Por que raios eu não sei?

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O Natal está correndo bem, todos fingindo que não têm problemas ou preocupações para lidar e sentando em volta da mesa para celebrar.
A família de Laura está aqui, isso ajuda na distração, Alda como sempre não para de falar e o pai de Laura só escuta e concorda, meu pai costumava dizer que são os casamentos assim que dão certo.
''Sua lasanha está ótima, Sarah.'' Alda tagarela.
''Obrigada, o seu purê está divino também.''
''Posso te passar a receita qualquer dia desses, já que você gosta de cozinhar, Laura podia aproveitar que ainda restam alguns dias de férias e aprender com você.''
''Sarah vai embora depois de amanhã, mãe.'' Laura me ajuda na tarefa de fazer esse comunicado, o que eu agradeço porque sei que Alda não hesitaria em perguntar o porquê dessa decisão precipitada, e explica-la que roubei o carro do meu pai e fiquei bêbada não ajudaria no clima natalino.
''Entendo, mas você volta aos finais de semana, não é?''
''Volto sim, Alda, ainda vou dormir muito na sua casa.'' Rio para tentar deixar a conversa mais descontraída.
''Eu odiaria se não voltasse, gosto da sua companhia para Laura, não gostava daquelas companhias dela ano passado, Rafaela o nome daquela menina, não é filha?''
''É, mãe.'' Laura me olha querendo rir, gosto da companhia dela porque tudo fica mais leve, ela ri de tudo e eu também.
''Você já decidiu para qual faculdade vai, Enrico?'' Ainda é Alda quem pergunta, mas sinceramente, por mim está tudo bem, ou é isso, ou nosso clima mórbido.
''Eu penso em administração, penso em ajudar Miguel com a empresa no futuro, então penso em cursar alguma faculdade mais próxima, aqui no Rio mesmo ou no máximo em São Paulo.'' Ele me olha e eu sorrio, adoraria ter meu irmão por perto para me salvar do meu pesadelo.
''Apareceram algumas oportunidades de intercâmbio também para mim e Pedro, mas eu não sei se penso nisso agora.'' Ele termina. Intercâmbio? Por que eu não sei nada a respeito disso?
''E o que você pensa sobre isso, Sarah?''
Por que raios eu não sei que meu namorado cogita sair fora do país?
''Sarah?''
''Sim, é... Desculpa. Eu acho legal, uma boa oportunidade.'' Faço questão de olhar em seus olhos o mais firme que posso, ele sabe que não gostei da ideia de ser a ultima a saber. Eu sou a namorada, não deveria ser a primeira?
''Vocês duas ainda têm um ano para decidir isso, mas você já pensa em algum curso?''
''Eu penso em psicologia, mas nada definido ainda.'' Respondo.
''É um bom curso.''
''É mesmo.''
''Hoje vai ter aquele espetáculo de fogos na praça, nós pensamos em ir, por que não vamos juntos?'' O pai de Laura diz, de todas as vezes que estive na casa de Laura acho que não ouvi ele falar, não é uma coisa que ele ame fazer, eu acho.
''Eu acho uma ótima ideia.'' Esther concorda. Eu tinha planejado passar a noite com Pedro, mas vão nos obrigar a participar disso, então...
''O que acham disso, crianças?''
''Crianças, pai?''
''Eu já tenho dezoito e tenho carta, sabia?''
''Só porque você repetiu na escola.'' Pedro diz.
''Cala boca, Pedro.''
''Jovens adolescentes está bom?'' Meu pai só piora as coisas.
''Tudo bem, não está mais aqui quem falou.'' Meu pai responde ao ver nossas caras.
''Acho que seria legal todos irmos.'' Esther nos incentiva.
''Bom, então vamos todos juntos.''
Nenhum de nós concordou, mas sabemos que seremos obrigados a participar disso, então nossa opinião na verdade não conta muito.
''Preciso ir buscar os presentes no carro.''
''A chave está com o papai mãe.'' Laura responde.
''Então vou trazer a sobremesa para abrirmos os presentes juntos.'' Esther diz.
''Só eu que me sinto com cinco anos abrindo presentes ao redor da mesa?'' Laura pergunta.
''Não.'' Respondemos em uníssono.
''Vamos ter mesmo que ir nessa coisa de fogos?'' Pedro reclama.
''Minha mãe vai infartar se não formos todos juntos.'' Laura avisa.
''Meu pai também não vai gostar da ideia de não participarmos, e levando em consideração que ele já não está muito feliz comigo acho melhor eu ir.''
