Alysson
No final das contas eu pude confiar neles. Faz 4 dias que estou escondida. Sozinha. Pensando.
Pensando em como voltar para os Estados Unidos. Pensando em como salvar o meu pai. Pensando no quanto eu fui tola em achar que seria fácil. Já pensei em voltar, mas tenho certeza de que ele me mataria. Certeza de que morreria em um piscar de olhos.
Lia trás comida pra mim toda semana. Apesar de estar longe do Gael, eu odeio essa situação. Eu queria sair, trabalhar e fugir desse país. Voltar para o meu pai, voltar para a nossa casa.
Mas eu sei que isso não é possível. Sei que isso jamais vai ser possível de novo.
Dês do dia que meu pai assassinou alguém, eu soube que tudo mudaria. Que não importa o quanto eu tentasse, aquilo sempre iria me atormentar. Eu sempre seria a cúmplice que não denunciou aquele ato brutal.
Tentava me confortar, falando para mim mesma que outras pessoa já tinham feito pior, mas nada ajudava. Nada tirava da minha mente que eu estava com um assassino dentro de casa. Nada tirava da minha cabeça que ele poderia me matar também. Mas ele era meu pai, não faria isso. Mas a verdade é que eu não acreditava nisso.
Passava madrugadas acordada, com medo. Medo dele beber e tentar me matar também.
Sentia meus olhos se fecharem, mas a qualquer barulho, qualquer sinal eu já os abria e não os fechava mais.
Ele é meu pai. Ele é meu pai. Eu repetia isso constantemente para me confortar, e tirar aqueles absurdos da mente. Mas a culpa e o medo sempre estavam lá.
Quando o Gael apareceu. Eu vi meus pesadelos voltarem. Mas também aceitei a morte do meu pai naquele momento. Naquele momento eu senti todo o fardo sair do meu corpo. Eu implorei para não mata-lo. Mas se matasse o fardo não estava mais em mim.
Eu me sinto uma péssima filha, e nego isso pra mim todos os dias. Não quero que ele morra. Não quero que ele morra. Ele é meu pai. Ele é meu pai.
Ele ser meu pai não tira o fato de ter matado uma pessoa, a sangue frio. Não tira o fato de não se sentir amargurado.
Eu não vejo nenhum remorso. Nem arrependimentos.
Ele não sente nada.
Ele foi tão egoísta.
Ele é meu pai. Não muda o fato de te matado alguém. Tudo isso que estou passando é culpa dele.
O Gael tá obcecado por mim, por culpa dele. Fui forçada a fazer tudo isso, para proteger ele.
Mesmo depois de tudo, ainda estou aqui sentada pensando em como salvar ele.
Passo a mão na cabeça frustrada. Assustada. E sem perceber eu choro. As lágrimas caem sem ao menos eu perceber.
Tento afastar os pensamentos que me atormenta na calada da noite. Afastar todo os sentimentos de culpa e desespero. Tento me concentrar em arrumar um jeito para fugir disso. Mas não encontro. Não me concentro.
O sentimento de culpa e o peso de ter acobertado um assassino, falam mais alto. Me domina, de uma forma que não consigo controlar.
Ele é meu pai. Ele é um assassino. E eu estou pagando por uma consequência que não é minha.
