Um lindo amor de verão

25 2 0
                                        

''Sarah, está tudo bem?''
Esther aparece na cozinha e estamos todos nos recuperando do que acabamos de ouvir.
''Ah...Tudo bem, tudo bem sim.''
Ela franze o cenho e me encara, ela sabe que algo está acontecendo mas é educada demais para me forçar a dizer algo.
''Então onde está o bolo, querida?''
Ai meu Deus, esqueci do bolo.
''Está aqui.'' Mari que é coberta de responsabilidade e nesse momento agradeço muito por isso, me entrega a assadeira de bolo.
''Obrigada querida.'' 
Ela esbarra em meu pai que vem em direção a cozinha.
''Tudo bem por aqui?'' Ele questiona.
''Perguntei o mesmo.'' Esther responde.
''O hospital ligou, perece que colocaram algum tipo de sonífero em sua bebida e como você já tinha bebido muito, causou um desmaio, mas vai ficar tudo bem.''
''Que bom.''
''Vamos descobrir quem fez isso à você, filha.''
''Sim, pai.'' Não pai, eu vou, você não, se eu puder evitar.
''Vamos comer esse bolo delicioso feito por minha mulher maravilhosa.'' Ele sorri genuinamente.
Ambos saem.
''Você vai contar para ele?'' Laura pergunta. 
''Claro.'' Hugo reponde.
Todos olham para ele.                               ''Quer dizer, você deveria.''
''Ela vai contar se ela quiser contar.'' Pedro responde.
''Pedro...''
''Não enche, Hugo, não é da sua conta.''
 ''Passou a ser depois que eu a tirei de lá, você não estava lá, eu estava.''
''Cala a...''
''Chega. Eu vou decidir o que fazer. Obrigada Yasmin, por ter contado, e obrigada Hugo, por me salvar, não tive a oportunidade de te agradecer.''
''Estou sempre aqui, Sarah, sempre.''
Pedro suspira, seu incômodo é nítido, não vou mentir, gosto que ele se sinta incomodado.
''Vamos comer bolo.'' Faço a dissimulada, como se não tivesse nem ligado. Minha deusa interior bate palmas.
Sentada no sofá da sala observo todos ao meu redor e a forma como se comportam, eu nunca espero o pior das pessoas, nunca acho que podem fazer o que fizeram. Talvez essa seja uma dessas lições que a vida nos ensina, as pessoas são sim capazes. Minha vó dizia que a vida ensina de duas formas: no amor e na dor. No amor quando se adquire experiências legais, quando se aprende sem precisar sofrer no processo. Na dor quando no processo há sofrimento, experiências ruins, necessárias, mas ruins. Dessa vez aprendi na dor, entendi que nem sempre deve-se esperar coisas boas, nem sempre devemos esperar o melhor das pessoas, porque este é o mundo real, não há clichês no estilo Netflix os quais no final tudo se resolve, nem sempre tudo se resolve, as vezes apenas lidamos com a situação e deixamos que o tempo leve. Pessoas ruins existem, situações ruins existem, é assim que é, é assim que se vive.
''O povo aqui é um tanto agitado, não é?''
Mari me tira de meus devaneios.
''Mais do que estávamos acostumadas, pode ter certeza.'' 
''Vocês deviam vir mais vezes, tem bastante coisa legal para fazer por aqui.'' Laura entra no assunto.
''Com certeza viremos.'' Liz responde. Depois de conhecer o Rio ela vai querer vir comigo sempre.
''Sarah, o que rola entre você e Hugo, em?'' Agradeço por Mari ser racional e responsável, faz o que deve fazer sempre, mas ás vezes ela me questiona sobre coisas que não sei a reposta e não gostaria de responder.
''Nada, ele só é muito gentil.''
''Acho que ele é a fim de você.'' Liz diz.
''Eu também super acho.'' Laura diz no intervalo de sua mordida no bolo, já é o segundo.
''E Pedro morreu de ciúmes hoje''
''Achei que eu teria que separar uma briga.''
''Eu também. Mas era só o que estava faltando, mais um desastre.'' Respondo
''Pois é. Mas não seria tão ruim assim, dois garotos brigando por você, por essa eu não esperava.''
''Nem eu.''
''Sarah, não quis duvidar de você hoje, só queria ter certeza de que estivesse sendo justa.'' Mari pega em minhas mãos e diz. Sei que ela nunca teve a intenção de duvidar de mim, ela sempre é imparcial em situações as quais existem dois lados, sempre procura pensar antes de dizer, pensar antes no próximo, Mari é o tipo de amiga que controla a situação.
''Sei disso, não se preocupe.''
''Acho melhor irmos então, temos que voltar ainda hoje e prometemos para sua mãe que voltaríamos com ela.'' 
''Boa sorte então.''                                        ''O clima entre vocês ainda está ruim, né? Ela falou a viagem toda sobre você e sua péssima escolha com Pedro, ela está convencida de que ele não é bom pra você.''                                                  ''E eu estou convencida de que ela não decide mais com quem me relaciono, já me basta aquela história com o Guilherme, aquilo foi o auge.''
Rimos, mas no momento não foi tão engraçado assim, foi cruel, comigo e com o Guilherme, ela não tinha esse direito.
''Espero que fique tudo bem entre você e Pedro.''
''Eu também.''
