Capítulo 8: O Último Ouvinte

93 8 0
                                        

Com a visão recuperada, a Ala Hospitalar de Angeline foi liberada. Por ordem de Snape, ela deveria retornar gradualmente às aulas, acompanhada de sua irmã, Samantha.

O retorno de Angeline ao castelo foi um espetáculo silencioso. Ela agora carregava um pergaminho e uma pena para se comunicar. O gesto era lento, frustrante e, para Angeline, humilhante. Ela sentia que sua inteligência ficava retida na caligrafia paciente.

Na Grifinória, os colegas eram atenciosos, mas a comunicação era exaustiva. Seus pensamentos, rápidos e cheios de sarcasmo, eram traduzidos em frases curtas e formais no papel.

O único lugar onde sua mente corria livre era no escritório de Poções.

Snape havia imposto um novo regime: "sessões de Legilimência terapêutica" diárias após o jantar.

Em sua primeira sessão, Angeline sentou-se na cadeira à frente da mesa de Snape, sentindo-se estranhamente exposta sob seu olhar.

"Eu odeio essa pena. Leva cinco minutos para explicar uma piada," ela pensou, a frustração nítida em sua voz mental.

"A pena é seu intermediário com o mundo, Senhorita Finnigan. Comigo, você tem o luxo da eficiência," Snape respondeu mentalmente, o tom seco, mas sem escárnio.

A Legilimência não era mais para diagnóstico, mas para a exposição.

"Eu me sinto como uma criança. Todos me olham com pena. Eu sou uma Malfoy, mas ninguém sabe disso. Meu pai é um traidor para eles, eu sou uma inútil para Draco. O que eu sou, Professor?"

"Você é uma estudante de excelência que superou um ataque criminoso e recuperou a visão. Você é uma Legilimente natural com um intelecto que não pode ser medido em voz," Snape rebateu, sua voz mental era um choque de realidade. "Você é a única pessoa em Hogwarts capaz de manter uma conversa comigo sem proferir uma única palavra. Você é um paradoxo, Angeline. E não há nada de inútil nisso."

Snape percebeu que a mudez de Angeline estava ligada a um profundo senso de invisibilidade e falta de valor. Ele não podia curá-la com poções; ele precisava curá-la com reconhecimento.

Ele começou a usar as sessões para desafiá-la intelectualmente. Ele a questionava sobre filosofia, sobre a ética da Magia Negra, e sobre teorias avançadas de Poções. Angeline, em sua mente, era eloquente, perspicaz e brilhante, forçando Snape a debater em um nível que ele não alcançava com nenhum outro aluno.

Aos poucos, Angeline parou de temer o silêncio. Ela esperava ansiosamente pelas sessões noturnas, onde era verdadeiramente ouvida e vista pela primeira vez. Snape era o único a quem ela podia revelar seus medos sobre Draco e a complexidade de sua vida familiar.

Em uma dessas sessões, Angeline pensou: "Obrigada por não ter me deixado ir para a Fonoaudiologia. Eu não acho que eles entenderiam que a minha garganta está bem. É o meu medo que está apertando."

"O medo é um componente químico. E eu sou o mestre da Química, Angeline," ele respondeu, a ponta de um sorriso quase visível em sua mente. "Você não precisa da voz para se defender de Draco agora, mas você precisa dela para se defender do mundo. E eu serei seu Último Ouvinte até que você esteja pronta para quebrar essa muralha. Eu a verei. Eu a ouvirei. E eu a protegerei. Isso é uma promessa de Professor, não uma ameaça."

A aliança estava selada. A mudez era o último desafio.

A curaHistórias para pegar e não largar. Descubra agora