Capítulo 10: O Campo de Batalha da Voz

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A nova rotina noturna de Angeline era excruciante. As sessões de Legilimência não eram mais sobre desabafar, mas sobre vocalização. Snape a forçava a tentar articular uma única palavra por noite.

Ele não lhe pedia palavras simples como "sim" ou "não". Ele pedia palavras carregadas de emoção: "Vingança." "Medo." "Liberdade."

Na primeira noite, Angeline tentou dizer "Vingança." Seus lábios tremeram. O ar vibrou em sua traqueia, mas o som preso em sua garganta era apenas um espasmo doloroso.

"A dor é a sua segurança, Angeline. É o que a impede de se machucar com a verdade," Snape pensou friamente em sua mente, mas havia uma impaciência contida.

A cada falha, a mente de Angeline gritava de frustração, e Snape sentia a repercussão.

O estresse estava visível nele. A expulsão de Draco Malfoy havia atraído a atenção do Ministério e de Lucius Malfoy, forçando Snape a gastar horas redigindo relatórios. Sua obsessão com o caso de Angeline somada à pressão externa o levaram a um erro impensável.

Durante a preparação de um simples Analgésico Potente, ele adicionou a dose errada de Essência de Dictamo. O resultado não foi uma explosão, mas uma poção espessa e inútil, algo que ele não fazia desde a juventude.

"O senhor está distraído," Angeline pensou para ele, percebendo o cheiro estranho que emanava do seu laboratório.

"Não tente usar sua perspicácia contra mim, Senhorita Finnigan. Concentre-se," ele replicou mentalmente, furioso consigo mesmo e com o caos que ela trouxe à sua vida controlada.

A Muralha Final

Naquela noite, a palavra era "Ódio".

"Diga," Snape ordenou, não em pensamento, mas com a voz áspera e audível. "Diga em voz alta. Odeie a mim, odeie a sua mudez. Mas use o ar dos seus pulmões."

Angeline olhou para ele. Sua mente estava cheia de uma raiva destrutiva—ódio por Draco, ódio por sua própria impotência, ódio pela frieza calculista de Snape.

Ela inspirou profundamente. Seus olhos marejaram de esforço. Ela tentou forçar o som para fora, mas o medo de ser ouvida era maior que o ódio. O som morreu em um choro silencioso e convulsivo.

A frustração atingiu o limite. Angeline não conseguia falar, mas ela precisava de uma ruptura.

Em um ato de desespero cego, ela levou a mão ao rosto e pegou um pequeno cálice de cristal que estava na mesa ao lado. Ela o arremessou.

O cálice se espatifou contra a parede, próximo à cabeça de Snape, fazendo um barulho ensurdecedor.

Snape sequer piscou. Ele estava preparado para a fúria dela, mas não esperava a violência física.

"EU ODEIO VOCÊ!" O pensamento de Angeline era um trovão mental, direcionado diretamente para ele, cheio de lágrimas e raiva não verbalizada. "EU ODEIO QUE VOCÊ POSSA ME OUVIR E EU NÃO POSSA TE RESPONDER! EU ODEIO QUE VOCÊ SAIBA MEUS SEGREDOS E EU SEJA INÚTIL!"

Apesar do caos mental, Snape viu o que precisava. O ódio mental era puro, descontrolado e, crucialmente, dirigido a ele, a pessoa que a havia salvado e que estava exigindo sua vulnerabilidade. A muralha de silêncio não estava mais a protegendo.

Snape se levantou, caminhou até ela e, pela primeira vez, colocou as duas mãos nos braços de Angeline, segurando-a firmemente. Ele não a magoou; ele a ancorou.

"Excelente," ele pensou, a voz mental carregada de uma intensidade chocante. "Você acabou de me agredir e me insultar. Sua mente está livre, Angeline. Agora, use esse mesmo ódio. Use a raiva do seu corpo. FALE!"

A pressão era insuportável. Angeline gritou mentalmente, mas o som físico que escapou, o primeiro em anos, não foi "Eu te odeio". Foi a única palavra que representava sua dependência e sua fúria contra ele.

"SN-N-NA-"

A palavra morreu, mas o som tinha uma forma, uma consoante. Era o começo. A voz não era bonita, mas era real.

Snape fechou os olhos. A cura não era apenas ciência; era a ruptura do medo através do ódio e da confiança.

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