Capítulo 24

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— Entre Bruno.      

Dona Milagres disse ao abrir a porta ao amigo.      

— Essa ala já não é a mesma sem você.

— Como está Sophia? Ela está melhor? Soube que ela está tendo progressos incríveis.       

— Com a Graça de Deus minha filha está melhorando. Se ela continuar assim, logo sairemos daqui.

— Respondeu Bruno, confiante que seu milagre se realizaria.      

— Isso sim é uma boa notícia. Fico feliz por você e por Sophia.

— A senhora falou compartilhando da mesma esperança de Bruno.

— Mas, lembre-se Bruno, que o fato de Sophia está melhorando de uma hora para a outra; não significa exatamente que ela esteja curada. — Acrescentou.      
Após alguns minutos de hesitação, ele observou.

— A senhora, apesar de seu nome, não me parece acreditar em milagres.      

Um largo sorriso iluminou o rosto sereno de dona Milagres. Quando ela se posicionou em relação ao comentário de Bruno, ele viu sabedoria nas palavras dela.      

— Apesar dos milagres está praticamente extinto nessa nossa geração; eu acredito neles... Contudo, você há de convir, que não existem milagres onde não há fé. O agir de Deus dependerá do tamanho de sua fé... No entanto, Bruno, se você olhar ao seu redor; verá que estamos cercados de milagres. Veja, por exemplo, Bruno: nessa noite muitas crianças nasceram. É o milagre da vida acontecendo diante de nossos olhos. Nós respiramos e exalamos vida aonde quer que estejamos: Isso é um milagre.      

— A senhora tem razão: a vida é um grande milagre; assim como toda a obra da criação.

— Bruno acrescentou em consonância com a visão de milagres da sábia senhora      

Apesar da expressão quase casual de Bruno, dona Milagres notou uma rusga de preocupação em Bruno. Certamente ele não foi procurá-la apenas para matar saudades. Tinha algo a mais, além de Sophia, lhe tirando o sono.      

— Não creio que você me procurou para falarmos em milagres... O que o aflige Bruno?      
— A indiferença de Michael me machuca muito. — Respondeu.      
 
— Observei em algumas de nossas conversas, que você tem dificuldades em lidar com a indiferença e a rejeição... Presumo que essa incapacidade em lidar com tais sentimentos seja resultado de seus relacionamentos conturbados.      
Dona Milagres observou atenta ao menor sinal de desconforto em Bruno. Como ele não deu sinais de que ela estava entrando em um campo pessoal, prosseguiu. — Você passou por uma sucessão de conflitos com sua... Enfim Bruno, como você se relaciona hoje com sua mãe? — Perguntou, após hesitar em levantar uma questão tão traumática para Bruno. Apesar de conhecê-lo há pouco tempo, ela sabia quanto à história de sua família o perturbava.      

— Não é fácil falar de uma mãe que durante toda a vida foi ausente — mesmo quando ela estava presente... Não pense que eu a condeno por isso. Minha mãe teve fortes motivos para agir assim. — Disse ele abalado. — Quando Hellen foi embora... Minha mãe se entregou a bebida — não que ela não bebesse antes, mas agora; mais do que antes. No fundo ela se sente culpada pelo abuso sexual que Hellen sofreu... Infelizmente, a bebida foi à maneira que ela encontrou de mascarar seu sentimento de culpa e de fugir de seus problemas... Quando sóbria — que, aliás, é raríssimo, ela costuma dizer que a bebida é um castigo por sua fraqueza em não denunciar o agressor de minha irmã... Hellen teve sua vida violada aos treze anos. O mais doído nessa história é o fato do autor dessa violência ter sido uma pessoa muito próxima a minha família.      

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