Eu estava em choque. Ou anestesiada. Em transe. Sem fala. Sem foco.
A festa tinha acabado, apesar de ninguém ter ido embora, e todos terem achado quartos vazios no primeiro andar para dormir.
Eu fiquei encarando a porta após Natálie sair, achando que meu mundo fosse desabar em lágrimas. Mas nada aconteceu. Foi como mais cedo quando meus pais haviam me dito que iriamos nos mudar. Eu não conseguia sentir nada.
Mas dessa vez eu sentia. Sentia tudo. Raiva. Ódio. Medo. Solidão. Cansaço. Luto. O problema era que cada emoção estava presa dentro de mim, todas gritando junto. Porém minha mente as congelava, congelando também qualquer reação que eu pudesse apresentar.
Foi Zabdiel quem me tirou da sala e me trouxe para meu quarto. Ele me sentou na beirada da banheira e abriu minha mão, limpando o sangue com um pano úmido. Eu nem sequer havia sentido os rasgos que as unhas tinham feito, e não sentia nada enquanto ele os limpava.
Ele fechou a porta do banheiro, me levantando e tirando meu roupão. Ligou o chuveiro, deixando a água esquentando enquanto voltava e puxava a camiseta preta por cima dos ombros. Sua bermuda se juntou a peça no chão. Pegando minha mão, ele me levou para dentro do box, o fechando e me colocando embaixo da água quente.
Foi como se a temperatura elevada tivesse destrancado tudo o que eu estava segurando até ali. As emoções vieram de uma só vez, as lágrimas salgadas caindo, enquanto meu corpo todo tremia e minhas pernas vacilavam, me levando ao chão.
Zabdiel me pegou antes que eu caísse, puxando meu corpo para perto e me apertando contra ele.
Chorei pela amiga que eu perdi. Chorei pela amiga que magoamos. Chorei pelo medo de ir embora. Chorei pelo medo de perder Zabdiel. Chorei tudo o que queria ter chorado desde o momento em que meus pais haviam me dito de que iriamos nos mudar, e eu deixaria para trás minha família, meus amigos. Chorei pela faculdade que eu não iria entrar mais. Pelos anos de estudo jogados fora.
Tudo aquilo que estava dentro de mim começava a sair, e a cada instante era como se eu estivesse flutuando para longe da Terra. O ar me faltava cada vez mais, e eu apertava o corpo de Zabdiel como se de algum modo aquele contado extremo pudesse me machucar, como se a dor fosse tirar tudo o que eu sentia.
Mas não tirava.
Chorei até o ar começar a me faltar e meu cérebro gritar por oxigênio, até minha visão começar a embaçar com pontos pretos.
Abracei Zabdiel como se minha vida dependesse disso, o rosto enterrado na curva do seu pescoço, apertando o forte contra mim.
Perdi a noção do tempo e do espaço, não percebendo quando foi que as lágrimas pararam de vir, e quando meu corpo passou a tremer de frio. Zabdiel me levantou quando minha respiração se normalizou, me colocando outra vez embaixo da água. Nenhuma lágrima veio, e o banho terminou da forma como começou; em silêncio.
Quando saímos do banheiro, eu já conseguia fazer algo sem precisar que Zabdiel fizesse por mim. Enquanto eu segui para o closet, ele ficou no quarto, onde sua mochila com roupa estava.
Como acontecia com toda noite em Boston, a temperatura caia. Fiquei feliz ao poder usar moletom após tanto tempo querendo dormir pelada.
Voltei para o quarto encontrando Zabdiel sentado na beirada da cama, sem camisa e apenas de calça. Me ajoelhei no colchão atrás dele, o abraçando e beijando suas costas.
— Natálie vai para Londres — contou, pegando minhas mãos na frente do seu corpo.
— Foi por isso que ela veio aqui? Para te contar?
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Thunder Bay
FanfictionA areia deu lugar a neve, o mar deu lugar a lagos congelados, e Byron Bay deu lugar a Thunder Bay. Com um mês restante de férias, Lara e seus amigos viajam a uma monótona cidade no litoral norte do Canadá. As consequências de suas ações e escolhas n...
