Naquela noite, Taehyung permaneceu ao lado de Jeon, envolvendo-o num abraço suave. O corpo do rei ardia em febre, os músculos tensos se contorciam em meio a alucinações, mas o ronronar baixo e contínuo do ômega parecia acalmar-lhe as dores invisíveis. Cada som que escapava do peito delicado de Taehyung dissolvia as sombras que perturbavam o lobo do alfa, tornando a noite menos cruel.
Com receio de despertá-lo, Taehyung levou a ponta dos dedos finos até a cicatriz marcada na face de Jeon, contornando-a com um gesto quase reverente. Havia algo naquela marca que o intrigava, como se fosse um selo do destino — um traço que ligava o alfa ao próprio âmago do seu lobo. Suspendeu a respiração por instantes, tentando compreender por que aquele homem, até então estrangeiro em sua vida, mexia de forma tão avassaladora com seu coração e com a fera que carregava dentro de si.
— Por que me deixas tão confuso? — sussurrou, sua voz quase engolida pelo silêncio, antes de acomodar-se mais uma vez nos braços fortes de Jeon. O rei, mesmo adormecido, não tardou em enlaçá-lo instintivamente, estreitando-o contra si como quem se agarra à única âncora em meio à tempestade.
Na manhã seguinte, Jeon foi o primeiro a despertar. Seus olhos repousaram sobre a figura adormecida de Taehyung, tão serena e delicada quanto uma pintura viva. Um sorriso raro e genuíno curvou os lábios do rei. Tocou-lhe de leve o ombro, balançando-o com cuidado.
— Kim, precisamos regressar. —
O ômega despertou sonolento, espreguiçando-se como um felino preguiçoso. Coçou os olhos, e um sorriso pequeno, quase tímido, iluminou-lhe o rosto. Jeon retribuiu-o de imediato, como se aquele gesto simples lhe fosse bálsamo.
— Bom dia, Jeon. — murmurou, levando a mão à máscara. Porém, antes que pudesse retirá-la, seus olhos se arregalaram diante do riso súbito do rei.
— Bom dia, pequeno gato. Então, partiremos? —
Tae acenou, mas ao chegar à porta deteve-se. Voltou-se para Jeon, tocando-lhe a testa com a palma da mão.
— Estás melhor? —
O alfa concordou, deslizando as mãos até a cintura do ômega, puxando-o para mais perto.
— Meu lobo acalmou-se só por sentires compaixão por nós dois. Eu... devo desculpar-me se acaso te causei medo ou... —
Mas não terminou. Taehyung interrompeu-lhe as palavras com um selar rápido nos lábios firmes do rei.
— Não me assustaste, Jeon. Ao contrário... alegrei-me por poder cuidar de ti. E teu lobo... é de uma beleza que não sabes. Não te aflijas com isso. Alimenta-te bem, e eu pedirei à noona que prepare uma sopa forte e saborosa. — disse apressado, quase tropeçando nas próprias palavras.
— Irás trazê-la a mim? — replicou o rei, arqueando as sobrancelhas num fingido tom provocador.
— Não mesmo. — respondeu o ômega, fazendo ambos rirem suavemente antes de caminharem lado a lado em direção à floresta.
Quando chegaram, Taehyung pediu que o rei seguisse adiante. Queria ficar um pouco mais entre as árvores, deixando-se envolver pela brisa que cheirava a terra molhada e lembranças confusas. Seus pensamentos, inevitavelmente, correram para Jimin. Amava-o, sabia disso, mas algo havia mudado. O encontro com Jeon abalara pilares que julgava imutáveis.
Levou a mão esquerda até a pulseira presa ao braço, e um sorriso triste se formou em seus lábios ao recordar-se da inscrição.
"Para que te recordes que te amo em todos os idiomas."
— Eu não sei o que fazer... — sussurrou, antes de regressar ao castelo pela entrada dos fundos.
Dessa vez, porém, não encontrou o habitual silêncio. O local estava repleto de rostos atentos, carregados de tensão. Namjoon foi o primeiro a levantar-se, pedindo em tom grave:
— Precisamos conversar. —
Surpreso, Tae apenas acenou e seguiu o beta até o quarto que dividiam. Lá dentro, encontrou também Seokjin. Sentaram-se frente a frente, e Namjoon pareceu lutar contra as palavras antes de enfim soltá-las.
