XV

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O sol nascente ainda se insinuava por entre as copas densas da floresta, filtrando seus raios em feixes dourados que dançavam sobre o musgo úmido e as folhas ainda salpicadas de orvalho. O ar carregava o aroma profundo da terra molhada, da resina dos pinheiros e de flores silvestres que se curvavam suavemente, como se estivessem rendendo homenagem à aurora que lentamente despontava. Ali, entre sombras e luz, Jeon despertou antes de seu companheiro, seu corpo ainda pesado pelo sono que mal conseguira abraçar completamente. O coração do alfa pulsava com uma intensidade silenciosa, entrelaçado a uma melancolia que não ousava admitir.

Jeon inclinou-se, cuidadosamente, cobrindo Taehyung com seu manto de lã mais quente, o tecido impregnado de seu próprio perfume: uma mistura de hortelã fresca, madeira e a acidez sutil de suas glândulas lupinas, um aroma que sempre provocava algo profundo no omega. Cada movimento era cuidadoso, quase reverente, como se não quisesse perturbar o sono de Taehyung e, sobretudo, não quisesse revelar a fragilidade que guardava dentro de si. A despedida — mesmo que silenciosa — era mais dolorosa para ele do que poderia jamais ser para o pequeno omega, e Jeon sabia que não poderia permitir que Taehyung percebesse sua vulnerabilidade.

Saindo entre os troncos altos, seus passos quase não faziam barulho sobre a manta de folhas secas. Cada respiração parecia pesada, e o ar fresco da manhã parecia esfriar mais que o esperado, mas ele não se importava. O pensamento constante era o mesmo: alfas lúpus se apaixonavam uma única vez. Quando esse amor não era correspondido, o lobo interior enfraquecia, definhava. Ele não queria que Taehyung soubesse disso. Não queria que o ômega se culpasse por sentimentos que ele próprio não podia controlar. O amor, por vezes, era uma força indomável: escolhia quem queria, e não obedecia a razão ou à prudência. E Jeon, mais do que ninguém, conhecia a solidão de não ser amado.

Ao adentrar o castelo, os corredores frios e austeros contrastavam com a calorosa lembrança da floresta. Seus aposentos estavam vazios; Lalisa não se encontrava ali. Um suspiro aliviado escapou de seus lábios. Não queria confrontos, nem insinuações, nem cobranças sobre o casamento que, ao menos por enquanto, ele desejava. Empurrou os lençóis impregnados de canela para o chão, despojando-se de qualquer conforto que pudesse lembrar a presença indesejada da rainha, e se lançou sobre o colchão frio, deixando a própria pele entrar em contato com a maciez da lã. O aroma de Taehyung ainda persistia, delicado e marcante, como uma memória que se recusava a desaparecer. Apenas com isso, o sono o reclamou novamente, mais pesado e melancólico, com ecos de sonhos interrompidos e suspiros contidos.

Enquanto isso, minutos mais tarde, Taehyung despertou. Seus olhos castanhos claros percorreram o quarto com certa inquietude. O lobo que habitava sua essência não descansava; a ausência de Jeon criava um vazio doloroso, uma saudade que não se permitia nomear. Ele juntou a manta e o lençol que Jeon havia levado consigo — quase um gesto instintivo de apego — e os levou consigo, como se manter parte do aroma e da presença do alfa pudesse diminuir a sensação de abandono.

“O que você quer afinal?” murmurou Taehyung, mais para o próprio lobo do que para si mesmo, enquanto dobrava com cuidado o tecido. Cada gesto carregava uma melancolia silenciosa, uma tentativa de fixar o que o coração insistia em perder.

O dia avançou lentamente, e a rotina do castelo continuava seu ritmo calculado e meticuloso. Ao chegar em seu quarto, encontrou Namjoon ainda adormecido. Não era o momento de iniciar as atividades, e Taehyung permitiu-se repousar na cama, o manto de Jeon servindo de travesseiro improvisado. Ele não entendia completamente o efeito que o aroma do alfa tinha sobre si; diferente do aroma forte e terroso de Jimin, o perfume de Jeon era delicado, profundo, uma mistura de hortelã e nozes que acalmava e, ao mesmo tempo, despertava uma saudade insuportável.

Dois dias se passaram sem que Jimin aparecesse no reino, e o ponto de encontro usual com Jeon permanecia vazio. Ainda assim, Taehyung, contra toda racionalidade, caminhava até lá, atraído pelo rastro fraco do alfa, que ainda permeava o ambiente. Cada vestígio de presença de Jeon despertava no omega um misto de esperança e frustração: o coração parecia se encolher ao perceber que o alfa provavelmente estivera ali há pouco, mas se afastara antes que pudesse encontrá-lo. Não era apenas Taehyung que sentia a falta; seu lobo clamava pela proximidade de Jeon, pelo calor da voz e pelos gestos que, mesmo pequenos, haviam se tornado essenciais.

