10. O Doutor

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Wilson olha para trás enquanto anda. Não há nada atrás dele, apenas o corredor frio e pálido da nave. Ele está decidido, o seu andar expressa até uma certa brutalidade. Ele caminha até o Laboratório e bate nas portas fechadas, as batidas ecoando pelo corredor. As portas se abrem.

- O que você quer? - pergunta Lucas, saindo do laboratório. As portas se fecham atrás dele.

Wilson o encara.

- Eu acho melhor se nós pudéssemos conversar lá...

- Não. - retruca o cientista.

Wilson assente, mas não está feliz com a resposta. Continua:

- Vamos lá, então. A Sol morreu.

- Suicídio.

Lucas não dá tempo para uma pausa. Ele só diz. Wilson o encara, seus olhos perfurando os de Lucas.

- Suicídio... - repete. - Mas é engraçado porque depois do suicídio... Você não saiu do seu... Casulo.

Lucas dá um sorriso irônico. A tentativa de piada de Wilson era, no mínimo, estúpida.

- Eu tenho muito o que fazer.

- E sabe muito também. - Wilson observa o sutil alerta na expressão irônica de Lucas. - O mecânico ouviu sua conversa com Sol.

Lucas engole em seco e dá um passo para trás, se afastando de Wilson. Wilson dá um passo à frente.

- O que você sabe, Lucas?

- N-n-nada... - responde o cientista.

- Nada? Porque o mecânico disse que você e Sol sabiam algo sobre... - Wilson olha ao redor, e seu tom de voz se torna confidente. - O exército.

Lucas aperta os olhos, confuso. Wilson espera uma resposta.

- E então?

- Eu não sei nada sobre o exército. - diz Lucas, passada a confusão. - Por que eu saberia algo?

- Porque a Sol sabia algo e veio falar com você. Se for algo sobre a Tenente Sara, ou qualquer outro militar, nós temos que saber também. Eles estão tomando a nave!

Lucas fica um tempo em silêncio. Ele parece dividido, quando fala:

- Wilson, eu não sei nada sobre o exército. E se fosse você, eu não questionaria a morte de Sol.

- Mas o que...

- Eu ficaria quieto. - interrompe Lucas. - E daria um jeito de ficar seguro. Se você tem medo de alguma coisa, se proteja.

Lucas se vira para entrar no Laboratório. Wilson o segura pelo pulso:

- Você não res... - Lucas se volta para ele. O modo como o cientista o olha faz Wilson o soltar. - Não importa. Eu vou descobrir.

Lucas entra e a porta começa a se fechar. Ele não olha para trás.

- Eu vou descobrir!! - grita Wilson, tremendo sem controle sobre sua raiva.

Na esquina entre os corredores, Ruth está parada, encostada à parede, ouvindo toda a conversa.



Léo e Tomas checam as antenas, chegando à conclusão de que Léo estava certo: não havia problema algum nelas. Eles voltam para dentro da nave, e enquanto tiram o capacete, Tomas pergunta à Léo qual seria, então, o problema da comunicação. Léo não sabe. Talvez seja o software. Talvez seja um problema externo, e não com eles. Talvez toda a rede de comunicação da NewSpace tenha caído.

E então a voz de Sara soa nos comunicadores, chamando Léo na Administração. Hugo e Laura, que os esperavam, observam Léo caminhar para lá, sabendo sobre o que viria pela frente.

- Senta. - diz Sara, seca, quando ele entra na sala. Léo obedece. - Estou lhe dando uma advertência nível 3.

- O que?

- Você fez uma piada imoral e certamente antiética numa rede de comunicação geral, e a sua piada pode colocar em risco o bem-estar do trabalho em equipe. Além de claramente desrespeitar a minha imagem como liderança.

- E a imagem dos subordinados acusados de homicídio?

- Você gostaria que eu adicionasse desobediência à autoridade na sua ficha?

Léo a encara. Respira. Ele cruza as pernas, demonstrando tranquilidade, apesar do seu tom de voz nervoso.

- Não é assim que você vai facilitar as coisas com a equipe da NewSpace.

- Se você entende tanto sobre liderança, porque ainda é só o mecânico? - pergunta Sara.

Léo sorri, indignado, porém vencido. Assente e se levanta.

- Mais alguma coisa, Capitã?

Sara faz sinal para que ele vá. Assim que as portas se abrem, eles veem Ruth parada do lado de fora. Ela entra e espera as portas se fecharem atrás de si.

- Sim? - pergunta Sara.

Ruth conta sobre a conversa que ouviu. Léo saber da conversa. A indecisão de Lucas e o fato de não ter dito nada, apesar de aparentar saber algo. A raiva e objetividade de Wilson.

- Ele parece querer iniciar um motim... - sussurra Sara.

- Capitã... - diz Ruth. - É isso que estamos fazendo? Tomando a nave?

Sara encara sua segunda em comando:

- Que tipo de pergunta é essa?

Ruth engole em seco e contorce as mãos.

- Estou perguntando porque sei que você recebe ordens às quais não tive acesso. Mas... Na minha atual posição...

Sara se levanta.

- Estamos fazendo nosso trabalho, Ruth. - ela olha para Ruth, que se encolheu ante seu tom de voz. - Fique aqui e atenda qualquer chamado. Laura e eu vamos conversar com o Doutor.

AMONG US - A tramaHistórias para pegar e não largar. Descubra agora