XX

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Naquela noite, Taehyung permaneceu ao lado de Jeon, envolvendo-o num abraço suave. O corpo do rei ardia em febre, os músculos tensos se contorciam em meio a alucinações, mas o ronronar baixo e contínuo do ômega parecia acalmar-lhe as dores invisíveis. Cada som que escapava do peito delicado de Taehyung dissolvia as sombras que perturbavam o lobo do alfa, tornando a noite menos cruel.

Com receio de despertá-lo, Taehyung levou a ponta dos dedos finos até a cicatriz marcada na face de Jeon, contornando-a com um gesto quase reverente. Havia algo naquela marca que o intrigava, como se fosse um selo do destino — um traço que ligava o alfa ao próprio âmago do seu lobo. Suspendeu a respiração por instantes, tentando compreender por que aquele homem, até então estrangeiro em sua vida, mexia de forma tão avassaladora com seu coração e com a fera que carregava dentro de si.

— Por que me deixas tão confuso? — sussurrou, sua voz quase engolida pelo silêncio, antes de acomodar-se mais uma vez nos braços fortes de Jeon. O rei, mesmo adormecido, não tardou em enlaçá-lo instintivamente, estreitando-o contra si como quem se agarra à única âncora em meio à tempestade.

Na manhã seguinte, Jeon foi o primeiro a despertar. Seus olhos repousaram sobre a figura adormecida de Taehyung, tão serena e delicada quanto uma pintura viva. Um sorriso raro e genuíno curvou os lábios do rei. Tocou-lhe de leve o ombro, balançando-o com cuidado.

— Kim, precisamos regressar. —

O ômega despertou sonolento, espreguiçando-se como um felino preguiçoso. Coçou os olhos, e um sorriso pequeno, quase tímido, iluminou-lhe o rosto. Jeon retribuiu-o de imediato, como se aquele gesto simples lhe fosse bálsamo.

— Bom dia, Jeon. — murmurou, levando a mão à máscara. Porém, antes que pudesse retirá-la, seus olhos se arregalaram diante do riso súbito do rei.

— Bom dia, pequeno gato. Então, partiremos? —

Tae acenou, mas ao chegar à porta deteve-se. Voltou-se para Jeon, tocando-lhe a testa com a palma da mão.

— Estás melhor? —

O alfa concordou, deslizando as mãos até a cintura do ômega, puxando-o para mais perto.

— Meu lobo acalmou-se só por sentires compaixão por nós dois. Eu... devo desculpar-me se acaso te causei medo ou... —

Mas não terminou. Taehyung interrompeu-lhe as palavras com um selar rápido nos lábios firmes do rei.

— Não me assustaste, Jeon. Ao contrário... alegrei-me por poder cuidar de ti. E teu lobo... é de uma beleza que não sabes. Não te aflijas com isso. Alimenta-te bem, e eu pedirei à noona que prepare uma sopa forte e saborosa. — disse apressado, quase tropeçando nas próprias palavras.

— Irás trazê-la a mim? — replicou o rei, arqueando as sobrancelhas num fingido tom provocador.

— Não mesmo. — respondeu o ômega, fazendo ambos rirem suavemente antes de caminharem lado a lado em direção à floresta.

Quando chegaram, Taehyung pediu que o rei seguisse adiante. Queria ficar um pouco mais entre as árvores, deixando-se envolver pela brisa que cheirava a terra molhada e lembranças confusas. Seus pensamentos, inevitavelmente, correram para Jimin. Amava-o, sabia disso, mas algo havia mudado. O encontro com Jeon abalara pilares que julgava imutáveis.

Levou a mão esquerda até a pulseira presa ao braço, e um sorriso triste se formou em seus lábios ao recordar-se da inscrição.

"Para que te recordes que te amo em todos os idiomas."

— Eu não sei o que fazer... — sussurrou, antes de regressar ao castelo pela entrada dos fundos.

Dessa vez, porém, não encontrou o habitual silêncio. O local estava repleto de rostos atentos, carregados de tensão. Namjoon foi o primeiro a levantar-se, pedindo em tom grave:

— Precisamos conversar. —

Surpreso, Tae apenas acenou e seguiu o beta até o quarto que dividiam. Lá dentro, encontrou também Seokjin. Sentaram-se frente a frente, e Namjoon pareceu lutar contra as palavras antes de enfim soltá-las.