''Não precisamos ficar muito tempo, a gente da um perdido e minha mãe acoberta a gente depois.'' Enrico diz.
''Eu não sei o que seria da nossa vida se não fosse Esther.''
'Pois é.'' Respondo.
''Ok, vamos sentar na sala.'' Esther vem com seus presentes no braço.
Enquanto nos levantamos para caminharmos para a sala, pego no braço de Pedro.
Ele me olha franzindo a testa, como quem não entende.
''Algum problema?'' Ele cochicha, mesmo com todos indo para a sala não quero correr o risco de alguém ouvir.
''Por que eu não sei que o meu namorado pensou em ir morar fora?''
Ele franze a teste novamente, sei que não está confortável para falar sobre o assunto, ele sempre lança um sorriso desconfiado quando não se sente confortável, sei tudo sobre ele, o conheço por inteiro.
''Depois a gente fala sobre isso, pode ser?''
Ele pega minha mão para irmos, mas eu o paro novamente.
''Então é verdade? Você pensa em ir e nem falou comigo? Espera...você vai?''
Não entendo, como assim ele não falou comigo sobre uma coisa tão importante? Sobre uma coisa que muda nosso futuro, eu... Será que ele pensou em mim?
''Sarah, por favor, vamos falar sobre isso depois, é Natal.'' Ele me repreende, mas de um jeito diferente de todas as outras vezes, agora é mais sério, quase como uma exigência, sinto a firmeza em sua voz e obedeço sem responder.
Fico calada, mas incomodada.
Já deixei minha sacola de presentes no pé da árvore quando comprei os presentes. Sei que é clichê, mas facilita o trabalho de ter que ir buscar e gosto do clima natalino e de presentes embaixo da árvore.
Os pais da Laura, meu pai e Esther sentam no sofá, nós quatro sentamos no tapete felpudo da Esther.
''Quem começa?'' Alda pergunta.
''Começa você, mãe.''
''Tudo bem.''
Ela começa por ordem, primeiro para seu marido. Assistimos ele abrir e percebo que Alda realmente não tem limites, é o que estou pensando? Sim, uma algema.
''Meu Deus, mãe.'' Laura vai morrer de vergonha, e não julgo porque também morreria. Mas todos nós rimos pela brincadeira, mesmo que sem noção.
''Achei que poderia usar mais do que uma gravata.'' Ela ri e todos rimos juntos.
''Você acertou como sempre, querida.'' Ele está nitidamente vermelho de vergonha, mas depois das risadas se sente mais confortável.
''Meu Deus, alguém me enterra.''
''Tudo bem amiga, vamos esquecer esse momento, eu te prometo.''
''Eu não vou deixar você esquecer tão fácil assim.'' Enrico deixa claro.
Rimos muito, até minha barriga doer.
Os próximos abrem os presentes e descontraio, todos fizeram suas brincadeiras e pegadinhas tornando o clima mais agradável. É claro que as brincadeiras do restante não foram tão esclarecedoras como a de Alda, mas nós todos já nos acostumamos com seu jeito, então já não é tão estranho vindo dela.
Ganho um pijama de Alda, que fez uma leve pegadinha para que eu não precise mais emprestar os pijamas dela quando for dormir em sua casa, Laura é mais baixa e tenho quadris mais largos, então seus pijamas não servem para mim, e como todas as vezes que dormi lá esqueci de levar o meu, tive que emprestar de sua mãe. Ganhei um porta retrato do meu pai com uma foto nossa de quando eu era pequena, provavelmente de meses antes de ele nos deixar, eu nunca tinha visto aquela foto, restaram poucas depois que minha mãe as jogou fora, fiquei feliz em ter uma lembrança feliz daquela época para guardar. Esther me deu um vestido longo com abertura nas pernas, é elegante e sexy ao mesmo tempo, assim como tudo o que ela veste, eu amei. Laura me deu um batom vermelho me prometendo que vai realçar minha beleza para que eu não fique com cara de cansada nas festas, a forma como minha amiga exalta minha beleza é bem peculiar, mas agradeço porque já vi Esther comprando um batom dessa marca e não é nem um pouco barato. Enrico me dá um par de brincos iguais ao seu, ele tem um em uma orelha, é apenas uma argolinha preta, mas ele disse que é o símbolo da nossa irmandade e achei muito fofa a forma como ele me acolhe de todas as formas, eu realmente amei.
