Desde o instante em que recebera os prudentes conselhos de seu tutor Namjoon, o jovem ômega passou a seguir-lhes com diligência quase monástica. Não mais ousava aventurar-se às margens do rio, tampouco deambular pelos recantos do reino sem propósito claro, ciente de que a observância de tais ordens manteria-lhe seguro do olhar penetrante do soberano. Lalisa, a rainha, de início desconfiada, encontrara-se, entretanto, dissuadida pelos relatos de Taehyung acerca dos preparativos de enlace com Jimin, e logo se conteve, compreendendo que o noivado avançava inexoravelmente.
Numa manhã clara, a pequena Yeri, uma alfa de apenas dez anos, auxiliava sua mãe ômega, serva dedicada da corte. Observando o movimento e a gravidade da tarefa, a menina aproximou-se de Taehyung com olhar decidido:
- Taetae oppa, concede-me a honra de instruir-me? É deveras árduo transportar estas bandejas sem que o conteúdo se esbalde - disse, a voz carregada de timidez e esperança.
- Com prazer, minha jovem princesa - respondeu Taehyung, a voz suave e reverente. - Vinde, e indicai-me por qual caminho devemos conduzir tão grandiosa comitiva de mantimentos. - Com destreza, tomou a bandeja maior, deixando à menina apenas uma pequena com jarra de chá, e ajustou os ombros para proteger a carga de qualquer oscilação.
- Ao quarto do rei - disse Yeri, a voz tingida de preocupação -, ele se encontra deveras irritado; minha mãe sofre e afirmou que meu irmãozinho pesa sobremaneira em sua saúde.
Tais palavras trouxeram ao coração de Taehyung uma pontada de temor. O quarto do rei! A simples menção evocava lembranças do aroma intenso, da presença avassaladora, do olhar vermelho e implacável que tão vividamente se gravara em sua mente.
- Tio Taetae, ei, tio! - chamou a pequena, agarrando sua manga, recebendo-lhe um sorriso tímido e comedidamente envergonhado.
- Certo, minha pequena, caminhemos com presteza. Não desejamos que o senhor se encontre ainda mais irado, compreendeis? - replicou Taehyung, inclinando-se à altura da menina, que assentiu com determinação.
O caminho até os aposentos reais, embora curto em termos físicos, alongava-se à percepção de Taehyung. Cada pedra, cada tapeçaria, cada sombra lançada pelos candelabros de ferro retorcido evocava-lhe a presença do rei: o aroma, o peso da autoridade e o desejo ardente que permanecia suspenso no ar, mesmo na ausência de Jeon. As mãos do jovem tremiam levemente, e um suor frio escorria-lhe pela testa, enquanto o coração palpitava com força desordenada.
Ao adentrarem os aposentos, Tae suspirou de alívio ao constatar que o rei não se encontrava presente.
- Senhor Jeon, vossos desjejum está servido. Necessitais de algo mais? - perguntou Yeri, a voz doce e clara a ecoar nas paredes de pedra fria. Taehyung permaneceu imóvel, temendo que a mera menção do rei pudesse invocar sua presença súbita.
Foi então que a voz grave do alfa soou por entre as paredes, firme e impositiva:
- Está tudo em ordem. Retirai-vos, Yeri. - O tom não permitia réplica, e a menina retirou-se com passos ligeiros, seguida de Taehyung, ambos ilesos, mas ainda tremendo por dentro.
Enquanto os jovens escapavam, Jeon permanecia imerso em pensamentos sombrios. O aroma de Taehyung, ainda perceptível nos aposentos, agitava-lhe a mente e o coração em igual medida. Sentiu a ausência do jovem como fome que jamais poderia saciar, cada dia sem contato tornando-se tortura. Diferente de sua previsão, o ômega não mais frequentava o rio; o rei pressentiu a paciência necessária, mas a fúria e o desejo permaneciam intensos.
Taehyung, entretanto, caminhava satisfeito com a organização de seu enlace distante. O casamento com Jimin estava marcado apenas para daqui a dois meses, tempo suficiente para planejar os detalhes e assegurar que nenhum encontro proibido viesse a perturbar a paz de seu coração. A expectativa e a felicidade transbordavam-lhe, ao saber que o noivado avançava sem obstáculos imediatos.
