XXVII

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Taehyung sorria largo, conquanto os pés se detivessem ante os altos muros do paço real de Seul, que se erigiam diante de si como velhos titãs de pedra. O vento da tarde agitava-lhe os longos cabelos, trazendo-lhe à memória os muitos dias de viagem e o sabor agridoce de sua fuga. Ao seu lado, o ancião que lhe dera guarida nos ermos caminhos também se deteve. Fôra homem de poucas falas, mas de coração generoso; escolhera a vereda mais longa apenas para conceder ao jovem ômega conforto, companhia e proteção contra os perigos da estrada.

- Aqui finda meu caminho, rapazinho. - murmurou o velho, apoiando-se em seu cajado gasto. - Deveis seguir sozinho, pois eu rumarei a Busan, onde mora minha filha.

Taehyung inclinou-se em reverência, e os olhos umedeceram-se de gratidão.
- Agradeço-vos, bom vovô. Deus vos guarde por vossa bondade.

Volvendo-se ao filho, que a seu lado caminhava trôpego com as perninhas curtas, acrescentou com doçura:
- Dizei adeus ao senhor Kwan, Jeongwoo.

O pequeno alfa, de faces coradas e olhar vivo, ergueu a mãozinha, acenando em gesto pueril:
- Tchau, vovô! - disse com a voz infantil que soava como canto de pássaro.

Logo, porém, voltou a enlaçar-se às pernas do pai, escondendo o rosto contra o tecido do hanbok surrado. Taehyung riu baixo e acariciou-lhe os cabelos macios. O coração batia-lhe apressado; os muros do paço eram-lhe familiares e ao mesmo tempo carregados de memórias dolorosas.

Enquanto avançavam pela estrada de pó que conduzia à entrada dos domínios reais, muitos olhos se pousaram sobre eles. Soldados, servas e camponeses detinham o passo para contemplar aquele moço de beleza rara - tez alva, traços finos, porte elegante - trazendo ao colo um infante tão formoso que parecia talhado pelos deuses. Murmurava-se entreolhares, pois não era comum que um ômega viajasse assim, só e com criança ao colo.

Mas o pequeno, em natureza de alfa, não se deixava intimidar: rosnava baixinho sempre que algum olhar se demorava demasiado sobre seu omma, mostrando os dentinhos de leite como se já fosse fera pronta à defesa.

- Ah, meu amorzinho... por que essa carinha fechada? - Taehyung perguntou, inclinando-se para fitá-lo. - Quereis que vos carregue em meu colo de novo?

O infante, emburrado, fez beiço e respondeu entre resmungos:
- Num quelo... olhando vuxe. Omma só meu!

E enlaçou-se com força às coxas do ômega, possessivo.

Taehyung, rindo-se em brandura, tomou-o ao colo novamente. O pequeno aconchegou-se contra o peito do pai, agarrado a um ursinho de panos gasto, cujas costuras estavam ornadas de pequeninas flores bordadas a fio dourado. Era presente de Baekhyun, padrinho da criança, que passara noites a costurar o brinquedo em segredo.

- Vosso avô, , decerto me matará quando vos conhecer... - gracejou Taehyung em voz baixa, beijando-lhe os cabelos.

E assim adentrou o moço pelos fundos do paço, temeroso de que Lalisa, se acaso o visse, o mandasse a exílio ainda mais distante. Transpôs os portões de serviço e deteve-se um instante, aspirando fundo o odor que lhe era tão familiar: madeira encerada, pão recém-assado, ervas e incensos queimados ao cair da tarde. O coração quase lhe fugia do peito; estava, enfim, de regresso.

Não tardou, e duas pequenas figuras atravessaram-lhe o caminho, correndo entre as pernas do ômega. Um era Yohan, garoto traquinas que bem conhecia. A outra, uma alfa menina, disputava com ele uma boneca de pano, puxando-lhe as tranças. Logo atrás vinha Yeri, já moça em flor, que ao avistar Taehyung parou estupefata.

