamãe… — disse, mas sua voz era hesitante.
A senhora Jeon suspirou e passou a mão pelos cabelos do filho, demorando-se nesse gesto como se quisesse gravar para sempre aquela sensação.
— Teu pai e o soberano do Japão selaram um tratado de paz. Para que essa aliança jamais seja quebrada, tu foste prometido à filha da corte nipônica. Quando vier teu primeiro cio, serás desposado. Não haverá escapatória.
O coração de Jeongguk pareceu parar. O mundo ao seu redor se desfazia em ecos distantes.
— Mas… mamãe… eu não quero! — protestou, sua voz falhando, os olhos marejados. — Não posso casar-me!
Ela segurou suas mãos, firme, como se temesse que ele fugisse.
— Não temos escolha, meu filho. O destino já foi escrito, e não há pena que o apague.
Jeongguk sentiu o chão escapar sob seus pés. Virou o rosto, mordendo o lábio para conter o choro.
— Não é justo… — murmurou, quase para si mesmo. — Eu já dei meu coração…
A mãe não perguntou a quem. Talvez já soubesse. Beijou-lhe a testa, demorando-se mais do que o necessário, e deixou o quarto, o som de seus passos desaparecendo no corredor como o fim de uma canção.
Quando a porta se fechou, Jeongguk deixou-se tombar sobre o leito. Seu corpo miúdo sacudia-se com o choro silencioso, e cada soluço parecia uma ferida aberta. Ele se lembrava do menino do campo, das mãos sujas de terra, do sorriso franco e dos olhos que pareciam guardar todo o céu dentro deles. Lembrava-se das conversas às margens do rio, dos segredos sussurrados à sombra das árvores, da promessa silenciosa que trocaram de estarem sempre juntos.
Agora, tudo lhe era arrancado.
— Não me casarei… — sussurrou, mais para o vento do que para si. Era uma promessa, uma jura desesperada, mesmo sabendo que ninguém no castelo o ouviria.
Longe das muralhas, o menino do campo esperava.
Nos primeiros dias, acreditou que o príncipe voltaria como sempre fazia, correndo pela trilha de terra até o campo aberto, rindo, chamando por ele. Todas as manhãs, sentava-se no mesmo lugar, olhando para a torre do castelo ao longe, como se dela pudesse surgir a figura que esperava.
O tempo, porém, foi cruel. Os dias tornaram-se semanas, e depois meses. O menino passou a vagar pelo campo em silêncio, colhendo flores, pedras e gravetos que achava bonitos, guardando-os como oferendas para um reencontro que parecia nunca chegar.
À noite, encolhia-se no canto da cabana e chorava baixinho, sem que ninguém visse. Seu peito pequeno doía, e às vezes tinha a sensação de que o ar lhe faltava. Perguntava-se se Jeongguk teria se esquecido dele.
Seus olhos, antes cheios de luz, tornaram-se profundos, misteriosos. Quem os visse diria que ali morava um segredo grande demais para um menino. Às vezes, saía de casa apenas para se deitar na relva e olhar as estrelas.
— Disseste-me que estaríamos juntos… sempre… — murmurava, a voz embargada.
No castelo, Jeongguk se tornara sombra de si mesmo. Mal comia, mal falava. Passava horas olhando pela janela, os dedos entrelaçados como se rezasse por algo que não vinha.
O rei, exasperado, aproximou-se de seus aposentos uma noite e ordenou com voz firme:
— Jeongguk, à mesa!
— Não estou com fome, pai… — respondeu ele, a voz embargada.
— Isto não é um pedido. Hoje conhecerás tua noiva.
As palavras foram como açoite. O príncipe vestiu-se devagar, os trajes cerimoniais pesando-lhe nos ombros como grilhões. Cada peça de seda parecia sufocar-lhe a respiração.
Desceu as escadas em passos arrastados. O grande salão estava iluminado por dezenas de tochas e lustres que lançavam luz dourada pelas paredes. No centro, estava ela.
— Tu… — murmurou ele, quase sem voz.
— Eu mesma. — respondeu Lalisa, sorrindo, antes de lançar-se aos seus braços.
O abraço dela era quente, mas para Jeongguk soava como prisão. Seus olhos se perderam por cima do ombro dela, fitando o vazio. Naquele instante, compreendeu que não haveria amor naquele casamento.
E, longe dali, o menino do campo, em sua solidão, segurava uma pequena pedra lisa — o último presente de Jeongguk — e chorava, sem entender tratados ou obrigações, apenas sentindo o vazio da ausência.
Dois corações infantis, distantes, partilhavam a mesma dor: um, aprisionado pelo dever; o outro, consumido pela espera.
E naquela noite silenciosa, apenas as estrelas ouviram o segredo que jamais poderia ser dito em voz alta.
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The Masked Slave
Fanfic[Reescrevendo] No reino antigo, o Jovem Rei Jeon Jeongguk, embora possuidor de coroa e riqueza, levava vida monótona ao lado de sua esposa, cuja presença lhe era morna e costumeira. Até que, num dia que não se lembra, apareceu em seus domínios um se...
