Eternamente minha

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Por Elaine

Passei um tempo de braços cruzados sentada na cama, era tediante, e já fazia um tempo que estava o esperando abrir a porta.

Bufo enfadada.

O barulho da trava me faz despertar dos meus pensamentos.

Ele suspira cansado, e fecha a porta retirando a regata que usava.

Não queria ser tão indiscreta, mas seu corpo cheio de tatuagens e seu abdômen me chamam bastante a atenção.

Ele passa por mim, com passos largos abrindo a gaveta do criado-mudo, pega uma caneta, depois o mesmo caderninho de antes, e senta ao meu lado.

- Podemos continuar agora? Eu estava pensando e agora que você me ajudou a criar boas partes, gostaria que continuasse assim. Eu não a terminei, apaguei algumas partes, fiz e refis, mas as melhores foi as que me ajudou.- ele diz encarando o caderno com a metade de uma composição.

- Tudo bem

_______________

Eu não vou mentir, não me sinto bem o ajudando, e o que ele fez comigo ainda vem a minha mente.

Tantas das vezes em que ele me pede uma opinião, eu fico perdida em minhas cogitações, ainda, eu me sinto abandonada pelas pessoas a qual convivia, e claramente isso foi a pior coisa que eu poderia pensar, de pouco em pouco ele notava minha falta de atenção, deve ser porque eu fazia a cada pergunta um som de dúvida, não tinha como disfarçar, era impulso.

- Tá pensando no que? - ele diz com aquelas íris azuis em mim.

- Em nada.- não queria dizer, não tinha porque, são só coisas que ele já havia me dito.

- Se não fosse em nada, estaria pelo menos prestando atenção no que eu digo, a sua expressão facial não ficaria mudando.

- Como assim? - ele reparava até mesmo nas minhas expressões faciais, isso era obsessivo.

- Sua expressão está alternando, tristeza, indignação, raiva, e está assim respectivamente. Parece que já entendeu.

- Entendi?

- É eternamente minha, e será assim para sempre, seremos como almas encadeadas, até que eu ou você morra. Você está sozinha, ninguém te quer por perto, não pense que a pessoa sumida a qual procuram é você, pessoas vivem desaparecendo nessa cidade, para a polícia você é só mais um caso de jovem fúfio e fútil.- aquilo me doeu mais que qualquer palavra que ele já havia dito.

Não pude deixar de notar meus olhos lacrimejarem.

- Somos como "patrono".- ele coloca o dedo indicador no próprio peito.- e "asilada".- ele aponta para mim.

Senti nojo, afinal, a alguns dias atrás ele me forçou a transar com ele, em outras palavras me estuprou, e eu não sei como ainda conseguia conviver com ele tão pacatamente, a energia que ele me passava era de raiva e pena, e de alguma maneira familiaridade.

- Não pude deixar de notar seu olhar de indignação.- realmente eu fiz essa expressão.- e nem ignorar as lágrimas que estão em seus olhos.- Eu desvio o olhar para qualquer outro lugar.- Olhe pra mim.- Ele diz firme, mas não conseguia. abaixo a cabeça.- Olha pra mim!- ele aumenta o tom e o olho com amedrontamento. - Não quero que chore, não por algo que agora você tem.- ele acaricia a parte que havia escorrido uma lágrima.- Vamos, Elaine, agora você tem alguém - ele chega perto do meu ouvido.- que se você sumir, ira atrás de você até no inferno.- meu corpo se estremece, sinto um grande calafrio.

Ele se levanta pegando os objetos e os guardando, vai até o guarda-roupa pegando uma toalha.

Não conseguia tirar suas palavras da minha cabeça, que me deram uma expressão de espanto e sensação de medo e covardice.

Mais lágrimas escorrem pelo meu rosto, eu encaro o chão em descrença era tudo irreal, não, eu apenas queria que fosse.

- Tome.- ele coloca a toalha ao meu lado.- agora são onze da noite, vamos no mercado, tome um banho.- ele ficou um tempo me olhando.

Ele agacha retirando as correntes.

Em milésimos de segundos, vieram imagens de que se eu o chuta-se e o desmaia-se, eu conseguiria fugir, mas lógico que daria errado.

Ele já me bateu uma vez, pode me bater de novo, não é uma dor para se conviver.

- Irei trocar as correntes, enquanto isso tome um banho, essas estão enferrujadas.- ele diz enrolando a corrente e saindo do quarto. Poderia imaginar eu conseguindo sair por aquela porta e correndo o mais rápido para fugir, mas não demorou muito para porta ser fechada com força, trancada pelo lado de fora.

Limpo as lágrimas, pego a toalha e me dirijo ao banheiro. A água era morna, escorria por minha pele de forma relaxante, e acredito que se não fosse tão raro essa sensação aonde me encontro, eu não a apreciaria tanto assim, até porquê é típico do ser-humano, saber apreciar/valorizar/contemplar algo ou alguém apenas quando não se tem; talvez essa fosse a única coisa que eu realmente tenha perdido, além da minha liberdade, essa sensação relaxante.

Haveria algum mercado aberto neste horário? Espera, não tem como ele me prender à correntes dentro de um mercado, a várias pessoas num mercado, eu poderia simplesmente pedir ajuda, ou correr!

Lavo meu rosto e molho sem querer o cabelo que estava evitando molhar; Desligo o chuveiro, e saio enrolada na toalha.

Ao olhar na cama, tinha uma muda de roupa, uma jaqueta jeans muito grande, a minha calça que não via a um tempo, uma camiseta grande que era óbvio ser dele, e um coturno bege, que quase serviu no meu pé.

A jaqueta era bem quentinha, mas bem pesada, amarrei o coturno bem firme, para que meu pé não ficasse saindo.

Me olho no espelho do guarda-roupa, meu cabelo bagunçado, então o arrumei com os dedos, não ficou lá bem arrumado, mas pelo menos pra pedir ajuda você tem que parecer 'gente', porquê o homem pode ser tudo, menos bondoso com aquele que se apresenta inferior.

Respiro fundo, a porta abre e ele me encara, entra e a fecha.

Se aproxima de mim, me olhando de cima a baixo, não podia focar em nada além de seus olhos, por que era o máximo que podia ver através.

Ele me empurra me pressionando contra o armário, me segurando pela garganta, fazendo me encara-lo mais ainda.

- Se tentar fugir, eu te mato, se pedir ajuda, eu te mato, se abrir a boca, eu te mato, qualquer movimento seu que me parecer suspeito, eu. te. mato. Me entendeu?- minha respiração estava travada, balanço a cabeça em sinal positivo. Ele tira a mão do meu pescoço e eu inspiro fundo contendo a vontade de chorar. O sigo até a parte de fora, pela primeira vez; A floresta era assustadora olhando-a de noite, o vento era forte, e a estrada mal dava para se enxergar já que a mesma também era meio afastada do casebre.

Essa sensação de alforria, e poder respirar um pouco ar livre me deu uma pequena sensação de conforto.

O CativeiroOnde histórias criam vida. Descubra agora