Se de um lado, a família Lawrence passava por um verdadeiro redemoinho de emoções, sem conseguir absorver ao certo o que estava acontecendo; do outro lado, Bruno, satisfeito por finalmente retornar para o seu país, arrumava suas malas e a da falante Sophia; que hora tagarelava, que hora cantarolava embalada pelo ritmo da cirandinha.
Empolgado com o clima festivo de sua filha, Bruno foi contagiado pelo entusiasmo dela, e, juntos, cantarolavam, embalados no mais profundo sentimento de liberdade.
Cansada de cantar, Sophia parou e procurou na mochila de seu pai, lápis para colorir. Ao encontrar o retrato que seu pai pintou de dona Milagres, ela comentou.
— Dona Milagres é tão boa! Eu gosto muito dela.Surpreso por sua filha ter mencionado o nome de dona Milagres, ele perguntou confuso.
— Como você sabe o nome de dona Milagres?
— Ora papai, todos os dias dona Milagres vinha brincar comigo. Até parece que o senhor é cego, que não viu!
Sophia respondeu concentrada em seu desenho para surpresa de seu pai.
Num impulso, Bruno pegou sua filha no colo e se dirigiu apressado ao quarto de dona Milagres. Ela certamente tinha a resposta para suas indagações, pois, ele não se lembrava de Sophia tê-la visto enquanto estava internada naquela ala, muito menos ainda de elas terem brincado juntas. Outra questão que o inquietava bastante era o fato de Sophia saber o nome de dona Milagres; uma vez que, ela passava praticamente todo o dia dormindo, sob o peso da medicação... Como era possível?!
À medida que Bruno caminhava em busca de respostas, fragmentos de suas conversas com dona Milagres vinham à tona. Curiosamente, dona Milagres parecia conhecê-lo muito bem. Claro que ela justificava essas pequenas coincidências com o fato de ele falar muito alto. Contudo eram muitos detalhes que nem mesmo seu filho conhecia e que ele nunca ousara falar com ninguém. Até mesmo a conversa que tivera com a senhora Lawrence no dia em que fora desmascarado fora vago, sem muitos detalhes. Por fim, dona Milagres conhecia toda a história da família Ferrero: Desde a omissão de Júlia Ferrero até a violência sexual que a irmã de Bruno sofrera.
Mesmo só se dando conta agora que era muita informação a ser processada, era até aceitável, já que em meio ao seu desespero poderia ter falado além do necessário, contudo, Sophia conhecer dona Milagres era um fato totalmente novo para ele: Inexplicável! Por mais que tentasse não conseguiria absorver essa informação e dona Milagres seria a pessoa ideal para esclarecer aquela história, no mínimo, irreal.
Ao aproximar-se a passos largos do quarto de dona Milagres, viu uma jovem enfermeira deixando o local. Antes que ela se afastasse consideravelmente, ele a deteve.
De posse de seu tradutor, já que Michael não estava mais no hospital para auxiliá-lo, pediu.
— Por favor, enfermeira! Posso falar com dona Milagres?
Apreensiva, a jovem disse.
— Não há ninguém aqui com este nome.
— Dona Milagres está internada neste quarto, ou pelo menos estava. Eu a visitei nos últimos dias.
Bruno falou a princípio com segurança, contudo, a incredulidade estampada no rosto da enfermeira o fez duvidar de suas próprias palavras. Quanto ao fato de dona Milagres ser uma mulher misteriosa, Bruno não tinha dúvidas, porém descobrir que ela nunca habitou naquele quarto não fazia o menor sentido para ele: Até por que, ele já a visitara naquele quarto algumas vezes.

VOCÊ ESTÁ LENDO
Ciranda de Ilusões
General FictionHá uma velha ciranda cantada aos quatro ventos que ressoa o caminho do bem e do mal, como indicativo do caráter humano. Não importa exatamente a sua história, seus dramas e o contexto em que se insere, pois a dualidade entre o certo e o errado sempr...