— Tae, não sei bem como começar... mas eu e Seokjin... estamos juntos.

Um sorriso genuíno, quase infantil, iluminou o rosto do ômega.

— Estão namorando? — perguntou animado.

Os mais velhos assentiram, e Jin, corando, completou:

— E... terás um irmãozinho, Taehyung. Estou grávido.

Os olhos do jovem se arregalaram, um grito alegre escapou-lhe da garganta, e logo correu para abraçá-los.

— Um irmãozinho! Hyung, eu vou ter um irmãozinho! —

Em seguida, curvou-se diante de Jin, pedindo permissão com um olhar suplicante. Quando recebeu o aceno positivo, tocou a barriga ainda lisa com uma reverência terna, como quem acaricia um tesouro sagrado.

Mas a alegria foi interrompida quando uma criança atravessou o quarto, enroscando-se nas pernas de Tae.

— Tio Taetae, preciso falar contigo! —

Ele a pegou nos braços, mas a pequena, de imediato, rosnou ao ver Jimin se aproximar.

— Não quero ir com ele! Jimin é mau! —

O alfa estacou, surpreso com a acusação. Tae, sem compreender, tentou acalmá-la.

— Ele não é mau, meu anjo. — disse, mas a inquietude da criança o deixou com um pressentimento sombrio.

Mais tarde, no jardim, Yoongi se aproximou com os olhos vermelhos de tanto chorar.

— Tae, estou envergonhado... mas preciso confessar-te algo. Traí tua confiança... beijei alguém, e juro que não queria ferir-te. —

As palavras mal haviam saído de sua boca quando Jimin surgiu, segurando possessivamente a cintura de Taehyung.

— Amor, estás bem? Vamos ver as rosas para o nosso casamento. —

O brilho galanteador em seu sorriso parecia ocultar garras invisíveis. Tae tentou retomar a fala de Yoongi, mas foi interrompido.

— Ele não tem nada a dizer. Não é assim, Yoongi? — forçou Jimin, sua voz grave, pesada como uma ordem. O ômega mais velho, vencido pelo medo, suspirou e assentiu, sufocando a verdade que desejava gritar.

Hoseok, que até então observava à distância, apertou os punhos até as veias saltarem. Seu peito arfava em fúria contida. Ver Yoongi rebaixar-se ao silêncio, cedendo ao peso da manipulação de Jimin, feriu-lhe o coração como uma lâmina. Os olhos de Hoseok, antes calorosos, ardiam de indignação.

"Como ousa? Como ousa roubar-lhe a voz? E ainda mentir diante de Tae com tamanha audácia?"

Seus lobos interiores rugiam, pedindo sangue, e só o respeito por Taehyung o impediu de avançar sobre o alfa naquele instante. No entanto, jurou em silêncio que não permitiria por muito mais tempo tal engano.

Tae, por sua vez, desviou o olhar de Jimin. Seu coração pesava em confusão. Ainda o amava, mas havia uma distância crescente, uma sombra que lhe roubava o fôlego.

— Estou confuso, Jimin. Amo-te, mas sinto-te distante. —

— Estava apenas com preocupações, mas agora tudo está claro. — insistiu o alfa, segurando-lhe o rosto para forçar-lhe um beijo.

Taehyung desviou, envergonhado.

— Depois, veremos as rosas. —

O sorriso de Jimin alargou-se, mas Hoseok, ao fundo, via apenas veneno por trás daquela máscara de ternura. E seu coração queimava com a certeza de que aquela mentira, cedo ou tarde, teria de ser arrancada à força.

E ainda assim, Taehyung não percebia a extensão da armadilha. Apenas sentia, no fundo do coração, que a cada sorriso de Jimin, algo em si se quebrava.

E o presságio parecia claro: a noite breve de ternura nos braços de Jeon seria apenas o prelúdio de uma tempestade.

The Masked SlaveOnde histórias criam vida. Descubra agora