21 DE JULHO
Zabdiel nunca se atrasa.
Nunca.
Por isso, segunda feiras as dez horas da manhã, eu estava bem frustrada. Irritada. Mas a raiva esvai de mim conforme os minutos passam. Parada ao pé das escadas do primeiro andar eu encrava as portas duplas, esperando que Zabdiel aparecesse por elas a qualquer momento, como havia sido antes das férias.
Mas ele não apareceu.
Meu celular vibrou no bolso, e para meu desanimo, era Christopher.
Zabdiel me pediu para deixar umas roupas dele ai. Já to chegando.
Solto um suspiro e desço os últimos degraus, guardando o celular no bolso do short jeans, indo em direção a porta.
O lado de fora, a fachada da casa, não contém nada além de um longo jardim com grama verde e um caminho. Nem mesmo uma flor, apenas as grades altas e pretas decoravam a fachada.
Barbara aparece da lateral que levava aos fundos, usando roupas esportivas. Provavelmente estava malhando, já que é isso que costuma fazer quando está estressada. Penso em lhe contar sobre a mensagem de Chris, mas ao ver o carro preto de ontem parar em frente ao portão e ele aparecer atrás dos vidros, desisto. Ela mesma o vê.
Aponto para o carro e um dos seguranças sai e vai até ele, pegando a pequena bolsa que Christopher o entrega. Enquanto isso Barbie já atravessou os portões até o carro. Posso ver de longe os ombros dele caindo e o suspiro que dá, enquanto ela entra no carro. Enquanto me trazem a bolsa, observo Barbara dizer poucas palavras a Chris, que liga o carro e da partida, em uma discussão que ele provavelmente irá perder antes mesmo de começar.
A bolsa que o segurança me entrega contém apenas um par de uniforme preto. O uniforme de Zabdiel. Minha vontade é tacar a roupa no fogo, seria um drama sem duvidas prazeroso. Mas não posso fazer isso, então apenas volto para dentro.
A garagem fica no subsolo da casa, com uma das entradas sendo uma porta branca no canto da sala de estar. As escadas giram em duas curvas até o fim, dando lugar a um enorme galpão, repleto de carros e homens vestidos de preto. Minha regata branca parece uma bandeira ali.
Eu sempre argumentei ao meu pai que ele não precisava de tantos seguranças, que seriam pessoas sem trabalho em uma casa gigante. Para provar meu ponto, comprei caixas de baralhos e dei uma caixinha para cada. No momento, uma dupla estava em uma mesa alta, jogando com as cartas. Não havia como culpa-los. Com todo mundo em casa e todos os postos de vigia preenchidos, muitos deles ficavam sem ter o que fazer. Por sorte, meu pai nunca reclamou dessa atitude deles, e sempre permitiu que passassem o tempo livre da forma que achassem melhor. Eles tinham um líder, o chefe dos seguranças, e além de horas de treino, o que restava era realmente livre, e baralho parecia uma boa forma de matar o tempo.
— Já é meia noite? — pergunta um deles ao me ver chegar a garagem. — A princesa desceu do salto?
Mostro o dedo do meio para ele.
Felizmente eu e eles tínhamos um ótimo relacionamento. Eles enchiam meu saco, e eu revidava com gestos e palavras obscenas. A maioria trabalhava ali há anos, me viram crescer, e para mim representavam a figura de primos mais velhos. Muitos primos.
— O Sam mijou nas calças de novo? — Jerry aponta para a bolsa com o uniforme.
— Cara, era água! — rebate Sam, jogando suas cartas na mesa. — Água.
— Claro, e eu sei voar.
— Com tanto vento na cabeça, deve saber mesmo — responde Jerry, observando as cartas abandonadas do colega. — Cara, você é realmente péssimo.
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Thunder Bay
Hayran KurguA areia deu lugar a neve, o mar deu lugar a lagos congelados, e Byron Bay deu lugar a Thunder Bay. Com um mês restante de férias, Lara e seus amigos viajam a uma monótona cidade no litoral norte do Canadá. As consequências de suas ações e escolhas n...
