Barbara Godwin Point of View
A festa tinha acabado.
Joel estava sentado ao pé da cama, os braços apoiados nas pernas, a cabeça baixa.
Chris observava o amigo em silêncio, sem dizer nada.
Já se passava da meia noite. Joel havia dito que domingo tudo acabava, que aquilo chegava ao fim.
— Joe... — falei, deslizando pelo colchão bagunçado, indo até Joel. — Por que insisti com isso, se não é o que quer?
Passei os braços por seus ombros, deitando a cabeça em um deles. Passei as mãos por sua barriga nua.
Nós tínhamos tentado dormir, mas estavam todos inquietos demais para isso. A tensão se espalhava pelo quarto, os sentimentos de Joel saindo de seu corpo.
— Não é uma questão de querer, Anne. — Ele se afastou de mim, levantando da cama, permanecendo de costas para mim. — Só não dá mais para continuar.
— Você é o único que acha isso — Chris falou pela primeira vez na noite, não tendo dito uma palavra desde que entramos no quarto.
— Por que eu sou o único que realmente vê o que está acontecendo.
— Não. Você é o único que tem ansiedade, que sofre por antecedência. Ficar pensando que isso não vai funcionar no futuro te faz querer acabar com tudo agora.
Respirei fundo, fechando os olhos. Chris não deveria ter dito isso.
— Sim, Christopher — responde Joel, se virando. — Aparentemente eu sou o único aqui que se preocupa com a vida real. Alguém precisa ser o adulto da relação, já que não temos um.
Inspirei outra vez, segurando o choro. Minha primeira reação a toda vez que os dois começavam a brigar era essa, querer chorar. Eu odiava isso. Odiava fazer eles brigar.
Me levantei, indo até Joel. Ergui o rosto, olhando em seus olhos.
— Você me prometeu uma última noite — sussurrei para ele, aproximando meu rosto do dele.
Meu coração pulou no peito e minha garganta ardeu.
Minha mente me levou de volta para dezesseis anos atrás. Eu ainda me lembrava do cheiro de rosas, sendo o proferido de mamãe. Ela amava rosa. A flor, a cor, o cheiro, o sabor. E eu amava também, porque ela amava.
Mas naquela manhã eu me questionei se ela me amava da mesma forma que amava o rosa. Eu não conseguia entender o que estava acontecendo, não sabia porque a casa estava quieta, não entendia porque meu pai estava triste e porque havia malas na porta.
Ela não me amava?
— Por que você está me deixando? — perguntei a Joel, sentindo uma lágrima caindo.
Seus dedos se moveram para os meus, a cabeça abaixando para nossas testas se encontrarem.
— Porque você é incapaz de me escolher.
O ar me faltou.
— Joe...
— Mas você também não consegue escolher ele.
— Não faz isso — pedi, apertando sua mão. — Por favor.
Ele me ignorou, se abaixando um pouco mais. Sua barba roçou em minha pele, a boca deslizando por meu pescoço.
— Não pensa nisso essa noite, está bem? — Sua mão soltou meus dedos, subindo por meu braço, traçando o caminho até meu pescoço. Ele acariciou minha nuca, os olhos castanhos fixos em mim.
Eu me arrepiava sempre isso acontecia.
Joel sabia transmitir tudo o que sentia e pensava apenas com um olhar. E ele era tão mutável. Podia estar sorrindo em um segundo, mas no segundo sua mente encontrava erros ao redor, e seus olhos escureciam.
Eles faziam isso agora, mas a escuridão era de outra coisa.
Era de desejo.
Em menos de um minuto as emoções de Joel varreram o quarto outra vez, mudando completamente. Sua boca foi para a minha, me beijando. Seus pés se moveram para frente, me fazendo recuar até o pequeno armário encostado na parede. Ele segurou firme em minhas pernas e me colocou em cima da estante.
Com Joel, é sempre assim.
Ele é imprevisível, agindo rápido quando seu humor muda. Cada noite que estive com ele foi uma nova descoberta de quem ele é, de suas emoções e sentimentos. E ele as sente tão bem, sempre claro e direto.
Joel tinha me prometido uma última noite. Tinha nos prometido. Não iriamos passar nossas últimas horas nos lamentando, Chris nos prometeu. Não, não iriamos.
Era a hora de honrar o último mês.
Eu não conseguia acreditar que tinha sido apenas um mês.
Passei os braços ao redor dos ombros de Joel, abrindo a boca sob a dele, sentindo sua língua na minha.
Ainda me lembrava do nosso primeiro beijo, na piscina da faculdade. Nossas turmas tinham invadido o campus esportivo durante a madrugada. Pulamos na água gelada da piscina, e no meio de toda aquela confusão, Joel e eu nos beijamos.
Naquela época eu nem mesmo imaginava quem era seus amigos, e estávamos longe de ter nossos mundos colididos. Éramos apenas duas pessoas na faculdade.
Chris se aproximou, e quando Joel o sentiu atrás dele, afastou a boca da minha. Seus lábios desceram por meu pescoço, as mãos firmes em minha cintura.
Os lábios de Chris deslizaram para os meus, me fazendo sair do Inferno e ir ao Céu. Era sempre assim, cada um me transportando para sua emoção.
Um mês, apenas um mês, e eu já conhecia cada mundo daqueles dois garotos.
O quarto estava quente, como se estivéssemos em um local longe dali, longe de toda aquela neve.
Joel estava deitado embaixo de mim, minha cabeça em seu peito, sentindo sua respiração sua respiração. Nossas pernas se entrelaçavam junto com as de Chris, que estava atrás de mim, o corpo encaixava ao meu. Eu sentia os olhos dele em mim, seu dedo deslizando suavemente por meu rosto.
— Você precisa conversar com ela... — Joel disse baixinho, acariciando minha mão. Para eles, eu já estava dormindo. — Quando eu for embora, precisa conversar com ela. Ela vai fingir que está tudo bem, mas não pode deixá-la fazer isso, ok?
— Tem certeza do que está fazendo?
— Nós temos?
O silêncio se alongo por diversos minutos, me fazendo achar que eles já estavam dormindo.
— Você vai cuidar dela, não vai? — Joel perguntou, a voz carregada de todas as emoções que eu conhecia. — Não vou voltar dessa vez, Chris.
— Vou.
— Precisa me prometer isso.
— Eu prometo.
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Thunder Bay
FanfictionA areia deu lugar a neve, o mar deu lugar a lagos congelados, e Byron Bay deu lugar a Thunder Bay. Com um mês restante de férias, Lara e seus amigos viajam a uma monótona cidade no litoral norte do Canadá. As consequências de suas ações e escolhas n...
