Minha mãe e eu estávamos na sala, enquanto eu batucava o dedo no celular e mexia o pé, como claros indícios de nervosismo.
Meu pai havia chegado há menos de dez minutos, e a primeira coisa que fez foi chamar Zabdiel ao escritório para poderem conversar. Zabdiel seria oficialmente desligado, deixaria seu posto de segurança.
— De quem é esse celular? — perguntou minha mãe, me assustando.
— Hãn?! — Franzi a testa, confusa com a pergunta, e então abaixei o olhar para o aparelho em mãos, com uma capinha preta. O celular de Zabdiel.
— Não é o seu modelo. E sua capinha... bem, se eu me lembro, era um peixe.
— Não era um peixe — falei a palavra com revolta. — Era a Dory, de Procurando Nemo.
— Onde está seu celular, Larissa?
Me encolhi no sofá, ciente de que meus pais só usavam meu nome verdadeiro quando estavam realmente bravos. Eles tinham sido bem claros sobre o celular novo, de que eu não teria outro em menos de dois anos. Era raro quando eles me controlavam com coisas assim, mas quando o faziam era para valer.
— Eu quebrei... — falei, apertando as mãos ao redor do aparelho e o trazendo mais para perto do corpo. — Vai ser melhor se eu te falar que eu não comprei outro? — perguntei, dando um sorriso amarelo.
— Não comprou?
— Não... — A olhei com medo, ainda encolhida contra as almofadas. Eu não podia falar que era do Zabdiel. Minha mãe estendeu a mão, e eu choraminguei. — Mãe...
— O celular, Lara. Agora.
Fiz biquinho, a encarando. Mas com ela isso não adiantava, não em momentos assim, ela ignorou meu olhar e continuou com a mão estendida.
Pronto, era agora.
Larissa Camille Butterworth
2000 — 2018
Entreguei o celular, sabendo que aquele seria meu último ato em vida. Será que se eu pedisse aos berros ela me deixaria ao menos dar um beijinho no Zabdiel antes de morrer? Ele estava logo ali no fim do corredor.
Eu não sabia exatamente o que ela iria fazer, mas um medo cresceu em mim quando tomei consciência de que ela estava com o celular do Zabdiel em mãos. Ai meu Deus.
Ai meu Deus.
A i m e u D e u s.
Não debloqueia. Não desbloqueia. Não desbloqueia.
Ela desbloqueou. Meu cu não passava mais nem wi-fi.
A tela de bloqueio brilhou, exibindo como um prêmio uma foto minha e de Zabdiel. Por que eu não tirei aquela foto dali quando voltamos para casa? Era a foto do nosso último encontro, em que tínhamos ido há um restaurante em um navio, quando Zabdiel me disse para ter fé em nós e me deu os colares com pingente de asa e cruz. Eu ainda os usava, pendurados no pescoço, se encaixando entre meus peitos. Na foto, Zabdiel estava encostado no carro, comigo entre suas pernas, enquanto eu beijava seu pescoço, com uma mão em seu rosto. As mãos dele, por sua vez, estavam em minha bunda, enquanto ele olhava para a câmera. Joel havia tirado aquela foto, quando chegamos. Havia sido um momento tão rápido, apenas para lembrarmos do dia, que eu mal me lembrava dele ter acontecido em si.
Minha mãe examinou a foto, sem expressão uma reação sequer. Enquanto meu pai era alguém que não conseguia se controlar e sempre expunha suas emoções, minha mãe conseguia esconde-las perfeitamente. Sempre pensei que essa habilidade fosse devido a ela ser professora de faculdade, e ser obrigada a ouvir tantas coisas o dia todo, que precisava se controlar ao máximo para não perder a cabeça. Nesse momento eu estava achando que fosse um pacto com o demônio.
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Thunder Bay
FanfictionA areia deu lugar a neve, o mar deu lugar a lagos congelados, e Byron Bay deu lugar a Thunder Bay. Com um mês restante de férias, Lara e seus amigos viajam a uma monótona cidade no litoral norte do Canadá. As consequências de suas ações e escolhas n...