Ele lembrava com nitidez das conversas sob a luz morna do entardecer, das risadas tímidas, das lendas antigas que Jeon contava com um brilho nos olhos que Taehyung jamais esqueceria. A lenda do akai ito, a história da flor de Daegu — especialmente esta última, que Jeon afirmava ser sua favorita no mundo inteiro — permaneciam como ecos doces e melancólicos na memória do omega. Cada detalhe do alfa era gravado com precisão quase obsessiva: o brilho negro dos cabelos, a suavidade da pele, o perfume que se misturava à natureza ao redor, a forma como ele sorria apenas com os olhos, sem necessidade de palavras.

Ao retornar ao castelo, Taehyung notou o cavalo negro de Jimin, Pégasus, pastando próximo a outro animal desconhecido. Seu coração apertou; a presença de mais de um cavalo indicava que não apenas Jimin havia estado ali, mas que outro alfa ou acompanhante se encontrava próximo. A mistura de alarme e curiosidade o levou a se aproximar da égua, acariciando sua crina.

“Olá, Cloé, o que faz aqui?” murmurou, tentando disfarçar a inquietação com a gentileza que apenas os animais inspiravam.

“Você enfim apareceu!” Namjoon surgiu da cozinha com um sorriso largo e caloroso, quebrando a tensão que ainda persistia no coração de Taehyung.

“Joonie, o que…?” Taehyung correu até o beta, ansioso.

“Venha, temos uma surpresa.” Namjoon o segurou pelos ombros, conduzindo-o com passos firmes até a cozinha, onde Yuju, Yohan, Yeri, Jimin e…

“Yoonie?” Taehyung exclamou ao reconhecer o omega menor, lançando-se em um abraço caloroso e apertado.

“Taetae.” A voz de Yoonie respondeu com timidez, mas havia alegria contida na saudade.

Taehyung, apressado e aflito, desculpou-se por sua ausência da pensão, explicando-se entre afazeres e compromissos, até que seu olhar se encontrou com Hoseok, que observava com desaprovação velada.

“Não se preocupe, Taetae. Seu noivo vai muito lá; na verdade, ele nos apresentou a cidade.” A voz de Hoseok carregava uma alfinetada sutil, evidente pelo franzir de sobrancelhas de Taehyung.

“Você foi?” Taehyung questionou, encarando Jimin com uma mistura de surpresa e incredulidade.

“Seu alfa é um cavalheiro, Tae. Ele nos levou até a praia, depois à feira e até mesmo ao bosque real.” Yoongi falou com inocência, seus olhos brilhando com entusiasmo genuíno.

A confusão de Taehyung cresceu; ele não entendia completamente os gestos e viagens, mas ao menos sentiu um alívio momentâneo ao perceber que seu primo estava presente, proporcionando uma familiaridade segura.

Os omegas se retiraram para o quarto de Taehyung, onde ele queria mostrar sua roupa para o casamento. Enquanto isso, Hoseok e Namjoon permaneceram sozinhos com Jimin, e a tensão entre os alfas tornou-se palpável.

“Me diga o que quer com meu omega?” Hoseok perguntou, firme, encarando Jimin.

“O que?” Jimin respondeu, fingindo surpresa e desentendimento, mas a tensão no ar era evidente.

“Diga-me, porque pareceu que não tinha tempo para seu omega, mas bastante para o meu?” A voz de Hoseok se elevou, carregada de irritação contida. Namjoon se interpôs, tentando apaziguar os ânimos.

O debate foi interrompido por um ser menor — uma alfa jovem — que, com seriedade inesperada, apontou para os alfas: “Se fizerem algum mal ao meu tio Taetae, eu acabo com vocês.”

Enquanto isso, Taehyung, ainda em seu quarto, vestia a roupa nupcial com a ajuda dos amigos. Cada movimento carregava uma ansiedade que não conseguia esconder; o coração ainda pulsava em direção a Jeon, lembrando-se da ausência que marcava cada gesto e respiração.

Quando a noite caiu, Taehyung se jogou na cama, exausto, enquanto Namjoon se sentava próximo a ele.

“Acho melhor adiarem o casamento.” A frase foi direta, carregada de preocupação genuína.

“Por quê?” Taehyung se levantou, confuso.

“Vocês ainda não se conhecem o bastante. Dêem mais tempo ao noivado, e só então, se realmente quiserem se casar, eu lhe darei minha bênção.” Namjoon falou, com firmeza, mas também com um carinho paternal evidente.

Taehyung assentiu, sentindo o peso da responsabilidade e das incertezas que ainda pairavam sobre seu coração. Ele precisava sair. Ao adentrar a mata, o uivo dolorido de um lobo ressoou entre os troncos altos, quebrando o silêncio. Seu coração disparou, e ele acelerou o passo, ansioso e temeroso, até avistar o enorme lobo negro uivando para a lua, a melancolia e a solidão da noite refletidas na forma selvagem diante de si.

The Masked SlaveOnde histórias criam vida. Descubra agora