(Alysson)
Gael me trouxe para a empresa junto com ele hoje.
É afastada da cidade, um prédio grande. A recepção é impecável. Tem uma moça atrás de um balcão enorme, que quando vê o Gael, abre um sorriso. Mas o Gael a ignora descaradamente.
Ele recebe muitos acenos com a cabeça, muitos homens de terno, mulheres de saia envelope e blusa de botão branca. Parece um uniforme.
Alysson- Quantos tipos de empresas seu pai tem?
A pergunta sai com tanta espontaneidade que eu fico surpresa.
Gael- Muitos tipos. A preferida dele é a de carros.
A empresa Ducar. A empresa de carros da família Duarte é a mais famosa dos Estados Unidos.
Alysson- Essa se resume a que?
Gael- Essa basicamente é onde passa todo o orçamento, pagamentos, onde resolvemos problemas inacabados.
Alysson- Por que aqui no Brasil, especificamente no Rio?
Gael- Porque aqui é onde roda mais orçamentos.
Morros. É claro.
Gael ganha uma grana alta com o morro, dinheiro sujo de drogas e armas. Mas um motivo para eu fugir dele. Se caso a polícia descobrir toda essa corrupção, eu vou ser presa também. Apesar do crime terrível do meu pai...
Entramos no elevador, e ele aperta no botão do último andar. No elevador ficamos em silêncio. O elevador me deixa um pouco tonta.
Quando chegamos, tem um corredor enorme, e uma porta logo depois de uma recepção. Tem uma mulher asiática sentada atrás do balcão. Ela conversa com o Gael com o idioma brasileiro impecável, provavelmente mora aqui faz um tempo. Ele sorri para ela, e pega na minha mão me levando até a porta. Seu escritório imagino.
Fico encantada quando ele abre a portas. Janelas enormes de vidro, com enormes cortinas. Sofá mil vezes maior que eu, tão macio que eu poderia dormir o dia todo nele.
Tem uma mesa grande, organizada com um notebook no centro, uns papéis ao lado e uma cadeira de couro grande. Atrás mais no canto tem uma prateleiras com livros. A sala está um pouco escura, mas posso ver claramente tudo.
Ele coloca sua mão em minha cintura e eu arrepio.
Alysson- O lugar parece confortável.
Confortável? O lugar é maravilhoso. Agora entendo o motivo dele ficar aqui o tempo todo.
Gael- Esse era o escritório do meu pai. Mas eu reorganizei do jeito que eu gosto.
Alysson- Como o seu pai conseguiu tudo isso?
Gael- Corrupção é a palavra certa.
Arqueio as sobrancelhas surpresa.
Gael- Meu pai desviava dinheiro de suas eleições como prefeito. E foi ficando cada vez mais ambicioso. Cada vez mais ganancioso. O dinheiro o fazia se sentir poderoso, e fazia ele achar que tudo e todos estavam em suas mãos.
Parece que ele está falando de si mesmo.
Gael- Ele criou a máfia. Conseguiu aliados que confiava. Seu pai era um deles. Trabalhavam pra ele, em troca de dinheiro. Fazia certos trabalhos avassaladores, tudo em troca de dinheiro. Porque o dinheiro e a ambição o cegou. Apesar de tudo, sempre foi bem prestativo a família. Apesar de não ter dado certo com a minha mãe, eles eram amigos ainda.
Engulo em seco. Eu não deveria mencionar o pai dele.
Gael- Apesar disso tudo. Sempre foi um bom pai pra mim. Não merecia o fim que teve. Tudo o que plantamos, um dia colhemos. Cedo ou tarde.
Seu olhar baixa. Está triste.
Sinto a culpa subir pela minha garganta, e meu coração doer, como se estivesse uma faca cravada nele.
Gael solta minha cintura, e vai até a sua cadeira, abre o notebook e começa a trabalhar.
A angústia fica entalada na minha garganta. Assim como a culpa de ser cúmplice.