''Sempre juntas, se lembra disso, não é?''
''Sempre juntas.''
Me despeço de todos e estou pronta para descansar, esquecer tudo isso e ficar em paz. Mas há algo que eu ainda preciso fazer, uma peça que falta no quebra cabeça.
Subo as escadas e caminho em direção a porta do seu quarto, está fechada. Bato uma vez e um silêncio dolorido paira sobre esta casa, sei que ele está do outro lado da porta, foram todos ao aeroporto e só restou nós, uma porta que nos separa e um silêncio ensurdecedor.
''Eu sei que está aí, Pedro.''
Nada.
''Por favor.''
Imploro por ele, é como estou me sentindo, é como meu corpo se sente nesse momento, implorando por sua presença.
Ouço seus passos firmes e determinados, ele sempre sabe onde vai. Ele destranca a porta e recua, eu abro e ele está deitado na cama, divinamente lindo, como se fosse um anjo, um anjo torto, como diria Drummond, mas é o meu anjo.
Vai, Sarah! Vai ser de Pedro nesta vida. É o que Drummond me diria.
Me aproximo e me sinto caminhando rumo à Ítaca, parece tão distante, uma caminhada cheia de obstáculos e sentimentos que doem, que confortam, que confundem e que me fazem perseverar, porque sei quem é meu porto, meu cais e minha linha de chegada, sei quem é minha Ítaca, é ele.
Sento ao seu lado na cama, ele está sem camiseta, confortável como sempre, admiro como ele se sente confortável de todas as formas e em todos os lugares com seu corpo. O meu corpo, o qual eu toco, apenas eu. 
''Trouxe isto.'' Entrego-lhe um embrulho pardo.
''O que é isso?'' Ele está se esforçando para não olhar em meus olhos.
''Só abre, Pedro.''
Gostaria com todo o meu ser de toca-lo, abraça-lo e ficar junto dele por quanto tempo eu puder.
Levanto e caminho para fora do quarto, se ele não me quiser mais, não quero estar em sua frente, olhando em seus olhos para descobrir isso.
''Fique por favor.''                                       Ouvir sua doce voz me pedindo para ficar transborda meu coração. Me transborda saber que aquele menino cheio de problemas e fantasmas do passado permitiu que eu entrasse em seu coração, uma porta já enferrujada e sem esperanças. Eu sou sua esperança, ele é a minha, e se não for ele, não sei quem será. E de coração, espero não ter que descobrir.
''Você quer que eu fique?''                       Um leve sorriso sai de mim, não quero força-lo a nada, mas o fato de ele me querer ao lado dele muda tudo.
''Quero.''
''Quando estive no hospital, pensei em todas as formas possíveis de pedir-lhe desculpas, de dizer o quanto eu o amo e o quanto me pertence, o quanto eu te pertenço. Sei que eu e você temos nossa própria forma de nos conectarmos, olhares, personagens, livros. E sei que a melhor forma de estabelecer uma conexão com alguém é através das palavras, mostrando-lhe que não importa quantos romances possam existir, o nosso sempre será o meu preferido. Quando tinha doze anos, minha mãe me deu um livro de presente, ela disse que romances aquecem nossos corações de qualquer problema que passamos, e eu li Capitães da Areia, um romance que aqueceu meu coração. Meu primeiro amor literário foi Pedro Bala, o personagem que você irá conhecer se ler, e eu sei que vai. Pedro Bala inundou meu coração de paixão, uma paixão impossível, pois Pedro Bala só poderia ser meu em meu coração, fora do meu coração e dentro da literatura ele era de Dora, o seu amor, e ele foi o amor de todas as outras meninas que leram e se apaixonaram por ele. Mas eu tive o prazer e sorte de encontrar o meu Pedro, não o Pedro Bala, só o Pedro, o Pedro que inundou meu coração de verdade, que me fez voar de paixão e amor, o Pedro que me ensinou e me conduziu, que navegou comigo e afundou em altos níveis de profundidade, e ele é meu, só meu e é real.
O que eu sinto por você, Pedro, meu Pedro, é real e inefável. Talvez você não saiba exatamente o significado da palavra inefável, como eu também não sabia até pouco tempo, talvez saiba porque você é melhor do que eu com as palavras, mas Inefável é o que não se pode ser expresso verbalmente, é indescritível e grande, profundo e complexo. Meu amor por você é grandioso e indescritível, é inefável.
Me Perdoe, Pedro, minha intenção jamais foi machuca-lo. Tenha um feliz aniversário de dezoito anos, comigo ao seu lado ou não, desejo que seja o mais feliz possível.''
Essa foi a carta que passei horas escrevendo e reescrevendo e dei-lhe junto de um exemplar de Capitães da Areia, para expressar o quanto eu realmente sinto muito por traí-lo e machuca-lo.
Não me importo se esse for apenas um amor da adolescência, um amor de verão, não me importo se vou ficar ao seu lado dois meses ou dois anos, me importa que ele esteja do meu lado agora, porque nesse momento é por ele que meu coração bate.

InefávelHistórias para pegar e não largar. Descubra agora