Capítulo 25

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Uma leve batida na porta, trouxe Bruno a realidade. Deixando se livro num canto foi abriá-la. Um sorriso de orelha a orelha apareceu no rosto de Bruno brindando a chegada de dona Milagres.      

Aquela bondosa e serena velhinha tinha o dom de transformar a aridez das angústias de Bruno num terreno fértil e vicejante. Era como se tudo se transformasse quando dona Milagres estava por perto: até mesmo aquele quarto, sombrio e frio, ganhava luz e calor com a presença dela.            

— Que bom lhe vê dona Milagres! — Disse ele manifestando toda sua alegria de poder compartilhar com ela algumas de suas aflições.      

— Espero não está lhe atrapalhando.  Dona Milagres falou ao observar o livro de gravuras aberto sobre a cama.      
— Em absoluto! Sua companhia é muito agradável. É um prazer lhe receber em nosso quarto.      

Satisfeita por saber que as palavras de Bruno eram sinceras, ela entrou e sentou-se na cabeceira do leito de Sophia.      

As mãos de dona Milagres quase podiam tocar o livro, mas, por respeito a Bruno, ela deixou a curiosidade de lado. Embora tivesse uma vaga ideia do que tratava aquele pequeno livro, não o tocou: Bruno era um homem muito transparente e ela não queria parecer grosseira invadindo a privacidade dele.      

— Vejo que estava lendo.      

— Apenas folheando... Eu sei de cor e salteado essa história.      

Quebrando todas as regras da boa educação, ela não resistiu a curiosidade e pediu.      

— Posso vê-lo?      

— Claro! Fique à vontade.      

Concentrada e com respeito à história de Bruno, ela folheou o pequeno livro, detendo-se principalmente nas gravuras. A exatidão dos personagens retratados era impressionante: de uma delicadeza surpreendente e traços perfeitos.      
Interessada em cada personagem, ela o questionou.      
— A obra é sua?      

— Sim. — Respondeu.

— Não é a melhor história do mundo, mas é minha a história.      
— Você desenha muito bem. Estou impressionada. — Observou, ela. — O nome dos personagens é bem diferente: Eu diria impactante! ... Praga me parece um nome tão forte para um garoto que à primeira vista, me pareceu tão dócil e tão bom.      
O comentário espontâneo de dona Milagres arrancou um sorriso brejeiro de Bruno. Dona Milagres não era a primeira pessoa a questioná-lo quanto à origem do nome de seus personagens. Embora os nomes deles fossem esquisitos ou até mesmo impactantes, como ela mencionara, havia um quê de mistério e um pequeno toque de realidade em torno de cada um dos nomes.      

Bruno não pretendia necessariamente contar nenhum conto de fadas, onde todos os finais eram felizes, mas, sim, mostrar através de sua singela história, que nem tudo na vida eram flores: sempre existem os espinhos.          
Depois de pensar na melhor resposta que satisfizesse a curiosidade de dona Milagres, ele respondeu.      

— Na verdade não são propriamente nomes e sim, apelidos.      

— Que interessante! Suponho que cada nome tenha a ver com a personalidade de cada personagem.      

— É mais ou menos isso... Embora, como a senhora observou, Praga não se encaixe exatamente nesse perfil.      

Depois de folheá-lo atentamente, devolveu o livro de gravuras a Bruno, sem lê-lo.      

— Observei que seu livro está inacabado. Quando pretende termina-lo?      

— Pretendo terminar quando sair daqui. — Disse, ele. — Sophia gosta muito de ouvir essa história. Em especial, ela gosta da Princesa... Minha filha me disse que vai me ajudar a terminar a história. — Acrescentou com um sorriso nostálgico. — Mas, pelo andar da carruagem, a história está fadada a não ter fim, ou melhor, talvez ela não tenha o final que minha filha desejava.      

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