— Tae, não sei bem como começar... mas eu e Seokjin... estamos juntos.
Um sorriso genuíno, quase infantil, iluminou o rosto do ômega.
— Estão namorando? — perguntou animado.
Os mais velhos assentiram, e Jin, corando, completou:
— E... terás um irmãozinho, Taehyung. Estou grávido.
Os olhos do jovem se arregalaram, um grito alegre escapou-lhe da garganta, e logo correu para abraçá-los.
— Um irmãozinho! Hyung, eu vou ter um irmãozinho! —
Em seguida, curvou-se diante de Jin, pedindo permissão com um olhar suplicante. Quando recebeu o aceno positivo, tocou a barriga ainda lisa com uma reverência terna, como quem acaricia um tesouro sagrado.
Mas a alegria foi interrompida quando uma criança atravessou o quarto, enroscando-se nas pernas de Tae.
— Tio Taetae, preciso falar contigo! —
Ele a pegou nos braços, mas a pequena, de imediato, rosnou ao ver Jimin se aproximar.
— Não quero ir com ele! Jimin é mau! —
O alfa estacou, surpreso com a acusação. Tae, sem compreender, tentou acalmá-la.
— Ele não é mau, meu anjo. — disse, mas a inquietude da criança o deixou com um pressentimento sombrio.
Mais tarde, no jardim, Yoongi se aproximou com os olhos vermelhos de tanto chorar.
— Tae, estou envergonhado... mas preciso confessar-te algo. Traí tua confiança... beijei alguém, e juro que não queria ferir-te. —
As palavras mal haviam saído de sua boca quando Jimin surgiu, segurando possessivamente a cintura de Taehyung.
— Amor, estás bem? Vamos ver as rosas para o nosso casamento. —
O brilho galanteador em seu sorriso parecia ocultar garras invisíveis. Tae tentou retomar a fala de Yoongi, mas foi interrompido.
— Ele não tem nada a dizer. Não é assim, Yoongi? — forçou Jimin, sua voz grave, pesada como uma ordem. O ômega mais velho, vencido pelo medo, suspirou e assentiu, sufocando a verdade que desejava gritar.
Hoseok, que até então observava à distância, apertou os punhos até as veias saltarem. Seu peito arfava em fúria contida. Ver Yoongi rebaixar-se ao silêncio, cedendo ao peso da manipulação de Jimin, feriu-lhe o coração como uma lâmina. Os olhos de Hoseok, antes calorosos, ardiam de indignação.
"Como ousa? Como ousa roubar-lhe a voz? E ainda mentir diante de Tae com tamanha audácia?"
Seus lobos interiores rugiam, pedindo sangue, e só o respeito por Taehyung o impediu de avançar sobre o alfa naquele instante. No entanto, jurou em silêncio que não permitiria por muito mais tempo tal engano.
Tae, por sua vez, desviou o olhar de Jimin. Seu coração pesava em confusão. Ainda o amava, mas havia uma distância crescente, uma sombra que lhe roubava o fôlego.
— Estou confuso, Jimin. Amo-te, mas sinto-te distante. —
— Estava apenas com preocupações, mas agora tudo está claro. — insistiu o alfa, segurando-lhe o rosto para forçar-lhe um beijo.
Taehyung desviou, envergonhado.
— Depois, veremos as rosas. —
O sorriso de Jimin alargou-se, mas Hoseok, ao fundo, via apenas veneno por trás daquela máscara de ternura. E seu coração queimava com a certeza de que aquela mentira, cedo ou tarde, teria de ser arrancada à força.
E ainda assim, Taehyung não percebia a extensão da armadilha. Apenas sentia, no fundo do coração, que a cada sorriso de Jimin, algo em si se quebrava.
E o presságio parecia claro: a noite breve de ternura nos braços de Jeon seria apenas o prelúdio de uma tempestade.
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The Masked Slave
Fiksi Penggemar[Reescrevendo] No reino antigo, o Jovem Rei Jeon Jeongguk, embora possuidor de coroa e riqueza, levava vida monótona ao lado de sua esposa, cuja presença lhe era morna e costumeira. Até que, num dia que não se lembra, apareceu em seus domínios um se...