- Pretendo que nos casemos logo após o aniversário do rei - disse Jimin, acariciando com suavidade os fios platinados de Taehyung, depositando-lhe um selar casto na fronte -. Sabeis bem que nada se deve celebrar às vésperas de festividade real; o dia é próximo, e apenas pouco mais de dois meses nos separam do enlace.
- Eu sei bem - replicou Tae, manhoso, recostando a cabeça no peito do amado -, mas por minha vontade casaríamo-nos hoje mesmo, sem trajes pomposos, sem festas, apenas nós e nosso amor.
- Falta ainda tempo, pequeno meu - disse Jimin, sorrindo largo e apertando-lhe as mãos com firmeza -, não sejais precipitado. A paciência será nossa aliada.
O dia transcorrera entre carícias delicadas e selinhos tímidos, pois Taehyung desejava que o amor entre ambos fosse puro, sem pressa, mantendo a chama do desejo contida e saudável até o momento certo.
- Amanhã partirei para Busan - anunciou Jimin, depositando um suave selar nos lábios do jovem ômega antes de retirar do bolso uma pulseira adornada com pequenas pedras coloridas -. É mister que eu informe meus parentes do enlace iminente, porém retornarei tão logo possível.
- E eu estarei sempre convosco - disse Tae, com lágrimas a bordar-lhe os olhos -. Cada cor desta pulseira simboliza o amor em todas as línguas que conheço. Sempre que a contemplardes, lembrarei que vos amo de todas as formas possíveis.
Despediu-se do amado e retornou aos afazeres, brincando com o anel que carregava em lembrança de sua mãe. Entretanto, o destino, caprichoso e implacável, resolveu testar-lhe a sorte: ao atravessar um corredor silencioso da cozinha, esbarrou inesperadamente em Jeon Jeongguk.
- Perdoai-me, senhor - disse Taehyung, retirando-se com presteza, a voz trêmula e o corpo tenso, sentindo a presença inconfundível do rei.
- Esta voz... este aroma... - murmurou Jeon, voltando-se para observar, mas o jovem já havia desaparecido, ágil como sombra que se esgueira pelos corredores.
Em sua pressa, Taehyung não notou que o precioso anel caíra ao chão. Entre o silêncio do corredor, Jeon avistou o brilho da joia deslizar até seus pés. Um sorriso largo e predatório curvou-lhe os lábios, e, ao segurar o pequeno objeto entre os dedos, murmurou:
- Enfim, verei-vos novamente... - contemplou o anel por instante, absorvendo cada nuance da lembrança que lhe trazia, antes de prosseguir em seu caminho, com o coração repleto de desejo sombrio e paciência calculada.
O corredor do castelo, envolto em sombras oscilantes de tochas de ferro, parecia vibrar com uma tensão quase palpável. Cada suspiro, cada leve movimento, cada aroma parecia amplificado, como se os próprios muros antigos conspirassem para revelar segredos e encontros proibidos.
Taehyung continuava seu trabalho cotidiano, ciente de que cada passo poderia ser observado, farejado ou sentido pelo rei, cuja presença, ainda que ausente, se fazia sentir intensamente.
Enquanto isso, Lalisa supervisionava discretamente os servos, consciente do temperamento irascível de Jeon. Sabia que Taehyung, embora protegido por Jimin e Namjoon, permanecia vulnerável a qualquer deslize ou descuido. O castelo, com seus corredores estreitos, janelas altas e paredes de pedra fria, respirava história e intriga, e a cada dia se tornava palco de tensão silenciosa.
Yeri, a pequena alfa, aprendia com Taehyung a servir à corte com graça e presteza, enquanto a inocência infantil contrastava com o perigo e a tensão que permeavam o castelo. Cada gesto do jovem ômega, cada sorriso ou ajuste de postura, carregava o peso do perigo e a delicadeza de seu ofício.
O anel, deixado por descuido de Taehyung, tornou-se símbolo silencioso de uma conexão invisível entre ele e o rei, lembrando Jeon que, embora afastado, o jovem ômega jamais se tornara distante de seu desejo sombrio e inexorável.
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The Masked Slave
Fanfic[Reescrevendo] No reino antigo, o Jovem Rei Jeon Jeongguk, embora possuidor de coroa e riqueza, levava vida monótona ao lado de sua esposa, cuja presença lhe era morna e costumeira. Até que, num dia que não se lembra, apareceu em seus domínios um se...
