O amor é cego mesmo.

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Por Elaine

No carro, ele olhava atentamente para frente. As portas estavam aldravadas e o rádio ligado, tocava "Somebody make a move", a música era de Icon For Hire, e eu não podia deixar de cantarolar baixinho, apesar do nervosismo, a canção estava me acalmando.

E se esse fosse meu último dia viva? E se essa de "vamos ao mercado" não passasse de uma desculpa para enfim, me levar para a cova?! Não demorou muito, até eu ver um supermercado realmente.

Quando ele parou o carro no estacionamento, ele abriu o porta-luvas pegando um boné e uma máscara cirúrgica, a qual provavelmente taparia seu rosto por completo sem dar realmente a impressão que essa era a intensão, ele nunca permitiria eu ver seu rosto, era curioso, o que poderia haver por trás dessa dissimulação?

Ele destravou o carro, e saiu fechando a porta, deu a volta, e abriu o meu lado, foi tudo bem rápido, claro, ele não queria que eu pensasse em nada nesse meio tempo que eu não estivesse preso a ele de alguma maneira.

O estacionamento tinha uns 5 carros, e o vento frio batia em meu rosto.

Ele entregou uma máscara igual a dele, aquelas usadas em hospitais.

- Por que tenho que usar também?- encaro a máscara de tamanho perfeito.

- Sem perguntas.

Respiro fundo e a coloco.
Quando estramos me bateu um grande medo.

- Pega um carrinho.- ele disse. Fui em direção aos carrinhos, lá tinha uma moça que me encarava estranho.

Por um segundo eu pensei numa grande chance, mas meu medo gritou mais alto, apenas desviei o olhar indo atrás dele, enquanto empurrava o carrinho.

Eu sentia que todos me olhavam, todos me encaravam, era desconfortante, eu me sentia uma ladra ou algo do tipo.

Ele apenas olhava alguns produtos nas prateleiras, lia as coisas escritas atrás, a data de validade etecetera, e jogava no carrinho, sem nem olhar o preço.

Quando chegamos a um corredor de besteiras, ele disse que eu poderia escolher o que quisesse,
não era muito confortável, mas se ele me matar depois de comer todas essas porcarias, eu não reclamaria.

Peguei salgadinho, marshmellow, doce, chocolate e amendoim.
- Vai explodir...- ele disse. Pensei que era pra mim devolver algumas coisas, mas acho que foi algo da minha cabeça, pois quando fui colocar no lugar ele tomou da minha mão e colocou no carrinho de volta, ele seguiu controlando o carrinho.

E eu atrás, seria uma brecha para uma dispersão. Dou um passo para trás, e percebo que ele não sente minha desaproximação, repito consecutivamente.

Me esbarro numa mulher de carrinho, peço desculpas, e isso claramente chamou a atenção dele, ele virou em minha direção, comecei a correr tropeçando nas pessoas, ele pula em cima de mim e todos gritam assustados, eu chamo por ajuda, mas todos saíram correndo do mercado e algumas pessoas apenas se esconderam, ninguém iria ajudar.

Ele crava a mesma lâmina de mais cedo em meu abdômen e segura meu pescoço, tento o empurrar mas nem tinhas forças pra...

- Hey! Acorda!- Aquela voz. Quando percebo que era apenas um pensamento, estou de frente para o caixa, com uma sacola na mão.- Embala logo o produto, qual seu problema?- ele diz grosso.

- Nada...- respiro fundo, colocando as mercadorias na sacola com rapidez.

Na volta pro carro, meu coração batia meio acelerado, estive pensando na bendita possibilidade de conseguir escapar, e em tantas ensejos que me apareceram, agora era tarde, pois agora, o sinto mantém meu corpo contra o banco, a porta tinha os pinos da tranca abaixados, e o meu suposto futuro assassino ao meu lado, provavelmente armado.

No caminho, a rádio toca uma música, que por mais que na hora em que ela tocou, ele tenha a tirado com rapidez, eu pude notar um detalhe; A voz era grave e rouca, tinha bom timbre, e o solo da guitarra era ótimo...

"This is Hell, This Is He..."

Foi a única coisa que pude ouvir.

A voz era bastante semelhantes as vezes que ouvi o homem ao meu lado cantar enquanto tentávamos compor uma música.

A música que tocava agora era Dumb de Nirvana, eu sempre amei a música, mas aquela voz da última canção não saia da minha cabeça, me fazia encarar a estrada pensativa, e minhas íris ficaram alternando várias vezes para seu rosto no reflexo do vidro.

Não percebi quando chegamos, até que ele abriu meu lado da porta, quando fui sair ele barrou minha passagem, e encarou a casa, que tinha as luzes da sala acesa, e o rádio lá de dentro tocava bem alto uma música que estava sendo abafada, impossível decifrar.

Ele me empurra pra dentro do carro e fecha a porta, antes dizendo "Fica ai", como se eu tivesse opções, o carro faz um barulho e as travas das portas se abaixam.


Alguém estava lá dentro definitivamente.

Vejo ele caminhar até a porta e a abrir, os vidros do carro isolaram qualquer som que vinha de fora.

Comecei a vasculhar pelo carro algo que me ajudasse a escapar. Havia moedas, papeis, Cd's, canetas, cupons, recibos, notas fiscais, e até mesmo camisinha, mas não havia merda alguma que me ajudasse a pelo menos quebrar o vidro.

Comecei a tentar com minhas próprias mãos, batia no vidro diversas vezes, tanto que elas ficaram dormentes, meio roxas e vermelhas, depois com os pés, mas o vidro não quebrava, e minhas tentativas me deixaram ofegantes e até descabelada.

Vejo uma mulher sendo puxada de dentro da casa pelo braço, e é empurrada pra perto de um carro preto que devia ser um Opala,
ela gritava e batia o pé, irritada, avançava pra cima dele, desferindo tapas em seu peito enquanto o empurrava, furiosa.
Ele segura seus braços e parece tentar acalma-la, mas ganha um tapa muito bem dado no rosto, que percebi logo após estar sem nada cobrindo novamente, e mesmo assim, mais uma vez, eu não conseguia enxergar aquele rosto.

Eles dão uma pausa se encarando, ela parecia meio perplexa e parecia pedir desculpas enquanto tocava em seu rosto, ele apenas segura suas mãos as retirando de perto e a empurrando, fazendo-a bater as costas no carro que certamente era dela.

Ele entra na casa a deixando do lado de fora, a boba ficou parada o olhando entrar, parecia arrependida, Isso por que talvez não saiba o quão horrível ele possa ser.

Tento chamar sua atenção batendo no vidro, duvido que me veria aqui dentro.

Apaixonada, não aceita o fim da relação e vem aqui frequentemente o provocar em busca de uma volta, mas o que isso irá levar a ela? ele não age de maneira agressiva com ela, mas perde a linha facilmente, ah, o amor é cego mesmo.

O CativeiroOnde histórias criam vida. Descubra agora