- Tio Taetae?! - exclamou, e num ímpeto lançou-se-lhe em braços, chorando e beijando-lhe o rosto.

Jeongwoo, porém, rosnou alto, apertando-se contra o pai.
- Xai meu omma! - gritou, tentando afastar a prima.

- E quem é este fofinho? - indagou Yeri, sorrindo ao ver o menino, tentando segurar-lhe as mãozinhas.

- Nau xo fofo! Xo fote! - resmungou o pequeno, escondendo o rosto contra o ômega.

Taehyung, rindo baixinho, acariciou-lhe os cabelos.
- Este é meu filho, Kim Jeongwoo. Saudai vossa prima, filhinho.

Mas o menino, teimoso, limitou-se a mostrar a língua, possessivo como pequeno leão.

Yeri, de olhos arregalados, murmurou em espanto:
- Tende um filho, titio?! Céos! O tio Jimin sabe? Por ventura é dele?!

A pergunta fez Taehyung empalidecer. Rapidamente atalhou, desviando o assunto:
- É longa estória, donzela. Dizei-me, onde jaz Joonie?

- No mercado, com tio Seok e nossa omma. - respondeu a moça.

- Pois bem. Guardai segredo, não lhes digais nada: quero surpreendê-los. - pediu o ômega, pondo o dedo aos lábios.

Yeri acenou, cúmplice, contendo a curiosidade.

À noite, quando todos retornaram, a sala encheu-se de risos e vozes. Yuju cantava canções suaves, Jin praguejava pelo pote de biscoitos vazio, e Namjoon ralhava como sempre. Ao abrir a porta do antigo quarto de Taehyung, porém, o beta quedou-se imóvel.

- Surpresa! - exclamou Taehyung, erguendo-se com o pequeno ao colo.

Namjoon correu a abraçá-lo, e tão forte o apertou que quase lhe faltou o ar.
- Céos, Taehyung! Quanto vosso pai sentiu vossa falta! Onde estivestes? Por que não destes sequer sinal?

Antes que o ômega pudesse responder, um rosnado pequeno os interrompeu:
- Soltai meu omma! - ordenou Jeongwoo, os olhos faiscando como brasas.

Namjoon olhou-o confuso, e murmurou, incrédulo:
- Omma...?

Taehyung baixou os olhos, a voz tremendo.
- Sim. É meu filho. A estória é longa... mas juro que vos contarei.

Namjoon o escutou em silêncio, o coração apertado, prometendo esperar a confissão.

Mais tarde, em segredo, Taehyung tomou a bandeja de jantar destinada ao soberano e, de mãos trêmulas, abriu as portas do aposento real. Lá estava Jeon Jeongguk, sentado, coberto apenas por manto leve. A luz das tochas desenhava-lhe o corpo como mármore vivo.

- Alteza... - murmurou Taehyung, curvando-se, a voz embargada.

Jeongguk ergueu-se de súbito, como quem vê miragem de sonho perdido.
- Taehyung... é possível? - sua voz quebrou-se em emoção.

O manto escorregou-lhe dos ombros, revelando o peito nu. Avançou um passo, os olhos marejados.

Mas então, como sombra inoportuna, adentrou o aposento uma concubina ômega, meio despida, os cabelos soltos, sorrindo sedutora.
- Amor... hoje serei eu a escolhida?

O coração de Taehyung estalou em silêncio. Um sorriso triste formou-se-lhe nos lábios, e sem dizer palavra voltou-se para sair.

- Espera, Tae! - clamou Jeongguk, a voz rouca de súplica.

Mas já era tarde. O ômega partira, e no íntimo sabia que precisava ocultar a verdade: ninguém poderia saber que o pequeno Jeongwoo era sangue real, filho de Jeon Jeongguk.

The Masked SlaveOnde histórias criam vida. Descubra agora