Pedro me entrega uma caixinha, sei como ele odeia ser o centro das atenções, então não olha para ao redor enquanto fala comigo. Para mim não faz diferença, porque quando ele chega perto é como se não estivesse ninguém, como se fossemos só nós.
Ele não tira os olhos de mim enquanto abro e isso me faz ficar um pouco nervosa, enquanto desembrulho percebo o olhar de todos em nós, é realmente desconfortável.
''É perfeito.''
''Você gostou?''
''Amei.''
''Vem, deixa que eu encaixo para você.''
É um pingente para o colar que ele me deu, que já possui um pingente de onda e um de coração, eu nunca tiro desde que ele me deu, e agora menos ainda, está escrito INEFÁVEL. São três pingentes especiais, a onda que representa nossos primeiros encontros e o mais lindo de todos, quando ele me levou para ver o mar, o coração que representa a forma como somos entregues um para o outro, de coração e alma. E agora o INEFÁVEL, que representa o quão indescritível nosso amor é.
Ele coloca meu cabelo para frente com toda delicadeza, com toda seu carinho e retira meu colar para encaixar o pingente, e recoloca-lo em meu pescoço beijando minha nuca.
''É perfeito, obrigada.''
Ele beija minha testa em sinal de carinho e percebo que em respeito a todos que estão olhando e que eu esqueci que estavam aqui, é sobre isso, sobre esquecer o mundo a volta.
Esse presente incrível e com tantos significados faz com que o meu se torne tolo. Sou péssima em dar presentes e ele me deixou mais uma vez para trás com suas incríveis habilidades.
''O meu é tolo perto do seu.''
''Você sabe que nem precisava, Sarah, qualquer coisa vinda de você me deixa feliz.''
Entrego para ele a caixa de presente, eu não tinha ideia do que dar para ele, ingressos para jogos e canecas de time me pareceram clichês demais e lembrei que ele usa seu All Star preto em todas as ocasiões, inclusive agora. Quando a moça do caixa foi embrulhar encontrei na vitrine uns pingentes para colocar em pulseiras ou colares, mas tive a brilhante ideia de encaixar um pingente de onda, como o do meu colar, no entanto bem menor, quase não dá para ver a não ser que alguém diga, mas me pareceu significativo, uma coisa só nossa, assim como o meu colar, algo que tenha um significado, que ele olhe e se lembre de mim.
''Está brincando? É perfeito, Sarah, assim como tudo o que você faz.''
''Coloquei esse pingentinho pra você lembrar de mim, mas se não achar legal pode tirar, eu super entendo.''
Me sinto uma tola com medo de que ele pense que foi um péssimo presente, que ele sinta que se empenhou demais para o meu presente e que eu não. Eu realmente me empenhei, eu só não sou tão boa quanto ele.
Ele pega em minhas mãos e beija.
''É perfeito, eu amei e vou usar desse jeitinho mesmo.''
''Tudo bem, gente, vamos logo porque se eu ficar mais dois minutos assistindo vou vomitar.'' Enrico dispara.
''E como você acha que nos sentimos perto de vocês? Não se desgrudam um minuto.'' Pedro aponta para ele e Laura.
''Não enche, Pedro.''
Todos rimos, porque somos todos grudentos para ser sincera.
''Aproveitem o grude mesmo, porque depois que casa as coisas não são mais assim.'' O pai da Laura descontrai o ambiente e leva um tapa no braço pela Alda.
''Tudo bem, gente, vamos andando.'' Meu pai diz chacoalhando a chave do carro. ''Não queremos perder os fogos na beira da praia.''
''Posso só trocar de roupa rapidinho?''
Quero colocar o vestido que ganhei de presente da Esther.
''Esperamos você no carro então, vamos indo pessoal.''
''É rapidinho, prometo.''
Subo as escadas correndo e coloco meu vestido, fica lindo como eu me imaginei nele, me sinto mais confiante com meu corpo a cada dia que passa. Passo o batom que Laura me deu e visto meu tênis, me sinto bonita.
Desço as escadas e ele me espera sentado no sofá, é como nas cenas de filme em que ele me assiste descendo as escadas, é exatamente assim que me sinto, admirada e contemplada por ele.
''Ual. Você me surpreende sempre.''
Ele coloca suas mãos em minha cintura.
''Idem.''
''Sarah, sobre estudar fora, eu...''
''Agora não, estamos em um clima agradável, depois conversamos sobre isso.''
''Eu só queria dizer que...''
Ele consegue ser insistente quando quer.
''Eu não quero que você diga nada agora.''
Ele não responde, eu realmente não quero saber sobre seus planos.

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